Mostrar mensagens com a etiqueta Maravilhar-se. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maravilhar-se. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O sentido do maravilhoso, sempre!

"Maravilhar-se" (The Sense of Wonder) é um pequeno livro de Rachel Carson, um momento de pedagogia para que adultos e crianças se maravilhem com a natureza, desde o mais pequeno ser vivo ás tempestades e ás estrelas. Um excerto:

"O mundo da criança é cheio de frescura, de novidade, de beleza, povoado de maravilhas e entusiasmo. É uma pena que para a maioria de nós, essa visão de olhar límpido, esse verdadeiro instinto que inclina ao belo e inspira temor e respeito se esbata e mesmo perca antes de chegarmos à idade adulta. Se eu tivesse alguma influência sobre a fada boa que se julga presidir ao batismo de todas as crianças, pediria que o seu presente para qualquer criança que viesse ao mundo fosse uma capacidade de maravilhamento tão indestrutível que duraria toda a vida, como antídoto infalível contra o aborrecimento e o o desencanto da idade adulta, as preocupações estéreis com as coisas artificiais, o alheamento que nos afasta das fontes da nossa força.

Para que uma criança mantenha vivo o seu sentido inato do que é maravilhoso sem que lhe tenha sido dado tal presente pelas fadas, ela necessita da companhia de pelo menos um adulto com quem possa partilhá-lo, redescobrindo com ele a alegria, o entusiasmo e o mistério do mundo em que vivemos.

Muitas vezes os pais sentem-se incapazes quando confrontados, por um lado, com a mente ávida e sensível de uma criança, e, por outro lado, com um mundo de natureza física complexa, habitado por uma vida tão variegada e tão pouco familiar, que parece não haver esperança de reduzi-laà ordem e ao conhecimento. Sentindo-se derrotados, exclamam:  «Como posso eu ensinar a natureza ao meu filho? Como, se nem consigo distinguir um pássaro de outro pássaro?» 

Acredito sinceramente que, para a criança e para os pais ou parentes que procurem guiá-la, saber não tem metade da importância de sentir. Se os factos são as sementes que produzem mais tarde conhecimento e sabedoria, as emoções e as impressões dos sentidos são o solo fértil no qual as sementes terão de crescer.

Os anos da primeira infância são aqueles em que se prepara o solo. Uma vez despertadas as emoções - o sentido do belo, o entusiasmo pelo novo e pelo desconhecido, o sentimento de simpatia, piedade, admiração e amor - surge então o desejo de conhecimento acerca do objeto da nossa relação emocional. Uma vez encontrado, o seu significado é duradouro. É mais importante abrir caminho para que a criança queira conhecer do que empanturrá-la de factos que ela ainda não consegue assimilar.

O pai, a mãe, o familiar que receie ter ao ser dispor um fraco conhecimento da natureza, pode ainda fazer muito pela criança. Com ela, onde quer que esteja e sejam quais forem os seus recursos, pode ainda olhar para o céu -  as belezas do amanhecer e do crepúsculo, o movimento das nuvens, as estrelas à noite. Pode escutar o vento, quer sopre com uma voz majestosa através da floresta, quer cante um coro de muitas vozes em redor dos beirais da casa ou das esquinas do edifício de apartamentos onde more,e, escutando, pode alcançar uma mágica libertação dos seus pensamentos. Pode ainda sentir a chuva no rosto e pensar na sua longa jornada, nas suas muitas transmutações do mar para o ar e para a terra. Mesmo morando na cidade, pode encontrar algum lugar, talvez um parque ou um campo e golfe, onde pode observar as misteriosas migrações das aves e as mudanças das estações.. E, com a criança, pode ponderar o mistério do crescimento, mesmo que tenha apenas uma planta num vaso de terra numa janela da cozinha."

Rachel Carson em "Maravilhar-se, Reaproximar a Criança da Natureza", 1956, edição portuguesa da Campo Aberto - Associação de Defesa da Natureza, 2012, tradução de J. C. Costa Marques.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Elixires da Morte (Primavera Silenciosa)

Primavera Silenciosa (1962), mais do que um livro imprescindível sobre a contaminação ambiental por pesticidas, é um marco e uma referência na história da consciência ambiental que aparece como reação a décadas de irresponsabilidade ambiental e ética. E Rachel Carson (bióloga, 1907-1964), a sua autora, uma mulher informada e corajosa que sabia o que enfrentaria quando decidiu publicar o livro, fruto das suas intensas pesquisas e de uma vida dedicada à natureza.

Imagem obtida em Biowit
"Pela primeira vez na história do mundo, cada um dos seres humanos está agora sujeito a entrar em contacto com substâncias químicas perigosas, desde o momento em que é concebido, até ao instante em que a sua morte ocorre. Em menos de dois decénios do seu uso, os pesticidas sintéticos foram tão intensamente distribuídos pelo mundo - seja pelo mundo animado, seja pelo mundo inanimado - que eles aparecem virtualmente por toda a parte. 

Tais pesticidas foram encontrados e retirados da maior parte dos grandes sistemas fluviais, e até mesmo de cursos de água que fluem, sem ser vistos por nós, através da Terra, por vias subterrâneas. Os resíduos das referidas substâncias químicas permanecem no solo ao qual talvez tenham sido aplicadas uma dúzia de anos antes. Elas entraram e alojaram-se no corpo dos peixes, dos pássaros, dos répteis, dos animais domésticos e dos animais selvagens; e o fizeram tão universalmente, que os cientistas que efetuam experiências animais verificam que se torna quase impossível localizar exemplares que sejam de todo livres de semelhante contaminação. 

Essas substâncias foram encontradas até em peixes de remotos lagos existentes em topos de montanhas - até em minhocas que perfuram o solo - nos ovos dos pássaros e no próprio homem. E isto porque as mencionadas substâncias estão agora armazenadas no corpo da vasta maioria dos seres humanos, independentemente da sua idade. Elas aparecem no leite das mães, e, com toda a probabilidade, também nos tecidos dos bebés ainda não nascidos."

Rachel Carson, em "Primavera Silenciosa", 1962. Adaptado da 2ª edição Brasileira (parte inicial do capítulo 3: "Elixires da Morte"), cuja versão integral está disponível para descarregar em http://biowit.files.wordpress.com/2010/11/primavera_silenciosa_-_rachel_carson_-_pt.pdf

Imagem obtida em Campo Aberto
Cinco decénios depois, em 2012, a Campo Aberto - Associação de Defesa da Natureza, editou a versão portuguesa do belo livro "Maravilhar-se, Reaproximar a Criança da Natureza", de Rachel Carson, 1956, em homenagem à Autora pelos 50 anos de "Primavera Silenciosa". Na parte final do anexo "Rachel Carson: Síntese de uma Vida", J. C. Costa Marques/ Campo Aberto escreve: 

"Embora os adversários de Primavera Silenciosa tivessem continuado a atacar o livro e a promover o uso indiscriminado de pesticidas, embora, ao longo de meio século que nos separa já da primeira edição, nunca como antes se tenham fabricado e utilizado quantidades tão colossais de pesticidas e de herbicidas, a questão ficou definitivamente equacionada em termos diferentes dos existentes até então.

A política oficial atual da União Europeia, por exemplo, embora longe de uma aplicação consequente e generalizada, o que suscita as críticas das organizações de defesa do ambiente, reconhece apesar disso que a proteção integrada deverá primar sobre o uso de pesticidas. Em todo o mundo, a consciência pública , embora ainda muito manipulada, sabe que os pesticidas são mais um problema que uma solução. E por toda a parte, chame-se-lhe agricultura orgânica, biológica, ecológica, natural, ou sustentável, numerosos agricultores e movimentos organizados, embora ainda minoritários, procuram devolver à terra  e à Terra a saúde e equilíbrio que o uso indiscriminado de químicos lhes vêm retirando sobretudo ao longo dos últimos cem anos."