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domingo, 7 de abril de 2019

Você vê?

«Eu vejo um sistema económico mundial que não tem outra escolha senão ser abandonado»

"Ver" é o primeiro passo para exigir a mudança. Já muitos estão a "ver" o que se passa, e a mudança lenta que ocorre não chega, vai ter de acelerar, e muito.

Eu vejo a maior parte do que está no filme abaixo, e é por isso que ainda ando pela blogosfera, 10 anos depois;  e é sobretudo por isso que ainda me mantenho em algumas redes sociais; a ver se ajudo mais algumas pessoas a "ver".

«Há tantas guerras a nível mundial porque "a rica Europa e América vendem armas (...) para matar crianças e matar pessoas."
"Um país que fabrica e vende armas tem na sua consciência a morte de todas as crianças e a destruição de cada família."
Declarações do Papa Francisco, fonte: TSF, 6/4/2019

«Um consórcio de estados ocidentais – incluindo os EUA, o Reino Unido e a França – continuam a fornecer armamento a membros da coligação de liderança saudita e dos EAU, apesar de provas avassaladoras de que este está a ser usado para cometer crimes de guerra. Apenas uma mão-cheia de países suspendeu as vendas de armas, incluindo estes a Holanda, a Noruega, a Dinamarca, a Finlândia e a Suíça.»
Fonte: "Iémen: quatro anos de um conflito mortífero", Amnistia Internacional, 25/3/2019


Sim, eu também vejo as ações maravilhosas de gente maravilhosa de todas as idades, ao meu redor e pelo mundo fora. 
São essas pessoas  que me inspiram e que ainda me dão esperança. 
Mas é preciso que mais "vejam" e se lhes juntem na construção de um novo mundo.

Esta mensagem (abaixo dos ****) com o vídeo "Você vê o que eu vejo?" foi publicada neste blogue em 31/7/2012, republicada hoje, 7/4/2019.

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"Você pode ignorar a realidade, mas não pode ignorar as consequências de ignorar a realidade" Ayn Rand

Versão em inglês aqui

Nota: 1 bilhão (Brasil) = mil milhões (Portugal)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Para onde vai a riqueza? Para os mais ricos!

«Fortuna dos 26 mais ricos é igual ao património dos 50% mais pobres do mundo»
Fonte:  Revista fórum, 22 janeiro 2019

«As fortunas dos bilionários aumentaram 12% no ano passado - ou 2,5 mil milhões por dia - enquanto as 3,8 mil milhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da humanidade viram sua riqueza diminuir em 11%»
Fonte: OXFAM International,  21 janeiro 2019

Todos temos a nossa pegada ecológica e a nossa quota parte na exploração excessiva de recursos do planeta. Mas há disparidades absolutamente inaceitáveis num mundo onde a informação viaja à velocidade da luz e está disponível para tanta gente.

Não é aceitável que os mais ricos continuem a enriquecer enquanto tanta gente vive abaixo do limiar de pobreza. Este sistema económico está errado. Errar é humano, mas persistir neste erro é desumano.

«De toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% foi parar nas mãos do 1% mais rico do planeta. Enquanto isso, a metade mais pobre da população global – 3,7 mil milhões de pessoas – não ficou com nada.

O dado faz parte do relatório “Recompensem o trabalho, não a riqueza”, lançado pela Oxfam às vésperas do encontro do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, que as elites empresariais e políticas do mundo»

O relatório revela como a economia global possibilita que a elite económica acumule vastas fortunas enquanto milhões de pessoas lutam para sobreviver com baixos salários.

Houve um aumento histórico no número de bilionários em 2017: um a cada dois dias entre março de 2016 e março de 2017. Atualmente há 2.043 bilionários no mundo.

Nove entre cada 10 bilionários no mundo são homens.
...
A riqueza dos bilionários aumentou 13% ao ano, em média, desde 2010 – seis vezes mais rapidamente do que os salários pagos a trabalhadores, que tiveram aumento de apenas 2% por ano, na média, no mesmo período. Enquanto isso, mais da metade da população mundial vive com renda entre 2 e  10 dólares por dia.»
Fonte: OXFAM Brasil, 23 janeiro 2018

Claro, como as taxas provenientes dos mais ricos diminuem, e claro, a riqueza desloca-se para os ricos, em vez de ser ao contrário, como mostra o gráfico abaixo (ver mais aqui).

Imagem obtida em OXFAM
Não consigo aceitar que não se evolua no bom sentido, no sentido de taxar a riqueza acumulada e distribui~la com mais justiça. O conhecimento desta realidade devia provocar não apenas a indignação mas uma revolução global. Isto assim não pode continuar, o que será preciso para mudar? O colapso? 

sábado, 20 de outubro de 2018

Os verdadeiros valores não têm preço

Infelizmente, a tendência que temos visto é que os mercados agora cheguem a todas as partes da vivência humana. Paga-se por barrigas de aluguer, compra-se o direito a poluir, o direito a não estar na fila, quase tudo se compra, quase tudo se vende.  As recompensas monetárias às crianças pelos bons comportamentos são provavelmente uma das maiores causas deste problema: uma geração que cresceu a achar que o dinheiro é o valor mais importante.  Para trás vão ficando os verdadeiros valores, como a solidariedade, respeito pelo outro, respeito pela natureza. 


A imagem / texto acima foram obtidos a partir do extrato  do livro O Que o Dinheiro Não Pode Comprar de Michael J. Sandel,  filósofo, escritor, professor universitário, ensaísta, conferencista e palestrante, e que enche auditórios e campos de jogos ao ar livre. A  seguir, fica o texto de apresentação do livro da Editorial da Presença : 

«Devemos recompensar monetariamente as crianças por lerem livros ou terem boas notas? Deveremos permitir que as empresas paguem para obterem o direito de poluírem a atmosfera? É ético aceitar ser pago para tatuar o nosso corpo com mensagens publicitárias?

Vivemos numa época em que quase tudo pode ser comprado e vendido. Nas últimas décadas, os valores do mercado infiltraram-se em quase todos os aspetos da nossa vida - saúde, educação, justiça, governo e até família -, e deixámos de ter uma economia de mercado para passarmos a ter uma sociedade de mercado. Mas que preço pagamos por vivermos numa sociedade em que tudo está à venda?

Em O Que o Dinheiro Não Pode Comprar, o autor procura lançar o debate, de forma a repensar o papel e o alcance dos mercados nas nossas práticas sociais, nas relações humanas e na vida quotidiana. E, acima de tudo, Michael J. Sandel procura responder à questão fundamental: como podemos proteger aquilo que é verdadeiramente importante?»




«Para lidar com esta situação, não nos basta protestar contra a ganância; precisamos de repensar o papel que os mercados devem desempenhar na nossa sociedade. Necessitamos de um debate público sobre o que significa manter os mercados no seu devido lugar. E, para que isso aconteça, precisamos de refletir sobre os limites morais dos mercados. Precisamos de nos perguntar se há algumas coisas que o dinheiro não deve comprar. A invasão dos mercados, e do pensamento orientado para o mercado, em aspetos da vida tradicionalmente regidos por normas não mercantis é um dos desenvolvimentos mais significativos dos nossos tempos.»   Michael J. Sandel

sábado, 26 de maio de 2018

A Corporação

A CORPORAÇÃO é um documentário canadiano premiado, de 2003, realizado por Mark Achbar, Jeniffer Abbott e Joe Balkan. Explica a natureza das corporações, infelizmente as instituições dominantes no nosso tempo, os males que comportam à sociedade, às pessoas, à saúde, à natureza, aos animais, ao ambiente, às florestas, à biodiversidade, ao equilíbrio do planeta, à vida.

Annie Leonard na sua "História dos cidadãos unidos versus corporações" já nos disse que o maior mal das corporações é serem consideradas "pessoas", e assim terem direitos jurídicos como pessoas.

Mas as corporações não são pessoas, pois não são dotadas de ética, de moral, e as pessoas que as gerem não são responsabilizadas pelos males que as corporações causam na sua ânsia de lucro demolidora. E mesmo quando são julgadas e condenadas, insistem em cometer crimes porque lhes compensa!

"A Corporação inclui entrevistas e testemunhos de 40 pessoas conhecedoras do sistema, nomeadamente Noam Chomsky, Naomi Klein, Milton Friedman, Howard Zinn, Vandana Shiva e Michael Moore, confissões, estudos de casos e estratégias de mudança."

Reserve 145 minutos do seu tempo para ver este documentário IMPRESCINDÍVEL! Asseguro que não serão desperdiçados!



Filme em 24 partes: 
Parte1;   Parte 2;   Parte 3;   Parte 4;   Parte 5;   Parte 6;    Parte 7;   Parte 8;   Parte 9;   Parte 10;   Parte 11; Parte 12;   Parte 13;   Parte 14;   Parte 15;   Parte 16;    Parte 17;   Parte 18;   Parte 19;   Parte 20;   Parte 21;   Parte 22;   Parte 23;   Parte 24;
_____________________________________________________________________________
Esta mensagem foi publicada inicialmente neste blogue em 17 de maio de 2011, com o título "A RAIZ DO MAL". 7 anos depois, republica-se pela importância do filme "A Corporação" na compreensão do mundo atual.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

HiperNormalização

VIVEMOS NUM MUNDO
ONDE OS PODEROSOS
NOS ENGANAM
NÓS SABEMOS
QUE ELES MENTEM
ELES SABEM
QUE NÓS SABEMOS
QUE ELES MENTEM
ELES NÃO SE IMPORTAM
NÓS DIZEMOS QUE NOS IMPORTAMOS
MAS NÃO FAZEMOS NADA
E NADA MUDA
É NORMAL
BEM VINDO
AO MUNDO DA PÓS-VERDADE
COMO CHEGAMOS
AONDE ESTAMOS AGORA



HyperNormalisation é um documentário da BBC (out 2016), realizado por Adam Curtis, que explica o conceito "pós-verdade" e conta a história extraordinária de como chegamos a este estranho tempo de grande incerteza e confusão - em que os que deveriam estar no poder estão paralisados ​​- e não tem ideia do que fazer. (trailer acima)

«Vivemos em tempos de grande incerteza e confusão. Eventos que parecem inexplicáveis ​​e fora de controle continuam a acontecer. Donald Trump, Brexit, a Guerra na Síria, a interminável crise dos migrantes, atentados aleatórios. E os que deveriam estar no poder estão paralisados ​​- não têm ideia do que fazer.

Este filme é a história épica de como chegamos a este lugar estranho. Explica não só porque acontecem esses eventos caóticos - mas também porque nós, e nossos políticos, não conseguimos entendê-los.

Mostra que o que nos aconteceu no Ocidente - não apenas aos políticos, jornalistas e especialistas, mas a também nós mesmos - reduziu-nos a uma versão simplificada e muitas vezes completamente falsa do mundo. Mas, porque está em todo o lado, aceitamos como se fosse normal.

Mas há um outro mundo lá fora. Forças que os políticos tentaram esquecer e enterrar há quarenta anos - que se tornaram fúnebres e mutantes, mas que agora voltam para nós com uma fúria vingativa. Perfurando a parede do nosso mundo.»

Fonte: BBC - HyperNormalização (tradução livre)

«O tema geral do documentário é mostrar como, desde a década de 1970, governos, financistas, jornalistas e utopistas tecnológicos abandonaram o mundo real e não só construíram como também passaram a viver nesse mundo falso simplista, esquemático e maniqueísta. Um mundo administrado por corporações e mantido estável pela política.»

Fonte: A ficção contaminou a Política no documentário "HyperNormalisation", de Wilson Roberto Vieira Ferreira, em Cinegnose, jan 2017

Filme completo em  https://youtu.be/dlhg_QF1cBk , com legendas em Espanhol, mas pode selecionar traduzir  para Português.

domingo, 26 de novembro de 2017

O Decrescimento

O conceito do Decrescimento (Decroissance em francês, Degrowth, em inglês) assenta no facto de o crescimento económico ser insustentável no ecossistema global, pois o planeta é finito e os recursos  naturais limitados, pelo que não é possível o crescimento infinito. Por oposição, o pensamento económico dominante considera que a melhoria do nível de vida só depende do aumento do PIB, promovendo o perpétuo crescimento  económico.

Imagem obtida aqui
«O decrescimento é um conceito social, político e económico e defende a redução da produção e do consumo uma vez que considera o excesso de consumo como a principal causa dos problemas ambientais e de desigualdade social.»

Esta é a definição constante de um documento resumo
elaborado por  Luís Coentro (novembro 2017), da Rede Transição Portugal, no qual se encontra informação acessível sobre o movimento do Decrescimento, a sua história, exemplos de soluções e obstáculos. 

Também encontram informação sobre este tema em português no blogue Decrescimento.

Abaixo, o vídeo "Dessine-moi l'éco: la décroissance, une solution à la crise? (O Decrescimento, uma solução para a crise), da série francesa Dessine moi l'éco, que acabo de legendar em português.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

"As chamas do cifrão" (por Pedro Miguel Cardoso)

"Já repararam no que há em comum nos factores que potenciaram a tragédia? Lucros privados, prejuízos colectivos. O cifrão é quem mais ordena."

A seguir, a transcrição do artigo de Pedro Miguel Cardoso publicada no Jornal Económico (SAPO):

As chamas do cifrão
Pedro Miguel Cardoso, Investigador

Imagem daqui
«A tragédia de Pedrógão Grande que queimou Portugal não é apenas um azar. É também o resultado de um rumo político e económico que tem uma dimensão global e uma dimensão nacional. Ilustrativo do tempo em que vivemos.

No que diz respeito à dimensão global, muitos cientistas têm alertado que o uso intensivo de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural) como fontes energéticas contribui de forma decisiva para rápidas e perigosas alterações climáticas. Prevê-se, entre outras consequências, uma subida da temperatura média global e o aumento da intensidade e frequência de fenómenos climáticos extremos. Para Portugal, as ondas de calor, a redução da precipitação e os incêndios de grandes proporções são esperados. As tentativas de regular e reduzir as emissões dos gases com efeito de estufa têm sido insuficientes perante as dinâmicas capitalistas globais e as poderosas indústrias envolvidas. Combinado com esta problemática temos a ascensão internacional do neoliberalismo, do culto das privatizações, da liberalização dos mercados, do lucro acima de tudo, de um Estado reduzido ao serviço dos grandes negócios. Um movimento intelectual e político que teve tradução e imitação portuguesa.

É neste quadro que podemos compreender que Portugal tenha uma floresta vocacionada para os interesses da indústria da madeira e das celuloses, com grande proporção de árvores altamente inflamáveis como o eucalipto e o pinheiro-bravo. Que seja o país europeu com a maior área de eucalipto, com a menor percentagem de floresta pública (2%) e a maior percentagem de floresta ardida. Que se tenha dado uma machadada nos serviços florestais e na vigilância da floresta. Que tenhamos um sistema de comunicações de emergência e segurança (SIRESP) que aparentemente custou 5 vezes mais do devido e que não funciona em alturas críticas. Que o Estado contrate ao privado dispendiosos meios aéreos de combate aos incêndios em detrimento da participação da Força Aérea Portuguesa. Que tenhamos um crescente despovoamento de uma parte significativa do território e as populações que aí vivem continuem a assistir à migração dos serviços públicos. Para resgatar a banca o dinheiro sempre aparece, para apoiar as pessoas e os territórios falta dinheiro.

Já repararam no que há em comum nos factores que potenciaram a tragédia? Lucros privados, prejuízos colectivos. O cifrão é quem mais ordena. Milton Friedman não estará cá para ver mas uma sociedade e economia baseada na promoção da ganância privada não dá bons resultados. A não ser que haja uma mudança de rumo (não apenas em Portugal), o cifrão poderá bem figurar no caixão da humanidade.»

Fonte: http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/as-chamas-do-cifrao-179803 (5/7/2017)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

CETA CHECK: ajude a lutar contra o CETA

Faça o CETA CHECK

Peça aos membros do Parlamento Europeu para votarem contra o acordo de comércio livre previsto entre a UE e o Canadá (CETA). É preciso pôr fim ao secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública! 

Afinal, é assim que a democracia deve funcionar…


«Escândalo sobre o CETA atinge o Parlamento Europeu
É chocante o que está a acontecer no único órgão europeu eleito
...
O CETA só chega oficialmente ao PE a 21 de Novembro. A partir daí, os MEP têm 6 meses para o analisar, escrever opiniões, debater e votar. Mas um golpe do destino faz com que nada disso aconteça. A maioria do centrão que forma aquilo que chamamos de “grande coligação” no PE, está a conspirar para apressar o CETA… Eles exigem que se vote já em Dezembro, tornando impossível ao PE uma avaliação concreta do tratado.»



Faça o CETA CHECK:  https://www.nao-ao-ttip.pt/ceta-check/


«O que é o CETA CHECK?

A Iniciativa de Cidadania Europeia tornou possível a recolha de mais de 3 milhões de assinaturas contra o TTIP e o CETA em toda a Europa e mais de 23 mil só em Portugal.
Graças ao nosso compromisso constante, o TTIP parece agora mais fraco do que nunca.
No entanto, a Comissão Europeia e os nossos Governos estão a tentar empurrar o CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement), o acordo de comércio e investimento entre a UE e o Canadá, que é tão tóxico como o seu irmão maior, o TTIP.

Vamos certificar-nos que o CETA não possa passar despercebido, vamos trazer este debate à tona, vamos FAZER O CETA CHECK!

Porque nos devemos preocupar com CETA?
O CETA está numa fase muito mais avançada do que o TTIP. As negociações, que foram iniciadas em 2009, foram concluídas com o Canadá em Fevereiro de 2016. O texto do tratado será ainda este ano apresentado aos 28 ministros do Comércio no Conselho da União Europeia e ao Parlamento Europeu.

Desde 2009, a sociedade civil tem vindo a chamar a atenção para a urgência de se tomarem decisões políticas conscientes sobre as consequências da aplicação do CETA a nível do sistema democrático e em áreas estratégicas como os serviços públicos, a saúde pública, a segurança alimentar, a protecção do ambiente, os direitos dos trabalhadores, as pequenas e médias empresas, o controlo financeiro e a privacidade pessoal.»

Saiba mais na fonte, em: https://www.nao-ao-ttip.pt/o-que-e-o-ceta-check/

sábado, 24 de outubro de 2015

Externalidades

"A economia convencional é uma forma de lesão cerebral

"A natureza desempenha todo o tipo de serviços que são vitais para a saúde do planeta. 
Os economistas chamam-lhes externalidades. 
Isso é de loucos! "

David Suzuki

domingo, 27 de setembro de 2015

"Vírus Idiotas?"

«Se não podemos explicar as grandes questões económicas de maneira a que os jovens as possam entender, é porque nem sequer nós as entendemos.» Yanis Varoufakis, do livro:



Um livro muito elucidativo para jovens e para quem quiser ver, de um modo simples, como funciona a "complexa" economia que a muitos não convém que entendamos....  Um livro em que Varoufakis se dirige à filha adolescente, do qual reproduzo um parágrafo do final do 1º capítulo (daqui):

"É incrível a facilidade com que nos convencemos a nós mesmos de que a repartição da riqueza, sobretudo quando nos favorece, é «lógica», «natural» e «justa». Sempre que sentires que estás prestes a sucumbir a este tipo de pensamentos, lembra‑te daquilo que dizíamos ao princípio: que todos os bebés nascem nus, mas alguns estão predestinados a vestir roupa caríssima, ao passo que outros, a maioria, estão condenados à fome, à exploração e à pobreza. Nunca caias na tentação de aceitar esta realidade como «lógica», «natural» e «justa»."

Transcrevo  também um pequeno sucapítulo do capítulo 7 - "Vírus Idiotas?", sobre a relação da nossa "sociedade de consumo" com o ambiente:

"Vírus megalómanos"

Se dermos uma vista de olhos pelas três grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islão, chegaremos à conclusão de que os seres humanos se têm em grande conta. Gostamos de acreditar que fomos feitos «à imagem e semelhança» de Deus, do Perfeito, do Único. Que somos semideuses, senhores da Terra, o único mamífero com o dom da razão, e que dispomos da capacidade de adaptar o nosso contexto às nossas necessidades, em vez de nos adaptarmos ao contexto, como fazem os demais seres vivos.

Por isso nos surpreendemos quando uma máquina que nós próprios criámos nos fala como o gente Smith (que na realidade é o reflexo da dita máquina na mente de Neo, no filme Matrix). Recordo o que te contei no final do Capítulo 5, palavras do Agente Smith:
«Qualquer mamífero neste planeta desenvolve instintivamente um equilíbrio natural com o seu ambiente. Mas vocês, os seres humanos, não, vocês são uma excepção... Existe neste planeta outro organismo que tem o mesmo comportamento que vocês. Sabes qual é? O vírus. Vocês, seres humanos, são uma doença, um cancro para o planeta. São uma epidemia e nós, as máquinas, somos a cura.»

O pior é que no fundo, tememos que o Agente Smith tenha razão, para não dizer que pensamos que talvez seja mesmo demasiado benévolo para connosco, pois somos piores que muitos vírus que evitam matar os organismos que os acolhem. Para onde quer que olhemos na Natureza podemos ver as marcas da destruição que deixamos à nossa passagem.

Desde que as sociedades de mercado apareceram, destruímos dois terços de todas as florestas do planeta, provocámos as chuvas ácidas que envenenaram os lagos, drenámos os rios por completo, aumentámos a acidez dos oceanos, erodimos a terra, extinguimos animais e plantas, a tal ponto que o equilíbrio da nossa biosfera, que é o nosso único refúgio, se alterou. Como se tudo isso não bastasse, produzimos cada vez mais gases (como o dióxido de carbono ou o metano) que fazem subir a temperatura do planeta, o que provoca o degelo dos pólos, a subida das águas do mar e a desestabilização do clima da Terra, de tal maneira que povos inteiros correm o risco de desaparecer. Quem pode duvidar que o Agente Smith tem razão? Por acaso não somos parecidos com o vírus do ébola, que se autodestrói ao matar o organismo que o acolhe?

Dir-me-ás, com razão, que o agente Smith não existe. Que é um produto da imaginação de um argumentista, um esforço humano para que as nossas consciências despertem. Como também acontece com Fausto e Frankenstein, personagens fictícios que Christopher Marlowe e Mary Shelley utilizaram para nos avisarem dos males que trouxera a então recém-crida sociedade de mercado. Talvez estes avisos, através da literatura, da arte ou do cinema demonstrem que ainda há esperança de que não nos tornemos uma epidemia, um cancro ou um vírus que ameaça o planeta.

Os vírus, os tumores malignos e as bactérias não têm consciência, mas nós temos. Trata-se da nossa melhor oportunidade de desmentir o Agente Smith. No entanto, para o fazermos temos de ser críticos e protegermo-nos da nossa mais importante criação, mas também daquela que mais contribui para a destruição do meio ambiente: a sociedade de consumo que, pouco a pouco, começou a tornar-se o nosso chefe e, ao mesmo tempo, o pior inimigo do planeta Terra."

 Yanis Varoufakis (negrito meu)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Muhammad Yunus: "Uma nova lógica"

A não perder, a leitura de um artigo sobre Muhammad Yunus intitulado "UMA NOVA LÓGICA" de Micheline Alves no UOL.  A seguir, algumas frases de Muhammad Yunus extraídas do artigo:

Imagem obtida aqui
«Há 85 pessoas no mundo que têm mais da metade de toda a riqueza do planeta. Já a metade mais pobre da população mundial detém menos de 1% desses recursos. Que mundo é esse? Minha luta tem sido contra essa estrutura. As pessoas não podem fazer nada além de tocar o barco como foi concebido. Luto por uma nova máquina, por alternativas, por um movimento contrário. A estrutura que existe não vai resolver nosso problema. A disparidade de renda só piora, a riqueza se concentra em pouquíssimas mãos.»

«Uma questão essencial está na ideia de emprego. Quem disse que nascemos para procurar emprego? A escola? Os professores? Os livros? Sua religião? Seus pais? Alguém colocou isso na cabeça das pessoas. O sistema educacional repete: ‘você tem que trabalhar duro’. Seres humanos não nasceram pra isso. O ser humano é cheio de poder criativo, mas o sistema o reduz a mero trabalhador, capaz de fazer trabalhos repetitivos. Isso é vergonhoso, está errado. As pessoas precisam crescer sabendo que é uma opção se tornar empregado, mas que existe a possibilidade de ser empreendedor, seguir o próprio caminho.»

«Qual a utilidade do conhecimento se ele não chega às pessoas? Em Bangladesh, tínhamos pessoas morrendo de fome. Faz sentido ensinar teorias tão bonitas, das quais somos tão orgulhosos, e elas não terem o menor significado na vida de quem não pode comer? Há muitas maneiras de morrer, mas a fome é uma das mais dolorosas. Lidar com teorias económicas diante de pessoas morrendo assim era uma piada.»

«Na crise de 2008, eu estava em Nova York. Vendo as notícias sobre o colapso, os escândalos, lembrei daquele gerente que procurei e pensei: quem merece crédito, afinal? Quem está dando calote? Os pobres a quem empresto dinheiro me devolvem cada centavo.»

«Muita gente diz que isso não é um negócio de verdade. Se não tem lucro, não é negócio. De onde vem essa definição? É negócio, sim. É decisão minha não ter lucro. Se a teoria não se encaixa no que eu criei, não sou eu quem está errado; é a teoria.»

Fonte: Uma Nova Lógica, de Micheline Alves em UOL, 21/7/2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Papa Francisco defende a nossa casa comum

A recente encíclica do Papa Francisco LAUDATO SI' é um verdadeiro tratado de defesa da Terra e dos seus habitantes mais desprotegidos, referindo-se à maioria dos reais problemas ambientais (e também sociais) com que hoje nos deparamos, e que neste blogue são abordados.

Imagem obtida aqui
E, para surpresa de muitos, este texto é também uma testemunho de compreensão e apologia da Ecologia Profunda, que já aqui definimos e que há pouco aqui abordamos numa petição pelo direito da Natureza. A mesma compreensão que o chefe índio Seattle mostra na célebre carta.

Tentei extrair algumas frases ou partes com as quais mais comungo neste alerta e apelo, mas a tarefa não foi nada fácil, como se vê pela extensão do texto abaixo, a azul. 

O melhor mesmo, é ler a encíclica completa. Quer seja católico ou quer não seja, o texto é muito importante para quem se preocupa com o ambiente e com o futuro do planeta, mas mais ainda para quem acha que tudo está bem!


«...
10. Não quero prosseguir esta encíclica sem invocar um modelo belo e motivador. Tomei o seu nome por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior

11. O seu testemunho mostra-nos também que uma ecologia integral requer abertura para categorias que transcendem a linguagem das ciências exactas ou da biologia e nos põem em contacto com a essência do ser humano. Tal como acontece a uma pessoa quando se enamora por outra, a reacção de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas. ...
...
13. O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Desejo agradecer, encorajar e manifestar apreço a quantos, nos mais variados sectores da actividade humana, estão a trabalhar para garantir a protecção da casa que partilhamos.
Uma especial gratidão é devida àqueles que lutam, com vigor, por resolver as dramáticas consequências da degradação ambiental na vida dos mais pobres do mundo. Os jovens exigem de nós uma mudança; interrogam-se como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos excluídos.

14. Lanço um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização.  Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas.  Precisamos de nova solidariedade universal.
...
18. A contínua aceleração das mudanças na humanidade e no planeta junta-se, hoje, à intensificação dos ritmos de vida e trabalho, que alguns, em espanhol, designam por «rapidación». Embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as acções humanas contrasta com a lentidão natural da evolução biológica. A isto vem juntar-se o problema de que os objectivos desta mudança rápida e constante não estão necessariamente orientados para o bem comum e para um desenvolvimento humano sustentável e integral. ...

19. Depois dum tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade está a entrar numa etapa de maior consciencialização. Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está a acontecer ao nosso planeta. ...

20. Existem formas de poluição que afectam diariamente as pessoas. A exposição aos poluentes atmosféricos produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde, particularmente dos mais pobres, e provocam milhões de mortes prematuras. Adoecem, por exemplo, por causa da inalação de elevadas quantidades de fumo produzido pelos combustíveis utilizados para cozinhar ou aquecer-se. A isto vem juntar-se a poluição que afecta a todos, causada pelo transporte, pelos fumos da indústria, pelas descargas de substâncias que contribuem para a acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, insecticidas, fungicidas, pesticidas e agro-tóxicos em geral. Na realidade a tecnologia, que, ligada à finança, pretende ser a única solução dos problemas, é incapaz de ver o mistério das múltiplas relações que existem entre as coisas e, por isso, às vezes resolve um problema criando outros.

21. Devemos considerar também a poluição produzida pelos resíduos, incluindo os perigosos presentes em variados ambientes. Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, electrónicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioactivos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo. Em muitos lugares do planeta, os idosos recordam com saudade as paisagens de outrora, que agora vêem submersas de lixo. Tanto os resíduos industriais como os produtos químicos utilizados nas cidades e nos campos podem produzir um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores nas áreas limítrofes, que se verifica mesmo quando é baixo o nível de presença dum elemento tóxico num lugar. Muitas vezes só se adoptam medidas quando já se produziram efeitos irreversíveis na saúde das pessoas.

22 ...  o sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias. Ainda não se conseguiu adoptar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não-renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. ...

23 . O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana. Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. ...   Isto é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial. E incidiu também a prática crescente de mudar a utilização do solo, principalmente o desflorestamento para finalidade agrícola.

24. ... Entretanto a perda das florestas tropicais piora a situação, pois estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição produzida pelo anidrido carbónico aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha. Se a tendência actual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. ...

25 ...  É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.

26. Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuarmos com os modelos actuais de produção e consumo. ...

27. Outros indicadores da situação actual têm a ver com o esgotamento dos recursos naturais. É  bem conhecida a impossibilidade de sustentar o nível actual de consumo dos países mais desenvolvidos e dos sectores mais ricos da sociedade, onde o hábito de desperdiçar e jogar fora atinge níveis inauditos. Já se ultrapassaram certos limites máximos de exploração do planeta, sem termos resolvido o problema da pobreza.

28. A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos.  ... A disponibilidade de água manteve-se relativamente constante durante muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com graves consequências a curto e longo prazo. ...

29. Um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres,  são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microorganismos e substâncias químicas. A diarreia e a cólera, devidas a serviços de higiene e reservas de água inadequados, constituem um factor significativo de sofrimento e mortalidade infantil. Em muitos lugares, os lençóis freáticos estão ameaçados pela poluição produzida por algumas actividades extractivas, agrícolas e industriais, sobretudo em países desprovidos de regulamentação e controles suficientes. ...

30. Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tornando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos.  ...

31. Uma maior escassez de água provocará o aumento do custo dos alimentos e de vários produtos que dependem do seu uso. Alguns estudos assinalaram o risco de sofrer uma aguda escassez de água dentro de poucas décadas, se não forem tomadas medidas urgentes. Os impactos ambientais poderiam afectar milhares de milhões de pessoas, sendo previsível que o controle da água por grandes empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste século.

32. Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa de formas imediatistas de entender a economia e a actividade comercial e produtiva. A perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a alimentação mas também para a cura de doenças e vários serviços. As diferentes espécies contêm genes que podem ser recursos-chave para resolver, no futuro, alguma necessidade humana ou regular algum problema ambiental.

33. Entretanto não basta pensar nas diferentes espécies apenas como eventuais «recursos» exploráveis, esquecendo que possuem um valor em si mesmas. Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não poderemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre. A grande maioria delas extingue-se por razões que têm a ver com alguma actividade humana.

34. ...  Por exemplo, muitos pássaros e insectos, que desaparecem por causa dos agro-tóxicos criados pela tecnologia, são úteis para a própria agricultura, e o seu desaparecimento deverá ser compensado por outra intervenção tecnológica que possivelmente trará novos efeitos nocivos. São louváveis e, às vezes, admiráveis os esforços de cientistas e técnicos que procuram dar solução aos problemas criados pelo ser humano. Mas, contemplando o mundo, damo-nos conta de que este nível de intervenção humana, muitas vezes ao serviço da finança e do consumismo, faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo continua a avançar sem limites. Assim, parece que nos iludimos de poder substituir uma beleza insuprível e irrecuperável por outra criada por nós.

35. Quando se analisa o impacto ambiental de qualquer iniciativa económica, costuma-se olhar para os seus efeitos no solo, na água e no ar, mas nem sempre se inclui um estudo cuidadoso do impacto na biodiversidade, como se a perda de algumas espécies ou de grupos animais ou vegetais fosse algo de pouca relevância. As estradas, os novos cultivos, as reservas, as barragens e outras construções vão tomando posse dos habitats e, por vezes, fragmentam-nos de tal maneira que as populações de animais já não podem migrar nem mover-se livremente, pelo que algumas espécies correm o risco de extinção. ...

36. O cuidado dos ecossistemas requer uma perspectiva que se estenda para além do imediato, porque, quando se busca apenas um ganho económico rápido e fácil, já ninguém se importa realmente com a sua preservação. Mas o custo dos danos provocados pela negligência egoísta é muitíssimo maior do que o benefício económico que se possa obter. No caso da perda ou dano grave dalgumas espécies, fala-se de valores que excedem todo e qualquer cálculo. Por isso, podemos ser testemunhas mudas de gravíssimas desigualdades, quando se pretende obter benefícios significativos, fazendo pagar ao resto da humanidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental.
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56. Entretanto os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial actual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente.  ...

57. É previsível que, perante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favorável para novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações.  ...
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59. Ao mesmo tempo cresce uma ecologia superficial ou aparente que consolida um certo torpor e uma alegre irresponsabilidade. Como frequentemente acontece em épocas de crises profundas, que exigem decisões corajosas, somos tentados a pensar que aquilo que está a acontecer não é verdade. Se nos detivermos na superfície, para além de alguns sinais visíveis de poluição e degradação, parece que as coisas não estejam assim tão graves e que o planeta poderia subsistir ainda por muito tempo nas condições actuais. Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo. É a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido.
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69. Ao mesmo tempo que podemos fazer um uso responsável das coisas, somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio ...
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134. Embora não disponhamos de provas definitivas acerca do dano que poderiam causar os cereais transgénicos aos seres humanos e apesar de, nalgumas regiões, a sua utilização ter produzido um crescimento económico que contribuiu para resolver determinados problemas, há dificuldades importantes que não devem ser minimizadas. Em muitos lugares, na sequência da introdução destas culturas, constata-se uma concentração de terras produtivas nas mãos de poucos, devido ao «progressivo desaparecimento de pequenos produtores, que, em consequência da perda das terras cultivadas, se viram obrigados a retirar-se da produção directa». Os mais frágeis deles tornam-se trabalhadores precários, e muitos assalariados agrícolas acabam por emigrar para miseráveis aglomerados das cidades. A expansão destas culturas destrói a complexa trama dos ecossistemas, diminui a diversidade na produção e afecta o presente ou o futuro das economias regionais. Em vários países, nota-se uma tendência para o desenvolvimento de oligopólios na produção de sementes e outros produtos necessários para o cultivo, e a dependência agrava-se quando se pensa na produção de sementes estéreis que acabam por obrigar os agricultores a comprá-las às empresas produtoras.
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146. Neste sentido, é indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projectos que afectam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem económico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objecto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projectos extractivos e agro-pecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.
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148. Admirável é a criatividade e generosidade de pessoas e grupos que são capazes de dar a volta às limitações do ambiente, modificando os efeitos adversos dos condicionalismos e aprendendo a orientar a sua existência no meio da desordem e precariedade. ...
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158. Nas condições actuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres. ...

159. A noção de bem comum engloba também as gerações futuras. As crises económicas internacionais mostraram, de forma atroz, os efeitos nocivos que traz consigo o desconhecimento de um destino comum, do qual não podem ser excluídos aqueles que virão depois de nós. Já não se pode falar de desenvolvimento sustentável sem uma solidariedade intergeneracional. Quando pensamos na situação em que se deixa o planeta às gerações futuras, entramos noutra lógica: a do dom gratuito, que recebemos e comunicamos. Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir dum critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos a falar duma atitude opcional, mas duma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão-de vir. Os bispos de Portugal exortaram a assumir este dever de justiça: «O ambiente situa-se na lógica da recepção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte ». Uma ecologia integral possui esta perspectiva ampla. 

160. Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes. Mas, se esta pergunta é posta com coragem, leva-nos inexoravelmente a outras questões muito directas: Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra.

161. As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida actual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio actual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências.

 162. A dificuldade em levar a sério este desafio tem a ver com uma deterioração ética e cultural, que acompanha a deterioração ecológica. O homem e a mulher deste mundo pós-moderno correm o risco permanente de se tornar profundamente individualistas, e muitos problemas sociais de hoje estão relacionados com a busca egoísta duma satisfação imediata, com as crises dos laços familiares e sociais, com as dificuldades em reconhecer o outro. ...
...
175. A lógica que dificulta a tomada de decisões drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a mesma que não permite cumprir o objectivo de erradicar a pobreza. Precisamos duma reacção global mais responsável, que implique enfrentar, contemporaneamente, a redução da poluição e o desenvolvimento dos países e regiões pobres. ...
 ...
178. O drama duma política focalizada nos resultados imediatos, apoiada também por populações consumistas, torna necessário produzir crescimento a curto prazo. Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afectar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder frena a inserção duma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos. Esquece-se, assim, que «o tempo é superior ao espaço». ...
...
225. Por outro lado, ninguém pode amadurecer numa sobriedade feliz, se não estiver em paz consigo mesmo. E parte duma adequada compreensão da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflecte-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. A natureza está cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distracção permanente e ansiosa, ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor. Isto tem incidência no modo como se trata o ambiente. Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, reflectir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais,  ...
...
228. O cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão.  ... . Esta mesma gratuidade leva-nos a amar e aceitar o vento, o sol ou as nuvens, embora não se submetam ao nosso controle. Assim podemos falar duma fraternidade universal.
...
232. Nem todos são chamados a trabalhar de forma directa na política, mas no seio da sociedade floresce uma variedade inumerável de associações que intervêm em prol do bem comum, defendendo o meio ambiente natural e urbano.  ...

...
Oração pela nossa terra
...
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
Tocai os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos
com todas as criaturas
no nosso caminho para a vossa luz infinita
... »

Extraído da Carta Encíclica LAUDATO SI’ do Papa FRANCISCO sobre O CUIDADO DA CASA COMUM, Roma, 24 de maio de 2015, publicada em 18/6/2015 (negrito meu).
(http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html)

sábado, 13 de junho de 2015

TTIP - o Tratado Cavalo de Tróia

Apesar de forjado às escondidas, e graças ao esforço de uma minoria atenta e preocupada com as pessoas e não com as grandes multinacionais, mais de dois milhões de pessoas assinaram a petição contra o TTIP -  Tratado de Parceria Transatlântica.

Imagem daqui
Um dos ingredientes do TTIP é o ISDS (Investor-State Dispute Settlement), um tribunal arbitral destinado a proteger as multinacionais  e que se sobrepõe aos estados (ler o artigo esclarecedor de Carla Prino aqui)...  dá para acreditar?

Várias tentativas de tratados de comércio livre entre UE e EUA têm sido preparados e não têm conseguido ir avante quando as pessoas entendem o que se passa e se manifestam em massa. Infelizmente, quando "desistem" de um destes acordos, de imediato começam a forjar outros parecidos com nome diferente...

Neste caso do perigosíssimo TTIP, estava prevista a sua discussão e votação para o passado dia 10 de junho no Parlmento Europeu, mas foi adiado, não se sabe bem porquê (será mais uma manobra de diversão? ...  estará outro nome na forja?).



Ouça com atenção as seguintes entrevistas à Antena 1, a primeira para entender o que é esse TTIP, e a segunda para saber o ponto da situação:

terça-feira, 19 de maio de 2015

"O Império do Consumo", por Eduardo Galeano

"A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe por conta, fica duplamente bêbado. A farra aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.  Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da procura choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina no ecrã do televisor. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. 

Imagem obtida aqui
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.  Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insónia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é pouca coisa quando se tem em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevideu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».  Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezasseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente do pequeno ecrã, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: essa indústria está a conquistar os paladares do mundo e está a demolir as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um património coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato do mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.  As filas na frente do McDonald´s de Moscovo, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloquência quanto a queda do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.

Imagem obtida aqui
As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.  Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.  Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece.


Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.  Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos. As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

Quando o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas?Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de autocarros e de combóios, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se a transformar, agora, em espaços de exibição comercial.

O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.  Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efémero, condena tudo à descartabilidade mediática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.  Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta."

O Império do Consumo, por Eduardo Galeano (1940-2015)

Fonte em português (com algumas adaptações):  Carta Maior (Blog do Emir), 17/01/2007