sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Sociedade Mundial da Cegueira - Leonardo Boff

O texto que se segue é de Leonardo Boff, teólogo escritor e professor universitário brasileiro, e encontrei-o no seu site http://www.leonardoboff.com/. Leiam com atenção.


"A Sociedade Mundial da Cegueira


O poeta Affonso Romano de Sant'Ana e o prêmio Nobel de literatura, o português José Saramago, fizeram da cegueira tema para críticas severas à sociedade atual, assentada sobre uma visão reducionista da realidade. Mostraram que há muitos presumidos videntes que são cegos e poucos cegos que são videntes.

Hoje propala-se pomposamente que vivemos sob a sociedade do conhecimento, uma espécie de nova era das luzes. Efetivamente assim é. Conhecemos cada vez mais sobre cada vez menos. O conhecimento especializado colonizou todas as áreas do saber. O saber de um ano é maior que todo saber acumulado dos últimos 40 mil anos. Se por um lado isso traz inegáveis benefícios, por outro, nos faz ignorantes sobre tantas dimensões, colocando-nos escamas sobre os olhos e assim impedindo-nos de ver a totalidade.

O que está em jogo hoje é a totalidade do destino humano e o futuro da biosfera. Objetivamente estamos pavimentando uma estrada que nos poderá conduzir ao abismo. Por que este fato brutal não está sendo visto pela maioria dos especialistas nem dos chefes de Estado nem da grande mídia que pretende projetar os cenários possíveis do futuro? Simplesmente porque, majoritariamente, se encontram enclausurados em seus saberes específicos nos quais são muito competentes mas que, por isso mesmo, se fazem cegos para os gritantes problemas globais.

Quais dos grandes centros de análise mundial dos anos 60 previram a mudança climática dos anos 90? Que analistas econômicos com prêmio Nobel, anteviram a crise econômico-financeira que devastou os países centrais em 2008? Todos eram eminentes especialistas no seu campo limitado, mas idiotizados nas questões fundamentais. Geralmente é assim: só vemos o que entendemos. Como os especialistas entendem apenas a mínima parte que estudam, acabam vendo apenas esta mínima parte, ficando cegos para o todo. Mudar este tipo de saber cartesiano desmontaria hábitos científicos consagrados e toda uma visão de mundo.

É ilusória a independência dos territórios da física, da química, da biologia, da mecânica quântica e de outros. Todos os territórios e seus saberes são interdependentes, uma função do todo. Desta percepção nasceu a ciência do sistema Terra. Dela se derivou a teoria Gaia que não é tema da New Age mas resultado de minuciosa observação científica. Ela oferece a base para políticas globais de controle do aquecimento da Terra que, para sobreviver, tende a reduzir a biosfera e até o número dos organismos vivos, não excluidos os seres humanos.

Emblemática foi a COP-15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague. Como a maioria na nossa cultura é refém do vezo da atomização dos saberes, o que predominou nos discursos dos chefes de Estado eram interesses parciais: taxas de carbono, níveis de aquecimento, cotas de investimento e outros dados parciais. A questão central era outra: que destino queremos para a totalidade que é a nossa Casa Comum? Que podemos fazer coletivamente para garantir as condições necessárias para Gaia continuar habitável por nós e por outros seres vivos?

Esses são problemas globais que transcendem nosso paradigma de conhecimento especializado. A vida não cabe numa fórmula, nem o cuidado numa equação de cálculo. Para captar esse todo precisa-se de uma leitura sistêmica junto com a razão cordial e compassiva, pois é esta razão que nos move à ação.

Temos que desenvolver urgentemente a capacidade de somar, de interagir, de religar, de repensar, de refazer o que foi desfeito e de inovar. Esse desafio se dirige a todos os especialistas para que se convençam de que a parte sem o todo não é parte. Da articulação de todos estes cacos de saber, redesenharemos o painel global da realidade a ser compreendida, amada e cuidada. Essa totalidade é o conteúdo principal da consciência planetária, esta sim, a era da luz maior que nos liberta da cegueira que nos aflige."

Leonardo Boff

17 comentários:

  1. Excelente texto, Manuela. Obrigado... ocorreu-me, a este propósito, a ficção de Saramago: "Ensaio sobre a Cegueira"... para tornar legível e inequívoca a metáfora, fazia muito falta conhecer este texto de Leonardo Boff.
    Um beijinho :)

    ResponderEliminar
  2. Nela

    Este
    filme. A letra... tudo é uma metáfora, uma boa ajuda a compreender o origem dessa cegeira.
    O meu/nosso maior inimigo...
    Aquele que mais combato!
    Beijinho

    ResponderEliminar
  3. Pessoalmente gosto muito de ler a Boff. Tem uma linguagem simples e profunda. Seus livros são muito esclarecedores.

    ResponderEliminar
  4. Olá Maneula,

    Sempre inovando!Gostava muito do outro modelo, mas também gostei muito deste.As matérias continuam ótimas.O Boff como sempre muito certeiro nas suas reflexões. Grande abraço querida, Liete.

    ResponderEliminar
  5. Manuela,
    Belíssima reflexão que nos deve conduzir a um mais maduro equacionar do que se pretende, pretendemos, para um futuro equilibrado.
    Sobretudo é preciso pensar.
    Um abraço.

    PS: Boa mudança de modelo do blog. Está mais leve e portanto de melhor leitura e consulta.
    Parabéns.

    ResponderEliminar
  6. Olá Ana Paula
    Embora ainda não tenha lido o "Ensaio sobre a cegueira", penso que será a esse livro de Saramago que Boff se refere.
    Mais uma vez obrigada por me ter "apresentado" Leonardo Boff. Ele pensa e escreve bem e claro.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  7. Olá Fada
    Tu e as gralhas :))) quem as não tem? Vou espreitar e "esse".
    "Pior cego é o que não quer ver", já diz o ditado.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  8. ...siempre hay una luz...

    Ainda não li nenhum livro de Boff, mas já li vários textos, de que gostei imenso, de facto são profundos e esclarecedores. Seja bem vindo a este blogue seu conterrâneo.

    ResponderEliminar
  9. Liete
    Eu só "conheço" Boff há poucos meses, mas é pessoa que vale a pena ler e reflectir. Excelente.
    Obrigada e beijinhos

    ResponderEliminar
  10. Miguel (T. Mike)
    Também achei este texto uma belíssima reflexão sobre os nossos tempos. Temos mesmo de reflectir sobre o nosso estilo de vida, para que possamos mudar. É preciso mudança, dentro e fora de nós.
    Ainda bem que gostou das "obras" do blogue, é também uma pequena "mudança".
    Obrigada e um abraço.

    ResponderEliminar
  11. Olá!

    Mais uma vez gostei bastante do post!
    Sem dúvida que concordo em absoluto com o texto de Leonardo Boff.

    Uma vez que julgo que os nossos interesses (assim como os dos seguidores deste blog) são semelhantes, aproveito para deixar aqui um link para um post de um outro blog, que achei bastante interessante e acho que vale a pena ler. O blog é do Professor Jacinto Rodrigues, e não sei se são seguidores ou não, mas aqui fica o mais recente post:

    http://jacintorodrigues.blogspot.com/2010/02/reflexao-critica-do-modelo-de.html

    Resta-me dar os Parabéns pelo magnífico blog. Continuem!! Eu continuarei a seguir o blog assiduamente. ;)

    Espero que não levem a mal, a "publicidade" a outro blog.

    Cumprimentos,
    Nelson Figueira

    ResponderEliminar
  12. Nelson

    Bem vindo aqui ao blogue, e ainda bem que gostou do blogue e deste texto de Boff.
    Já visitei os dois blogues do Prof. Jacinto Rodrigues (prof. de Ecologia Urbana a futuros arquitectos), pois achei-os muito interessantes. Fez muito bem divulgar - dei uma vista de olhos ao último post do seu blogue pessoal, e o texto é de facto muito interessante. Ainda não o li todo, que é muito grande e na altura não tive tempo, mas lá voltarei para ler cada frase com o devido tempo de reflexão que merece.
    Obrigada e cumprimentos

    ResponderEliminar
  13. Olá Manuela,
    Bom texto! Conheço alguns textos de Leonardo Boff… Um deles (publicação de 2000 - creio) intitula-se de Tempo e Transcendência. Leonardo descreve a seguinte assunção: "Há também uma pseudotranscendência que a cultura actual promove de forma inflacionada". Ora, de modo sintético consegue-se ir ao encontro da falta dessa "consciência planetária" que, no pensamento de Boff acabará por se traduzir em ética planetária…
    Um abraço

    ResponderEliminar
  14. Olá Manuela
    Tenho que ler Leonardo Boff, fiquei com bastante interesse.
    Obrigada por todas as informações interessantes que compartilha.
    Beijinhos,
    Manuela

    ResponderEliminar
  15. Olá Jeune Dame
    Também concordo com Boff em muitos aspectos, de um modo geral (e embora não tenha lido tanto assim dele) até parece que o senhor põe em pensamentos e palavras aquilo que eu "sinto" mas não consigo "conjugar".
    O que mais precisamos para defender o planeta e as pessoas mais carenciadas, é, primeiro que tudo, de ética. Palavra que infelizmente parece ser desconhecida de "quem manda", ou seja, dos detentores do poder económico e suas marionetas na política.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  16. Olá Manuela
    Visite a página de Leonardo Boff que indico no texto, e terá vários textos à disposição. Vale a pena ler e reflectir nas palavras deste senhor.
    Obrigada e beijinhos

    ResponderEliminar

Obrigada por visitar o blogue "Sustentabilidade é Acção"!

Agradeço o seu comentário, mesmo que não venha a ter disponibilidade para responder. Comentários que considere de teor insultuoso ou que nada tenham a ver com o tema do post ou com os temas do blogue, não serão publicados ou serão apagados.