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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Como funciona a agrofloresta



«Como a agrofloresta, uma técnica de agricultura que copia a natureza, sem o uso de venenos ou fertilizantes, pode frear as mudanças climáticas, recuperar ecossistemas, libertar mulheres e acabar com a fome no mundo
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Imagem de Pedro Corrêa, daqui
A natureza, porém, não tem pressa. Pode demorar milhares de anos até que ela chegue a seu clímax – tudo depende da fertilidade do solo e de pássaros e outros animais que espalhem sementes por lá.


Ernst (Götsch) copiou a natureza e deu a ela a rapidez que a agricultura pede. Criou um sistema de plantio complexo, com plantas selecionadas para cumprir um papel em cada etapa desse processo de regeneração natural – com estratos cada vez maiores. Todas as sementes são espalhadas ao mesmo tempo, bem adensadas – e a escolha de cada espécie depende também da função dela na nossa vida. Alface, rúcula e milho podem fazer o papel do mato. Um pouco maior, a mandioca, por exemplo, as sucede. É quase como uma família: o brócolis cria o mamoeiro, que cria a trema (uma árvore nativa), que cria o ingá, que cria o abacateiro, que cria a castanheira. Até que o mamoeiro cresce, o brócolis desaparece daquele espaço e o estrato da floresta sobe um degrau. Aí a floresta evolui até chegar aos ipês e cedros – que podem ser cortados e vendidos como toras de madeira.
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Mais do que processo, a agrofloresta carrega uma filosofia. Das organelas de uma célula à biosfera, toda a vida é baseada em uma rede de sistemas complexos que interagem entre si, em uma intensa troca de energia. Assim também deve funcionar a agricultura. “Você não é o mais inteligente ali. Não é o dono. É só uma parte, uma célula”, diz Ernst. É o que ele chama de amor incondicional, sem competição ou escassez. Com abundância e cooperação.»


Leia o artigo inteiro de Felipe Floresti na fonte: A revolução da floresta

domingo, 8 de dezembro de 2013

Agricultura biológica versus convencional - produtividade?

A discussão sobre a produtividade dos sistemas agrícolas, comparando a agricultura dita convencional com a agricultura biológica, já pouco tem de novo. Os estudos e argumentos que pendem para ambos os lados são muitos, mas mesmo que a agricultura convencional fosse "mais produtiva", a que graves custos isso é feito? 

Este é o assunto do artigo de Cyril Dion publicado há dias no Magazine Kaizen, do qual se apresenta abaixo a tradução de alguns parágrafos (ver também o post "Agroecologia: o futuro da agricultura")

O biológico é realmente menos produtivo do que o convencional?

Imagem obtida no artigo referido
«O argumento está muito bem estabelecido e enraizado nas mentes de todos. Se não mudamos maciçamente para a agricultura biológica na França e em todo o mundo é porque "nós não poderíamos alimentar o mundo."

Nos últimos anos, estudos, contra-estudos, proclamações e desmentidos sucedem-se. A tal ponto que se torna difícil ter uma ideia clara e suster uma posição. Para além de capelas e ideologias, vejamos concretamente o que se passa.
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Assim, num relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em 8 de março de 2011, Olivier De Schutter, relator especial da ONU para o direito à alimentação , explicou: "As evidências científicas atuais demonstram que métodos os agroecológicos são mais eficazes do que o uso de fertilizantes químicos para estimular a produção alimentar em regiões difíceis onde se concentra a fome. Até ao momento , os projetos agroecológicos em 57 países em desenvolvimento levaram a um aumento no rendimento médio de 80% das colheitas, e com um ganho médio de 116% nos projectos em África. " Isso o leva a concluir que: "A agroecologia pode duplicar a produção de alimentos em regiões inteiras dentro de 10 anos, reduzindo a pobreza rural e contribuindo com soluções para as alterações climáticas." Números que podem surpreender à luz do primeiro estudo citado .

Mas Olivier De Schutter está focado em áreas onde frassa a fome (apesar de experiências citadas na França e na Alemanha) e onde o nível de mecanização é bastante reduzido. No mundo inteiro, 28 milhões de agricultores possuem um trator, 25 milhões usam a tração animal e 1250 milhões de agricultores umsam apenas as suas mãos para trabalhar a terra. No entanto, para obter rendimentos tão elevados, a agricultura convencional baseia-se no desempenho tecnológico e energético (combustíveis fósseis maioritariamente), e também agronómicos. A agroecologia, tal como a permacultura, baseiam-se nos serviços prestados pelos ecossistemas, e são muito mais eficazes em contextos onde a mecanização é limitado. E são bem mais pertinentes para lutar contra as alterações climáticas, erosão, poluição da água, dos solos e dos alimentos, e, claro, contra a fome. Num contexto de escassez de petróleo barato, crescimento das dívidas dos agricultores, de fortes constrangimentos ecológicos e de crise económica global, é muito mais realista apostar nestas técnicas, tanto no Norte como no Sul, ao invés de imaginar equipar a totalidade dos agricultores do mundo com tratores, máquinas para a colheita, OGM, fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos de todos os tipos ...»
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E depois?

Em resumo, a agroecologia e a permacultura já são mais eficientes em pequenas áreas e particularmente relevantes em países pouco mecanizados e onde a segurança alimentar não é garantida. Como agricultura biológica no seu conjunto, elas fornecem uma maior garantia de sustentabilidade e de resiliência a longo prazo. Dadas as limitações que enfrentamos, seria benéfica a difusão destes métodos no nosso país, acompanhada por mudanças estruturais nos circuitos de produção, distribuição e consumo. Poderia perguntar-se por que não fazemos esta mudança de rumo. Talvez porque, como disse Olivier De Schutter "apesar do seu incrível potencial na realização do direito à alimentação, a agroecologia é ainda insuficientemente apoiada por políticas públicas ambiciosas e, portanto, ainda mal ainda ultrapassou a fase experimental". Então, cidadãos, aos jardins!»

domingo, 3 de março de 2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

Vandana Shiva e a agroecologia como o recurso principal

A agroecologia é a solução para garantir a segurança alimentar do planeta, foi a principal mensagem de Vandana Shiva na entrevista após a Cúpula dos Povos, em junho 2012:

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Agroecologia: o futuro da agricultura

São cada vez mais as vozes e as provas que destacam as enormes vantagens da agroecologia ou da agricultura ecológica em relação à agricultura industrial. Desde as evidentes e óbvias vantagens ambientais devido à não utilização de pesticidas e fertilizantes químico, até às vantagens económicas e sociais devido a uma partilha de lucros sem comparação possível, passando pelas vantagens em termos de saúde humana e de resiliência face à crise energética!
Imagem obtida aqui

A seguir, o depoimento de Miguel A. Altieri, presidenta da SOCLA - Sociedade Científica Latinoamericana de Agroecologia, onde refere que «Em Cuba, onde existe a única agricultura "post-petróleo" do mundo, num hectare produzem alimentos suficientes para alimentar 15 a 30 pessoas com uma eficiência energética de 15 a 30; isto significa que eles obtém 30 kilocalorias por cada kilocaloria que gastam no cultivo: a eficiência média da agricultura industrial é 1,5.»



Imagem obtida aqui
relatório de dezembro de 2010 de Olivier De Schutter, relator especial da ONU para o direito à alimentação conclui que, especialmente onde há mais pobreza, a agroecologia permite um elevado aumento da produtividade agrícola em relação aos métodos dependentes de pesticidas e fertilizantes químicos, enquanto contribui para a diminuição da fome e para a melhoria das condições de vida dos agricultores.

O texto que se segue é um extrato do documento "Agroecologia e o Direito Humano à Alimentação Adequada", tradução brasileira do referido relatório:

Imagem obtida aqui
«12. A agroecologia é tanto uma ciência quanto um conjunto de práticas. Ela foi criada pela convergência de duas disciplinas científicas: agronomia e ecologia. Como uma ciência, a agroecologia é a “aplicação da ciência ecológica ao estudo, projeto e gestão de agroecossistemas sustentáveis”. Como um conjunto de práticas agrícolas, a agroecologia busca maneiras de aperfeiçoar os sistemas agrícolas imitando os processos naturais, criando, portanto, interações biológicas benéficas e sinergias entre os componentes do agroecossistema. Ela apresenta as condições de solo mais favoráveis para o crescimento das plantas, particularmente pela gestão de matéria orgânica e pelo aumento na atividade biótica do solo. Dentre os princípios básicos da agroecologia destacam-se: a reciclagem de nutrientes e energia nas propriedades agrícolas, em vez da introdução de insumos externos; integrar cultivos agrícolas e a pecuária; diversificar as espécies e os recursos genéticos dos agroecossistemas no tempo e espaço; e concentrar-se em interações e produtividade em todo o sistema agrícola e não se concentrar em espécies individuais. A agroecologia faz um uso altamente intensivo do conhecimento, baseado em técnicas que não são transmitidas a partir dos níveis superiores, mas desenvolvidas com base no conhecimento e experimentação dos agricultores.
Imagem obtida aqui
(...)
Uma ampla gama de técnicas baseadas na perspectiva agroecológica tem sido desenvolvida e testada com sucesso em diversas regiões. Estas abordagens envolvem a manutenção ou introdução de biodiversidade agrícola (diversidade de culturas, pecuária, agrofloresta, pesca, polinizadores, insetos, biota do solo e outros componentes que ocorrem nos e em relação aos sistemas de produção) para atingir os resultados desejados na produção e sustentabilidade.
(...)
Imagem obtida aqui
17. Estas técnicas de conservação de recursos com baixos insumos externos têm um comprovado potencial para melhorar significativamente a produtividade. No que pode ser o estudo mais sistemático do potencial destas técnicas até a presente data, Jules Prett y et al. compararam os impactos de 286 projetos agrícolas sustentáveis recentes em 57 países pobres cobrindo 37 milhões de hectares (3% da área cultivada em países em desenvolvimento). Eles concluíram que estas intervenções aumentaram a produtividade em 12,6 milhões de propriedades agrícolas, com um aumento médio na safra de 79%, ao mesmo tempo em que melhoraram a oferta de serviços ambientais essenciais. Os dados desagregados desta pesquisa demonstraram que a produção alimentar média por propriedade aumentou em 1,7 tonelada por ano (até 73%) para 4,42 milhões de agricultores que praticam agricultura em pequena escala cultivando cereais e tubérculos em 3,6 milhões de hectares e que o aumento na produção de alimentos foi de 17 toneladas por ano (até 150%) para 146.000 agricultores em 542.000 hectares cultivando tubérculos (batata, batata doce, mandioca). Após a UNCTAD e UNEP terem reanalisado o banco de dados para apresentar um resumo dos impactos na África, descobriu-se que o aumento na produtividade média na safra foi até maior para estes projetos do que a média global de 79%, com um aumento de 166% para todos os projetos africanos e um aumento de 128% para os projetos no leste da África.

Imagem obtida aqui
18. O estudo de larga escala mais recente aponta para as mesmas conclusões. A pesquisa encomendada pelo projeto Foresight Global Food and Farming Futures do Governo do Reino Unido reviu 40 projetos em 20 países africanos nos quais a intensificação sustentável foi desenvolvida durante a década de 2000. Os projetos incluíram entre outros, a ampliação nas colheitas (particularmente os aperfeiçoamentos através do cultivo de plantas participativas em culturas órfãs negligenciadas até então), manejo integrado de pragas, conservação do solo e agrofloresta. Até o início de 2010, estes projetos tinham benefícios documentados para 10,39 milhões de agricultores e suas famílias e aperfeiçoamentos em aproximadamente 12,75 milhões de hectares. A produtividade nas culturas mais que dobrou na média (aumentando 2,13 vezes) em um período de 3-10 anos, resultando em um aumento na produção agregada de alimentos de 5,7 milhões de toneladas por ano, equivalente a 557 kg/propriedade agrícola.

Imagem obtida aqui
19. Algumas vezes, inovações aparentemente menores podem proporcionar altas produtividades. No Quênia, pesquisadores e agricultores desenvolveram a estratégia “atração-expulsão” para controlar ervas daninha e insetos que danificam as culturas. A estratégia consiste em “expulsar” as pragas do milho pelo consórcio do milho com culturas repelentes a insetos, como o Desmodium, ao mesmo tempo em que os “atrai” para os pequenos lotes de capim Napier, uma planta que excreta uma goma pegajosa que atrai e aprisiona as pragas. O sistema não apenas controla as pragas, mas também tem outros benefícios, porque o Desmodium pode ser usado como forragem para o gado. A estratégia “atração-expulsão” dobra a produtividade de milho e produção de leite, ao mesmo tempo em que melhora o solo. O sistema já foi difundido para mais de 10.000 propriedades no leste da África por meio de reuniões municipais, transmissões nacionais em rádio e escolas de campo para agricultores. No Japão, os agricultores descobriram que patos e peixes eram tão eficazes quanto pesticidas para o controle de insetos nos arrozais, ao mesmo tempo em que proporcionavam proteína adicional para suas famílias. Os patos comem ervas daninhas, sementes de ervas daninhas, insetos e outras pragas, reduzindo, portanto, a mão de obra com capina, de outra forma feita manualmente por mulheres, e as fezes dos patos fornecem nutrientes às plantas. O sistema foi adotado na China, Índia e Filipinas. Em Bangladesh, o International Rice Research Institute relatou um aumento de 20% na produtividade das culturas e o rendimento líquido com base no custo monetário aumentou em 80%.»