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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

2º Aviso dos Centistas à Humanidade


William J. Ripple, Christopher Wolf, Mauro Galetti, Thomas M. Newsome, Mohammed Alamgir, Eileen Crist, Mahmoud I. Mahmoud, William F. Laurance, e mais de 15 mil cientistas de 184 países (a lista dos signatários encontra-se aqui)


Revista BioScience, 13 de novembro de 2017

«Há vinte e cinco anos, a Union of Concerned Scientists e mais de 1700 cientistas independentes, incluindo a maioria dos então laureados com o Prémio Nobel nas ciências, assinaram a Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade de 1992 (veja-se Arquivo Suplementar S1).

Esses profissionais alarmados apelavam à humanidade para que reduzisse a destruição ambiental e alertavam ser "necessária uma grande mudança em nossa gestão da Terra e da vida para se evitar uma vasta miséria humana". Em seu manifesto, mostravam que os humanos estavam em rota de colisão com o mundo natural. Expressavam preocupação com os danos presentes, iminentes ou potenciais infligidos ao planeta Terra, envolvendo depleção da camada de ozono, disponibilidade de água doce, colapsos da pesca marinha, zonas mortas no oceano, perdas de floresta, destruição da biodiversidade, mudanças climáticas e crescimento contínuo da população humana. Proclamavam a urgente necessidade de mudanças fundamentais, de modo a evitar as consequências que nossa trajetória traria.

Os autores da declaração de 1992 temiam o fato da humanidade estar impelindo os ecossistemas da Terra além de sua capacidade de suportar a teia da vida. Descreviam como estávamos rapidamente nos aproximando de muitos dos limites do que o planeta pode tolerar sem danos substanciais e irreversíveis. Os cientistas exortavam-nos a estabilizar a população humana, descrevendo como nossos grandes números – aumentados em mais 2 mil milhões de pessoas desde 1992, um aumento de 35% – exercem sobre a Terra pressões que podem anular outros esforços para realizar um futuro sustentável (Crist et al., 2017).

Imploravam que reduzíssemos as emissões de gases de efeito estufa (GEE), eliminássemos os combustíveis fósseis, reduzíssemos o desmatamento e revertêssemos a tendência ao colapso da biodiversidade.

No 25º aniversário dessa Advertência, voltamos os olhos para trás e avaliamos a resposta humana, explorando os dados disponíveis em séries históricas. Desde 1992, com exceção da estabilização da camada de ozono estratosférico, a humanidade fracassou em fazer progressos suficientes na resolução geral desses desafios ambientais anunciados, sendo que a maioria deles está piorando de forma alarmante (Figura 1, Arquivo Suplementar S1).

Especialmente perturbadora é a trajetória atual das mudanças climáticas potencialmente catastróficas, devidas ao aumento dos gases de efeito estufa (GEE) emitidos pela queima de combustíveis fósseis (Hansen et al. 2013), desmatamento (Keenan et al., 2015) e produção agropecuária – particularmente do gado ruminante para consumo de carne (Ripple et al. 2014). Além disso, desencadeamos um evento de extinção em massa, o sexto em cerca de 540 milhões de anos, no âmbito do qual muitas formas de vida atuais podem ser aniquiladas ou, ao menos, condenadas à extinção até o final deste século.

A humanidade está agora a receber um segundo aviso, conforme ilustrado por essas tendências alarmantes (figura 1). Estamos a ameaçar o nosso futuro ao não refrear o nosso intenso consumo material, embora geografica e demograficamente desigual, e ao não perceber o rápido e contínuo crescimento da população como motor primário de muitas ameaças ecológicas e mesmo sociais (Crist et al., 2017)

Ao fracassar em limitar adequadamente o crescimento populacional, em reavaliar o papel de uma economia enraizada no crescimento, em reduzir os gases de efeito estufa, em incentivar as energias renováveis, em proteger os habitats, em restaurar os ecossistemas, em parar a defaunação, e em restringir as espécies exóticas invasoras, a humanidade não está tomando as medidas urgentemente necessárias à salvaguarda da nossa biosfera em perigo.

Dado que a maioria dos líderes políticos é sensível à pressão, os cientistas, os formadores de opinião nos media e os cidadãos em geral devem insistir para que seus governos tomem medidas imediatas, como um imperativo moral em relação às gerações atuais e futuras da vida humana e de outras espécies. Com uma vaga de esforços organizados e popularmente embasados, é possível vencer oposições obstinadas e obrigar os líderes políticos a fazer o que é certo.

Também é hora de reexaminar e mudar nossos comportamentos individuais, incluindo a limitação de nossa própria reprodução (idealmente, o nível de reposição no máximo) e diminuir drasticamente nosso consumo per capita de combustíveis fósseis, de carne e de outros recursos.

O rápido declínio global das substâncias que destroem o ozono mostra que podemos fazer mudanças positivas quando agimos resolutamente. Também fizemos avanços na redução da pobreza extrema e da fome (www.worldbank.org). Outros progressos notáveis (que ainda não se apresentam nos conjuntos de dados globais na figura 1) incluem: o rápido declínio nas taxas de fecundidade em muitas regiões, atribuível aos investimentos na educação de meninas e mulheres (www.un.org/esa/population), o declínio promissor da taxa de desmatamento em algumas regiões e o rápido crescimento do setor de energia renovável. Aprendemos muito desde 1992, mas o avanço das mudanças urgentemente requeridas nas políticas ambientais, no comportamento humano e nas desigualdades globais ainda está longe de ser suficiente.

Transições em direção à sustentabilidade ocorrem de diversas maneiras e todas requerem pressão da sociedade civil e argumentação baseada em evidências, liderança política e uma sólida compreensão de instrumentos políticos, dos mercados e de outros fatores.

Eis alguns exemplos de passos diversos e efetivos que a humanidade pode dar para uma transição em direção à sustentabilidade (não por ordem de importância ou urgência):
  • priorizar a criação de reservas conectadas, bem financiadas e bem gerenciadas de modo a preservar uma proporção significativa dos habitats terrestres, marinhos, de água doce e aéreos do mundo;
  • cessar a destruição das florestas, prados e outros habitats nativos, de modo a manter os serviços ecossistémicos da natureza;
  • restaurar comunidades nativas de plantas em larga escala, particularmente paisagens florestais;
  • renaturalizar regiões com espécies nativas, especialmente predadores do topo da pirâmide alimentar, para restaurar processos e dinâmicas ecológicas;
  • desenvolver e adotar instrumentos políticos adequados para reparar a defaunação, a crise de caça ilegal e a exploração e o tráfico de espécies ameaçadas;
  • reduzir o desperdício de alimentos através da educação e de uma melhor infraestrutura;
  • promover transições na dieta, sobretudo na direção de uma alimentação à base de plantas;
  • reduzir ainda mais as taxas de fecundidade, garantindo que as mulheres e os homens tenham acesso à educação e a serviços de planeamento familiar voluntário, especialmente onde tais serviços ainda não estão disponíveis.
  • aumentar a educação natural e ao ar livre para crianças, bem como o engajamento geral da sociedade na apreciação da natureza;
  • reorientar investimentos e compras no sentido de incentivar mudanças ambientais positivas;
  • detectar e promover novas tecnologias ecológicas, com adoção massiva de fontes de energia renováveis, eliminando os subsídios à produção de energia através de combustíveis fósseis;
  • rever a nossa economia para reduzir a desigualdade económica e garantir que os preços, a tributação e os sistemas de incentivo levem em conta os custos reais impostos ao nosso ambiente por  nossos padrões de consumo; e
  • estimar um tamanho de população humana cientificamente defensável e sustentável a longo prazo, reunindo nações e líderes para apoiar esse objetivo vital.

Para evitar miséria generalizada e perda catastrófica de biodiversidade, a humanidade deve adotar práticas mais ambientalmente sustentáveis e alternativas em relação às práticas atuais.

Esses preceitos foram bem formulados pela liderança científica mundial há 25 anos, mas, na maioria dos aspectos, não acatamos sua advertência.  Em breve será tarde demais para mudar o curso de nossa trajetória de fracasso e o tempo está se esgotando. 

Devemos reconhecer, em nossa vida quotidiana e em nossas instituições de governo, que a Terra, com toda a sua vida, é nosso único lar.»

Figura 1 - Tendências ambientais identificadas na advertência dos cientistas à humanidade de 1992. Os anos antes e depois desse alerta de 1992  são mostrados como linhas cinza e preta, respetivamente. Ver legenda completa  aqui
Fonte, agradecimentos, referências e  legenda do gráfico em Tradução para português do "World Scientists’ Warning to Humanity: A Second Notice" , por Luiz Marques (com algumas  adaptações para português de Portugal).

Cientistas podem ainda assinar em http://scientists.forestry.oregonstate.edu/

domingo, 19 de novembro de 2017

A maior crise ambiental

Crise Ambiental | Porque amanhã é sempre tarde demais

Estamos na maior crise ambiental da história desta civilização. Nunca como agora a humanidade enfrentou desafios tão grandes. A escassez de recursos, as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e as desigualdades, colocam-nos num ponto em que grandes remédios já não chegam para grandes males. Vamos precisar também dos pequenos remédios, de todos eles.

V. N. de Famalicão: Lemenhe – crepúsculo; set/2014
A população aumenta, os recursos escasseiam

Hoje o nosso planeta sofre, agudamente, com o excesso de recursos que a espécie humana utiliza. Por um lado, o crescimento exponencial da população, que duplicou nos últimos 45 anos (de 3,7 mil milhões em 1970 para 7,6 mil milhões atualmente); por outro lado, o gigantesco consumo de recursos provocado por uma sociedade que usa e deita fora, que valoriza o ter em detrimento do ser e que dá primazia a uma economia sem ética, obsoleta, que depende do consumo e do crescimento; por último, um planeta que é finito. Tudo isto junto, e estamos numa crise sem precedentes na história da humanidade. Consomem-se mais 50% de recursos do que a Terra consegue regenerar, a pegada ecológica dos países ditos “desenvolvidos” é muitas vezes superior ao sustentável. Precisaríamos de muitos planetas Terra para continuar neste ritmo; mas há só um. Acrescentemos a isto ainda as alterações climáticas, e estamos num caldeirão explosivo.

As alterações climáticas já aí estão

O dióxido de carbono (CO2) é um gás que faz parte da composição da atmosfera. É essencial à vida, e a sua capacidade para provocar o efeito de estufa permitiu o desenvolvimento das sociedades humanas. Desde que a agricultura apareceu e as civilizações humanas se começaram a desenvolver, há cerca de 10 a 12 mil anos, e até à era pré-industrial (1750), a concentração de CO2 na atmosfera manteve-se abaixo das 200 ppm (partes por milhão); a partir daí, a queima do carvão e do petróleo e seus derivados, motivaram a revolução industrial e também o aumento da concentração de CO2 na atmosfera. Hoje ultrapassamos as 400 ppm e a atmosfera e o oceano estão mais quentes. Não faltaram avisos dos cientistas nas últimas três décadas sobre o efeito das emissões de CO2 no aquecimento global e nas alterações climáticas; mas a tal primazia da economia ensurdeceu políticos e populações. Hoje sentimos na pele e no nosso território as alterações climáticas: a seca, os incêndios devastadores; noutros lados, furacões mais intensos do que nunca e chuvas torrencialmente destruidoras.

A sexta extinção em massa

Penacova: Rio Mondego – teia de aranha; nov/2016
A sexta extinção em massa já começou, e foi a espécie humana, com os seus impactos territoriais e ambientais, que a causou. A desflorestação e a perda de biodiversidade são alarmantes. Os cientistas estimam que atualmente se extingam entre 11 mil e 58 mil espécies por ano. Só em animais vertebrados terrestres, extinguiram-se pelo menos 27600 espécies desde o início do século 20. Desde 1990, foram destruídos 129 milhões de hectares de floresta (o que corresponde a 14 vezes a área de Portugal), transformando-a em produção de monoculturas de alimentos para gado, produção de biocombustíveis, extração mineira (Amazónia), para a indústria alimentar (óleo de palma na Indonésia), ou mesmo para a extração de petróleo (areias betuminosas no Canadá). Para além dos impactos negativos na biodiversidade e nas populações locais, a desflorestação implica a redução drástica de absorção de CO2 e tem impactos diretos e indiretos no clima. O planeta sofre, mas o planeta vai sobreviver, com mais ou menos espécies; o mesmo não se pode dizer desta civilização e da espécie humana.


As desigualdades a aumentar

Na era da globalização, as disparidades no estilo de vida humana são também sintoma de uma sociedade global profundamente em crise. As comunidades não vivem desligadas do ambiente que as rodeia e são afetadas pelo ambiente global, como vemos no caso das alterações climáticas. Enquanto que uma pequena parte da população, ligada ao mundo corporativo, acumula cada vez mais riqueza, a maioria, sobretudo dos países do hemisfério sul, é despojada de suas terras e vive em condições de miséria. Parece inadmissível, mas 1% da população global detém a mesma riqueza que os 99% restantes; aliás, os oito (apenas 8) homens mais ricos do mundo têm tanta riqueza como metade da população mundial. A escassez de recursos das populações mais desfavorecidas espoleta, inevitavelmente, conflitos, e a situação agrava-se. Nunca houve tantos refugiados como nos últimos anos.


Enfrentar a crise


Mirandela: Rio Tua – pedrada na água; out/2014
Quando nos deparamos com a dimensão da crise ambiental (e social, pois estão e estarão sempre ligadas), a nossa primeira reação é negar, agir como se ela não existisse. É nesse estado de negação que se encontra ainda a grande maioria da população. Depois, quando paramos de negar e aceitamos os factos e as evidências, ficamos pessimistas, desanimados, revoltados ou mesmo desesperados. Acabaremos mais tarde por perceber que o pessimismo e o desespero não resolvem nada, que nos resta fazer a parte que nos cabe, esperando que possamos contagiar aqueles que nos rodeiam a fazer a parte deles.
Hoje é já muito tarde. Mas amanhã será ainda mais tarde. Talvez estejamos no ponto de não retorno. Ou talvez possa haver algo a fazer, talvez consigamos viver de forma mais sustentável e em harmonia com a natureza. Devemos a esperança às gerações futuras, aos nossos filhos (ou dos nossos amigos), netos e bisnetos; precisamos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para lhes deixar um planeta onde possam viver e ser felizes. Não chega esperar que os políticos ou os poderosos façam alguma coisa. Sim, é necessário que eles se empenhem. Mas não chega, temos de lhes exigir, e temos de dar o exemplo. Todos e cada um!


Como disse Edmund Burk: 
Ninguém cometeu maior erro que aquele que não fez nada, só porque podia fazer muito pouco”.

Fontes dos dados numéricos: worldometers;  FAOBBCwikipediaobservadorpúblico

Texto publicado primeiramente no recente Jornal Digital  VILA NOVA, em 10/11/2017