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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Democracia? (Manuel Arriaga)

«"Reinventar a democracia" é a versão portuguesa de "Rebooting democracy", lançado no Reino Unido há um ano, quando o autor (Manuel Arriaga) criou também um site na Internet com o mesmo nome (Reboot Democracy), para estimular o debate.» 
Fonte: Visão

Ainda não li o livro, mas a sua apresentação, feita pelo autor no Jornal 2 (aos 35-39 min, extracto no vídeo abaixo) em 7/5, aguçou-me a curiosidade.
Na entrevista à SIC Notícias de 10/5 (aqui), o economista Manuel Arriaga  dá, no final, uma breve explicação sobre a "Deliberação Cívica", também mencionada no artigo da Visão "E se os políticos fôssemos nós?"



Para refletir sobre a dita "democracia" em que vivemos também em:

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

TTIP: a democracia em perigo!

«Os beneficiados com os tratados de livre comércio são unicamente os bancos e as grandes empresas.» 

Mas, haverá dúvidas que o Tratado de Parceria Transatlântica (TTIP) só irá prejudicar as pessoas (exceto donos de bancos e de grandes empresas, claro), o ambiente e a democracia? Vejam o vídeo abaixo (tem legendas em português) e não deixem este tratado avançar, ajudem a parar o TTIP e a Corporocracia!

Saiba mais sobre o TTIP em https://www.nao-ao-ttip.pt/

Assine a petição contra o TTIP  em  http://stop-ttip.org/  ou em  http://www.nao-ao-ttip.pt/

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Democracia? (José Saramago)

"A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada.José Saramago, do vídeo:



Imagem obtida aqui
"Tenho uma visão bastante céptica do que chamamos de democracia. Na verdade, vivemos sob uma plutocracia, sob o governo dos ricos. Com o neoliberalismo económico, certas alavancas que o Estado detinha para agir em função da sociedade praticamente desapareceram. Não se discute hoje a democracia com seriedade. Foram impostos tantos limites à democracia que se impede o desenvolvimento de outras áreas da vida humana. Veja o exemplo do Fundo Monetário Internacional. Trata-se de um organismo que não foi eleito pela população, mas que controla boa parte da economia internacional."  José Saramago (O Estado de S. Paulo, São Paulo, 29 de Outubro de 2005 In José Saramago nas Suas Palavras.)  Fonte: Outros Cadernos de Saramago

O vídeo foi publicado aqui inicialmente em 19/06/2010, republicado em 25 de Abril de 2012 e em 25 de abril de 2014. Os textos e a imagem foram adicionados em 25/4/2014.

domingo, 14 de outubro de 2012

Mensagem da ativista islandesa Birgitta Jónsdóttir

Mensagem da ativista islandesa Birgitta Jónsdóttir, de 13/10/2012

(Tradução de Carlos Clara Gomes)

«Uma mensagem minha para todos os que protestam. Especialmente para os meus amigos de Portugal.

Caros irmãos e irmãs

Quem me dera poder estar convosco pessoalmente, pois tenho saudades dos protestos que tivemos na Islândia quando surgiu a nossa crise financeira de 2008/2009.
Tenho saudades do espírito e do sentido de união que todos vivemos. O meu espírito está convosco e com todos aqueles que hoje se erguem. Povos de todo o mundo estão a acordar para a realidade de que os nossos sistemas já não nos servem. Os sistemas são auto-imunes e defendem-se a eles mesmos em vez de defenderem quem deviam estar a servir: TODOS VÓS

Nunca nos esqueçamos que nós também somos o sistema, nós também somos o governo, e se nós queremos mudar isso temos que ir lá dentro e criar uma ponte entre o poder e o povo. Antes de mais, sou uma poetisa que escolheu ver-se tanto como poetisa como uma hacker no Parlamento, para entender como trazer mais poder para o Povo da Islândia.

Foram os nossos irmãos e irmãs da revolta na Argentina, quem começou a usar panelas e frigideiras, quando se levantaram contra o seu presidente corrupto e o FMI há alguns anos atrás. Nós fomos inspirados por eles. Agora vocês são inspirados por nós. Lembremo-nos de que mesmo o menor sofrimento ou alegria de alguém em nosso mundo é também realmente nosso, pois somos um único povo.

As ideologias da velha escola da política, dos media, sistemas monetários, empresas e todas as estruturas conhecidas estão em um estado de transformação. Eles estão desmoronando-se. Agora é a hora de uma mudança fundamental a todos os níveis: temos que aproveitar este momento. Porque este é O momento.

É invulgar que tantas gerações e indivíduos tenham semelhante oportunidade como esta para transformar o mundo tal como nós o conhecemos. A grande questão é: como podemos transformá-lo? Alteremos a pirâmide do poder para um círculo de poder onde todos nós sejamos valorizados enquanto tal.

É óbvio que estamos funcionando fora do planeta, muitas das pessoas perderam a conexão vital com o nosso ambiente, a maior parte da humanidade já não compreende a causa e o efeito da falta de sustentabilidade e muitos de nós sentem-se perdidos, deslocados e solitários. Todas as estruturas que achávamos que cuidariam de nós, sejam elas sistemas, ideologias, religião, política ou instituições estão falhando. Que momento, este!

Seguir o coração e as entranhas como um poeta faz muito mais sentido para mim do que a seguir o antagonismo ou a manipulação ideológica. A ideologia do certo ou errado do velho mundo simplesmente foi superada. Já não temos parlamentos fortes, com uma ligação estreita e directa entre o povo em geral e os centros de decisão. Temos os chamado políticos profissionais que estão distantes da realidade da maioria em que nós vivemos.

Partidos e os políticos estão muitas vezes instalados num casamento pouco saudável com os interesses financeiros e a corrupção prospera na arena política em todo o mundo. Enquanto muitos governos falam sobre transparência, o processo de políticas e de leis é retalhado em sigilo.

Precisamos mudar isso. Nós temos que saber o que queremos, em vez dessa realidade que estamos enfrentando.

O século 21 será a nossa era, a das pessoas comuns, onde iremos entender que, para viver na realidade que sonhamos, temos que participar e colaborar para co-criar essa mesma realidade.

Exorto-vos a participar num movimento de mudança, fazer parte activa desta oportunidade de mudança. Se eu pude ser deputada no parlamento islandês, qualquer um pode ser membro do parlamento.

Aqui está a nossa primeira tarefa: Se há algo que está entre o que nós temos que fazer sob a tutela das nações e não das grandes empresas, então é o seguinte: as companhias de água, as empresas de energia, o bem-estar social, a educação, a internet e os sistemas de saúde.

Fizemos tudo tão complexo e grandioso, talvez seja hora de voltar a formas mais simples, formas mais auto-sustentáveis. Nós podemos fazer isso, aprendendo uns com os outros, ajudando-nos mutuamente, local e globalmente, lembrando-nos que nós, como indivíduos, podemos mudar o mundo, e agora é a hora de avançar - assumirmos esse desafio e sermos os manufactores de mudança. Não esperemos que os outros o façam por nós, a hora de fazer a diferença chegou!»

Esta mensagem foi encontrada já traduzida no Facebook, está também no blogue Bioterra, e foi publicada originalmente no mural do Facebook de Birgitta Jónsdóttir (English) em 13/10/2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os Quatro Ginetes do Novo Apocalipse

«Os Quatro Ginetes do Novo Apocalipse, a primeira longa-metragem do realizador Ross Ashcroft, revela as falhas fundamentais do sistema económico que trouxeram a nossa civilização ao limiar do desastre. 
23 pensadores, frustrados com o fracasso das respetivas disciplinas, quebram o silêncio para explicar como o mundo realmente funciona. 
O filme não faz rodeios ao descrever as consequências da inação continuada, mas a sua mensagem é de esperança. Se mais pessoas poderem ter uma melhor compreensão de como o mundo realmente funciona, então os sistemas e estruturas que condenam milhares de milhões à pobreza ou à insegurança crónica podem finalmente ser derrubados. Nunca foram tão urgentes soluções para as múltiplas crises que a humanidade enfrenta, mas, igualmente, nunca as condições para a mudança foram mais favoráveis.»
Fonte: tradução da sinopse do site do filme

Neste mês de Outubro, o Canal Odisseia transmite o filme de Ross Ashcroft "Four Horsemen", que recebeu o título em português "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse" (Brasil) ou "Os Quatro Ginetes do Novo Apocalipse" (Portugal).

A primeira parte foi já emitida nos dias 7 e 8, e voltará a ser emitida no dia 29, juntamente com as outras duas partes. Veja os horários e as datas na página do canal Odisseia. Pelo que vi no primeiro episódio, não vou perder os outros dois! Abaixo, o trailer, e a seguir, a ligação para o filme (inserido a 27/5/2013):


sábado, 29 de setembro de 2012

Discurso de Charlie Chaplin em "O Grande Ditador"

aqui referi este discurso de Charlie Chaplin no filme "O Grande Ditador". Hoje, chegou a vez de lhe dar destaque.



Porque os reais ditadores não têm as ideias de paz e harmonia que este ficcionado sósia do ditador nos transmite neste poderoso discurso, e para que não se esqueça o Holocausto, relembro o que aconteceu em Babi Yar há 71 anos, um dos maiores massacres da História:

«Babi Yar é uma ravina existente em Kiev, capital da Ucrânia, que ficou conhecida na história como local de um dos maiores massacres de judeus e civis da então União Soviética pelos nazistas, durante a II Guerra Mundial. Em 29 e 30 de setembro de 1941, 92.771 civis ucranianos judeus foram levados a Babi Yar e assassinados coletivamente, num dos maiores massacres de massa da história.»
Fonte: Wikipedia

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Apelo pela saúde

Na sequência da entrevista ao laureado com o prémio Nobel da Medicina Richard J. Roberts, publicada na mensagem "Curar não dá lucro",  vem agora o apelo do médico e investigador alemão Matthias Rath, que vale a pena escutar no vídeo abaixo.

Imagem obtida em Activist Post
«Na conferência “Cancer Free World” em Berlim, Alemanha, em 13 de março de 2012, Dr. Rath apelou ao povo da Alemanha e da Europa para assumir a responsabilidade pela construção de uma Europa democrática para o Povo e pelo Povo. Descrevendo como a investigação científica sobre os remédios naturais está já amplamente disponível, tornando claro que a incidência de doenças comuns pode agora ser reduzida a uma fração da sua ocorrência atual, afirmou que é agora possível a construção de um novo sistema global de saúde baseado na prevenção e eliminação de doenças. Dr. Rath sublinhou, contudo, que este impressionante "mundo sem doença" não nos será entregue numa bandeja, porque cada doença representa um mercado de biliões de dólares para o cartel farmacêutico e os seus atores políticos os escritórios da União Europeia em Bruxelas.

Como tal, se quisermos criar um mundo sem doenças para nós e nossos filhos, todos nós devemos agir agora.»
Fonte: Dr Rath Health Foundation (tradução minha)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Democracia? (Miguel Portas)

"Isto não é sério, meus amigos, isto é indecente e muito triste" Miguel Portas

Há cerca de um ano publiquei aqui uma intervenção de Miguel Portas no Parlamento Europeu sobre as regalias dos deputados, em Fevereiro de 2010. Hoje, no dia seguinte ao da sua partida, que muito lamento, recordo mais uma das suas batalhas nessa sua luta incessante pela verdadeira democracia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

15 de Outubro – Unidos por uma mudança global

"No dia 15 de Outubro pessoas de todo o mundo tomarão as ruas e as praças. Da América à Ásia, de África à Europa, as pessoas estão a erguer-se para lutar pelos seus direitos e pedir uma autêntica democracia. Agora chegou o momento de nos unirmos num protesto não violento à escala global.

Os poderes estabelecidos actuam em benefício de uns poucos, ignorando a vontade da grande maioria e sem se importarem com o custo humano ou ecológico que tenhamos que pagar. Há que pôr fim a esta situação intolerável.

Unidos em uma só voz, faremos saber aos políticos e às elites financeiras que eles servem, que agora somos nós, o povo, que decidirá o nosso futuro. Não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros que não nos representam.

No dia 15 de Outubro encontramo-nos nas ruas para pôr em marcha a mudança global que queremos. Vamos manifestar-nos pacificamente e vamos organizar-nos até atingirmos o nosso objectivo.

Chegou a hora de nos unirmos. Chegou a hora de nos ouvirem."

Saiamos às ruas do mundo o dia 15 de outubro!"     (Fonte: http://www.15deoutubro.net/)



Hora: a partir das 15:00h até às 24h  |  Locais:

Portugal  |  http://www.15deoutubro.net/

Resto do Mundo | http://15october.net/


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Desculpem o transtorno, isto é uma R / Evolução

"Desculpem o transtorno, isto é uma R / Evolução". Dia 15 de Outubro, o mundo inteiro vai manifestar que está farto deste sistema totalmente injusto. Pacificamente!
 

domingo, 9 de outubro de 2011

"A coisa mais importante do mundo agora" por Naomi Klein

"Começamos uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E à medida que este movimento crescer e ganhar força, tornar-se-á mais assustador. Estejam conscientes de que haverá a tentação de mudar para alvos menores - como, por exemplo, a pessoa ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, é uma batalha bem mais fácil de ganhar.

Não ceda à tentação. Não estou a dizer que vocês não devem apontar os erros dos outros. Mas desta vez, vamos-nos tratar uns aos outros como quem planeia trabalhar lado a lado na luta durante muitos anos. Porque esta tarefa não vai exigir menos que isso.

Vamos tratar esse belo movimento como se fosse coisa mais importante do mundo. Porque o é, realmente."

Estas são as linhas finais do discurso de Naomi Klein na passada quinta-feira, dia 6 de Outubro na manifestação "Occupy Wall Street", em Nova Iorque. Sem microfones, porque a polícia proibiu, os manifestantes repetiram o discurso, frase a frase. Cabe-me a mim ajudar a amplificar a sua voz, aqui. E a vocês todos também. Porque você que está a ler este blogue, muito provavelmente faz parte dos 99%. 



Porque o discurso é muito importante, fica abaixo a sua tradução completa, bem como a nota introdutória, de Idelber Avelar a obtida na Revista Fórum.

"Naomi Klein é hoje uma das principais intelectuais e militantes anticapitalistas do planeta. Jovem (nasceu em 1970), apaixonada, corajosa, de brilhante trânsito por uma série de disciplinas e potente domínio da retórica, ela já se destacara como figura central nos protestos de 1999 contra a financeirização do mundo. Em 2000, lançou No Logo, uma crítica das multinacionais e do seu uso do trabalho escravo. Mas foi seu terceiro livro, A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre, que a elevou à condição de uma das principais intelectuais de esquerda do mundo. Com capítulos sobre os EUA, a Inglaterra de Thatcher, o Chile de Pinochet, o Iraque pós-invasão, a África do Sul, a Polônia, a Rússia e os tigres asiáticos, Klein demonstra como o capitalismo contemporâneo funciona à base da produção de desgraças, apropriando-se delas para o contínuo saqueio e privatização da riqueza pública. De família judia, Klein participou, em 2009, durante o massacre israelense a Gaza, da campanha “Desinvestimento, Sanções e Boicote” (BDS) contra Israel. Num discurso em Ramalá, pediu perdão aos palestinos por não ter se juntado antes à campanha BDS.

Nesta quinta-feira, 06 de outubro, Naomi Klein compareceu, convidada, à Assembleia Geral de Nova York. A amplificação foi banida pela polícia. Não havia microfones. Num inesquecível gesto, a multidão mais próxima a Klein repetia suas frases, para que os mais distantes pudessem ouvir e, por sua vez, repeti-las também. Era o "microfone humano". O memorável discurso de Klein foi assistido por dezenas de milhares de pessoas via internet. A Fórum publica o texto em português em primeira mão. É um comovente documento da luta de nosso tempo." Idelber Avelar
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"Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:
  • Nossas roupas.
  • Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.
  • Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.
E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:
  • Nossa coragem.
  • Nossa bússola moral.
  • Como tratamos uns aos outros.
Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ele é. De verdade, ele é. Mesmo."

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O tempo de mudança chegou!

Imagem obtida em deutsche welle 
Foi nos Estados Unidos que começou a ditadura das grandes multinacionais, e por isso, nada mais óbvio que seja nos Estados unidos que comece a revolução contra esta ditadura de corporações e de um capitalismo selvagem, que são a principal causa dos enormes desequilíbrios económicos e sociais actuais, e do crescente e alarmante fosso entre ricos e pobres.

Felizmente os protestos que decorrem há semanas em Wall Street chegaram à comunicação social, e alastraram-se já por várias cidades daquele país.

Dar continuidade a esta revolução de forma pacífica e determinada, por todo o mundo é a revolução essencial. Há que retirar direitos às grandes corporações e há que acabar com a sua ganância desmesurada. Só assim este planeta, no seu todo, pode melhorar.

A Avaaz já se juntou a este protesto e criou uma campanha de apoio, não apenas aos manifestantes, mas também aos mais de 99% da população prejudicada pela actuação das grandes multinacionais: 

"Para os cidadãos ocupando Wall Street e aos povos protestando em todo o mundo:  Estamos com vocês nesta luta pela democracia real. Juntos podemos acabar com a corrupção e o aprisionamento de nossos governantes pelas corporativas e ricas elites, e manter os nossos políticos responsáveis ​​para servir o interesse público. Estamos unidos - o tempo de mudança chegou!"

Junte o seu apoio a este movimento em  "O Mundo vs Wall Street" e participe na campanha para a democracia real - um contador gigante será erguido no centro da ocupação em Nova York mostrando ao vivo cada um que assinar a petição.
   

Se tem dúvidas sobre a importância do que aqui se reivindica e da culpa das grandes multinacionais no estado caótico deste planeta, veja os vídeos contidos nas seguintes mensagens deste blogue:

A história dos cidadãos unidos versus corporações (1 de Março de 2011)
A raiz do mal (17 de Maio de 2011)
Corporocracia (12 de Junho de 2011)

Já agora, o início dos protestos, em 17 de Setembro passado, foi uma excelente prenda de aniversário!

domingo, 12 de junho de 2011

Corporocracia

Afinal, em que sistema "político" vivemos? Democracia? Será mesmo? Cá em Portugal, parece mais uma Partidocracia, como diz António Barreto. Mas na realidade, quem manda? O Povo? Os Partidos? Os Políticos? Julgo que nenhum deles. Na verdade, vivemos numa Corporocracia, pois são as grandes multinacionais (corporações), detentoras do poder económico e financeiro que têm decidido os destinos dos países e do mundo. Com direitos idênticos aos das pessoas humanas, não têm deveres porque ninguém dentro delas é responsável por nada. Querem fazer-nos viver na ilusão da facilidade e da comodidade, mas vão controlando e destruindo recursos naturais, comunidades, poluindo a natureza e brincando com a saúde humana. E quantas vezes com a capa de "beneméritas"!

Tal é o estado letárgico induzido pela ânsia de consumo, que a mente humana quase já nem sabe distinguir o bem do mal. Infiltradas nos partidos e dominando a comunicação social, as grandes multinacionais mandam em tudo sem que ninguém as tenha eleito. Ou será que votamos nelas cada vez que compramos os seus produtos?

No mês passado, apresentei aqui o documentário "A Corporação", que documenta bem a história e a actuação destes monstros ávidos por lucro. O vídeo que se segue, extraído do documentário de 2008 "Zeitgeist: Addendum" realizado por Peter Joseph (e que agradeço à Fada do Bosque), vai de encontro ao mesmo tema, envolvendo dois outros actores importantes: o Banco Mundial e o FMI. Para ver este documentário completo, aceda aqui.

No vídeo de Annie Leonard "A história dos cidadãos unidos versus corporações", um caminho de constestação a este estado de coisas é apontado. 

Veja, e pense nisso! É difícil reverter este estado? Claro que sim! Muito difícil! Mas por algum lado temos de começar. E o primeiro, é sair da letargia do Matrix e ficarmos conscientes da situação.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Limpar a espuma para ver o caminho

Fotografia de Claudia Rogge
Enquanto uma parte da população já percebeu que vivemos no tempo de acabar com o sistema político dominado pelos detentores do poder económico e financeiro (gatarrões), uma outra (muito grande) parte continua cheia da espuma injectada pela comunicação social de massas, que, tal como os agentes e instituições ligados ao poder político, tomam como adquirido o discurso fatalista de que não há outro remédio senão continuar no mesmo sistema, escolhendo os gatos que hão-de governar os ratos para seu (deles, gatarrões e gatos) proveito.

Temo que ainda não tenha chegado a verdadeira hora de mudança, porque são muitos os que ainda estão mergulhados nessa espuma de vassalagem aos grandes gatarrões. No entanto, acho que já está mais que no momento de começar a acabar com este jogo de cifrões, gatarrões e gatos, e passarmos a dar prioridade ao que realmente importa: mudar esta democracia de fachada para uma democracia real. O caminho ainda não é claro e não vai ser fácil, mas, mais dia menos dia, teremos de fazer esse percurso. Quanto mais tarde, mais difícil será.

Para reflexão, sugiro mais uma vez esta animação da fábula popularizada por Tommy Douglas, Mouseland, bem como o texto do sociólogo Boaventura de Sousa Santos  sobre os acampados, e o seu discurso na acampada de Lisboa, no passado dia 23 de Maio, que ficam já aqui a seguir:



A pensar nas eleições
Artigo de Boaventura de Sousa Santos, em Carta Maior

«Nos próximos tempos, as elites conservadoras europeias, tanto políticas como culturais, vão ter um choque: os europeus são gente comum e, quando sujeitos às mesmas provações ou às mesmas frustrações por que têm passado outros povos noutras regiões do mundo, em vez de reagir à europeia, reagem como eles. Para essas elites, reagir à europeia é acreditar nas instituições e agir sempre nos limites que elas impõem. Um bom cidadão é um cidadão bem comportado, e este é o que vive entre as comportas das instituições.

Dado o desigual desenvolvimento do mundo, não é de prever que os europeus venham a ser sujeitos, nos tempos mais próximos, às mesmas provações a que têm sido sujeitos os africanos, os latino-americanos ou os asiáticos. Mas tudo indica que possam vir a ser sujeitos às mesmas frustrações. Formulado de modos muito diversos, o desejo de uma sociedade mais democrática e mais justa é hoje um bem comum da humanidade. O papel das instituições é regular as expectativas dos cidadãos de modo a evitar que o abismo entre esse desejo e a sua realização não seja tão grande que a frustração atinja níveis perturbadores.

Ora é observável um pouco por toda a parte que as instituições existentes estão a desempenhar pior o seu papel, sendo-lhes cada vez mais difícil conter a frustração dos cidadãos. Se as instituições existentes não servem, é necessário reformá-las ou criar outras. Enquanto tal não ocorre, é legítimo e democrático atuar à margem delas, pacificamente, nas ruas e nas praças. Estamos a entrar num período pós-institucional.

Os jovens acampados no Rossio e nas praças de Espanha são os primeiros sinais da emergência de um novo espaço público – a rua e a praça – onde se discute o sequestro das atuais democracias pelos interesses de minorias poderosas e se apontam os caminhos da construção de democracias mais robustas, mais capazes de salvaguardar os interesses das maiorias. A importância da sua luta mede-se pela ira com que investem contra eles as forças conservadoras. Os acampados não têm de ser impecáveis nas suas análises, exaustivos nas suas denúncias ou rigorosos nas suas propostas. Basta-lhes ser clarividentes na urgência em ampliar a
agenda política e o horizonte de possibilidades democráticas, e genuínos na aspiração a uma vida digna e social e ecologicamente mais justa.

Para contextualizar a luta das acampadas e dos acampados, são oportunas duas observações. A primeira é que, ao contrário dos jovens (anarquistas e outros) das ruas de Londres, Paris e Moscou no início do século XX, os acampados não lançam bombas nem atentam contra a vida dos dirigentes políticos. Manifestam-se pacificamente e a favor de mais democracia. É um avanço histórico notável que só a miopia das ideologias e a estreiteza dos interesses não permite ver. Apesar de todas as armadilhas do liberalismo, a democracia entrou no imaginário das grandes maiorias como um ideal libertador, o ideal da democracia verdadeira ou real. É um ideal que, se levado a sério, constitui uma ameaça fatal para aqueles cujo dinheiro ou posição social lhes tem permitido manipular impunemente o jogo democrático.

A segunda observação é que os momentos mais criativos da democracia raramente ocorreram nas salas dos parlamentos. Ocorreram nas ruas, onde os cidadãos revoltados forçaram as mudanças de regime ou a ampliação das agendas políticas. Entre muitas outras demandas, os acampados exigem a resistência às imposições da troika para que a vida dos cidadãos tenha prioridade sobre os lucros dos banqueiros e especuladores; a recusa ou a renegociação da dívida; um modelo de desenvolvimento social e ecologicamente justo; o fim da discriminação sexual e racial e da xenofobia contra os imigrantes; a não privatização de bens comuns da humanidade, como a água, ou de bens públicos, como os correios; a reforma do sistema político para o tornar mais participativo, mais transparente e imune à corrupção.

A pensar nas eleições acabei por não falar das eleições. Não falei?»

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Póstroika - reinventar a sociedade

Primeiro, convido-vos a ver o pequeno filme "Póstroika" da DialogueStudio



Depois, convido-vos a ler na íntegra o artigo de Paulo Pena na Visão do passado dia 3 de Maio, sobre a Islândia e intitulado "A crise levou o dinheiro, mas não a criatividade", do qual transcrevo apenas o lead :

Foto de Bára Kristindóttir, digitalizada da revista Visão
"O lixo diminuiu um quarto, em Reiquiavique. As prateleiras dos supermercados deixaram de ter tantos produtos importados. Algumas famílias começaram a cultivar quintais. E a tricotar camisolas. Os Range Rovers agora chamam-se game-overs. Consumir? "Isso é tão 2007..." Os bancos faliram, as famílias entraram em bancarrota, o Estado estremeceu. Veio o FMI, mas o sistema de proteção social não mudou. Democracia: é a receita dos islandeses para sair da kreppa, o nome islandês da crise. Os banqueiros vão ser julgados. O anterior primeiro-ministro vai ser acusado. A Constituição está a ser revista por cidadãos comuns. A pequena ilha nórdica quase foi ao fundo, mas está a reinventar-se"

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Apelo: Manifesto para um mundo melhor

Este blogue adere e está com o Manifesto para um mundo melhor, publicado no dia 1 de Maio de 2011, no Público,  e que a seguir se transcreve: 


Como cientistas sociais que partilham valores de democraticidade e de justiça social, temos estado atentos a esta crise económica internacional multifacetada e com consequências profundamente negativas no que diz respeito ao Progresso da Humanidade.

Vive-se, na Europa e nos Estados Unidos da América, um tempo de crise económica e social profunda, onde o impacto dos mercados financeiros internacionais e da especulação nas economias nacionais se apresenta como fortemente comprometedor não apenas da retoma económica, mas também, não só da estabilidade democrática, como do aprofundamento da democracia e, consequentemente, do bem-estar social.

Às elevadas taxas de desemprego, à precariedade e volatilidade do mercado de trabalho, resultado de políticas neoliberais protectoras e favorecedoras dos interesses do grande capital, os políticos têm vindo a responder com medidas de combate à crise profundamente fragilizadoras das classes de menor estatuto social e económico, mas sem impacto na resolução dessa mesma crise, servindo apenas para “acalmar” o apetite dos mercados financeiros internacionais através do pagamento de elevados e injustificados juros cobrados às frágeis economias nacionais. Estas medidas são apresentadas às opiniões públicas como as únicas verdadeiramente eficazes para minorar os efeitos da voracidade dos mercados financeiros internacionais desregulados, omitindo o papel daqueles na emergência e aprofundamento da crise. Esta é declarada e assumida pelos governantes e por muitos economistas como se de uma fatalidade se tratasse. Ao mesmo tempo, propaga-se a ideia (ideologia) da inviabilidade de alternativas, a par da fragilização, no caso Europeu, do seu Modelo Social assente na redistribuição económica alegando a sua insustentabilidade a médio e longo prazo e a sua subalternização à Europa da Concorrência.

Acentua-se a responsabilidade individual e a desresponsabilização do Estado face aos grupos sociais mais vulneráveis, reduzindo as oportunidades para se realizarem enquanto cidadãos, beneficiando os mais poderosos em prejuízo dos mais desfavorecidos.

O ataque ideológico ao Modelo Social Europeu é um ataque ao mundo, dado que aquele é o modelo-padrão a partir do qual se constroem as aspirações dos cidadãos das nações emergentes e as novas formas de organização social que urge construir nesses países para redistribuir a crescente riqueza de que poucos usufruem.

As suas consequências são o paulatino desmantelamento das protecções sociais que (ainda) limitam os danos da pobreza e da exclusão social pondo em causa o contrato social que fundamenta a democracia. Às grandes desigualdades de distribuição de rendimento existentes nos países emergentes, perpetuadoras de inúmeras vidas imersas na mais profunda pobreza, juntam-se as novas situações, nos países mais ricos, onde o nível de riqueza cresce ao mesmo tempo que o número de pobres.

É em períodos de crise que se constroem alternativas de futuro. Todos os que se sentem interpelados, descontentes e explorados não podem ser mobilizados pelo “medo” para soluções autoritárias. E corre-se esse perigo. Por isso, é este o momento certo para que os cientistas sociais, que se ocupam de analisar, de procurar compreender e de sistematizar conhecimento sobre as sociedades, as suas dinâmicas, as suas forças e também os seus efeitos perversos, se empenhem na construção do aprofundamento da democracia. Em conjunto com todos aqueles que estão dispostos a trabalhar por um Mundo Melhor. Com todos aqueles que sabem que a democracia se inventa e se reconstrói. Outros paradigmas são possíveis, mas exigem o compromisso de todos nós, para que se diminua a distância entre governantes e governados, denunciada há tantos anos por Bourdieu; para que seja possível, à semelhança do preconizado por Edgar Morin, resistirmos a uma ideologia dominante que tudo varre à sua frente e que apresenta como evidente e normal o que mais não é que a exploração e a desigualdade, que recusamos; para que seja possível compreender à semelhança de Cynthia Fleury, que a democracia tem que conter a crítica de si própria, de modo a que se reinventem as regras que nos governam, impedindo a “entropia” das democracias. Torna-se, por isso, fundamental a intervenção no espaço público, nomeadamente através da construção de um Manifesto capaz de interrogar o capitalismo desenfreado em que vivemos (e particularmente a submissão às exigências dos mercados financeiros internacionais) que sacrifica parte significativa dos seres humanos em nome do lucro exacerbado de alguns, encaminhando-os para a perda gradual dos Direitos e da Dignidade Humanos. Trata-se de um Manifesto capaz de questionar o tipo de sociedade que está a construir-se com este modelo económico e apontar para a construção de uma sociedade em que o modelo económico não faça refém a maior parte da humanidade, destruindo-lhe nomeadamente a capacidade de indignação através do aumento da insegurança e precariedade associadas ao mercado de trabalho. O papel dos e das cientistas sociais é também desconstruir as “evidências do mercado”, bem como outras ideologias tão eficazes, nomeadamente no que diz respeito à veiculação de que não existe alternativa para a actual ordem económica e social mundial.

Afirmamos, pelo contrário, que uma nova ordem económica mundial é possível: uma ordem que restitua aos seres humanos o Direito à indignação, o Direito ao trabalho, o Direito a expectativas positivas e oportunidades de vida, o Direito à Dignidade.

Propomos, por isso, a adopção mundial de medidas tendentes a diminuir o impacto social da actual crise mundial que, se consideradas pelas elites governantes mundiais, contribuirão para o incremento das economias nacionais, para restituir ao ser humano a confiança no futuro e para o aprofundamento do sistema democrático.

Uma democracia saudável é uma democracia mais deliberativa e comunicativa, em que as políticas de “redistribuição”, de “reconhecimento” e de “participação” se articulam em prol de uma justiça mais respeitadora dos direitos humanos, mais cooperativa, sem áreas marginais, tendo em vista transformar este nosso mundo numa comunidade de comunidades.

A sobreexposição da opinião pública aos economistas do regime e sua cartilha de pensamento único desvitaliza e despolitiza o espaço público, difundindo a ideia que Margaret Thatcher apregoou quando subiu ao poder e que constitui o nó górdio de todo um programa: "não há alternativa". Nos dias que correm, esta questão surge com particular intensidade no respeitante à dívida soberana. A prenoção da intocabilidade da dívida afoga todas as tentativas de a discutir enquanto instrumento privilegiado de transferência dos rendimentos do salário para o capital. Na verdade, o reescalonamento e a reestruturação da dívida deveria permitir aos países não pagarem juros extorsionários. De igual modo, afigura-se fundamental impor uma justa redistribuição dos sacrifícios, obrigando a banca (uma das principais causadoras e beneficiárias da actual crise) a pagar imposto de acordo com os lucros obtidos, a par da taxação das grandes fortunas, das mais-valias bolsistas e urbanísticas, das transferências para offshores. Finalmente, julgamos essencial que qualquer política macroeconómica calcule, de antemão, o número de pobres que vai produzir, para que se perceba e evite os danos sociais e morais da sua implementação.

A construção de um Movimento Social Internacional
 
Apela-se a todos os Cidadãos e Cidadãs do Mundo para aderirem a este Manifesto, em ordem a construir um Movimento Social Mundial capaz de enfrentar o actual capitalismo desenfreado que se quer fazer “senhor do mundo” e reféns as pessoas que o habitam. PELA REGULAÇÃO DEMOCRÁTICA E SOLIDÁRIA DO CAPITALISMO. PELA HUMANIDADE COM DIGNIDADE.

Almerindo Afonso (Sociólogo da educação, Instituto de Educação, Universidade do Minho), Ana Benavente (Socióloga da educação, ICS-ULHT, Lisboa), Ana Diogo (Socióloga Universidade dos Açores). Afrânio Mendes Catâni (Sociólogo, Universidade de São Paulo, Brasil) Álvaro Borralho (Sociólogo, Universidade dos Açores), Alexandra Castro (Socióloga, CET/ISCTE), Alberto Melo (Associação in Loco e Universidade do Algarve), António Teodoro (Professor, investigador em educação, Universidade Lusófona), Andrea Spini (Sociólogo, Universidade de Florença, Itália) Bernard Lahire (Sociólogo, École Normale Supérieure Lettres et Sciences Humaines, Universidade de Lyon 2, França), Boaventura de Sousa Santos (Sociólogo, Director do CES, Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra), Carlo Catarsi (Sociólogo, Universidade de Florença, Itália) Carlos Estêvão (Sociólogo da Educação, Instituto de Educação, Universidade do Minho), Casimiro Balsa (Sociólogo, Universidade Nova de Lisboa), Claire Auzias (Historiadora, França) Conceição Nogueira (Psicóloga Social, Escola de Psicologia, Universidade do Minho) Fátima Pereira Alves (Socióloga, Universidade Aberta), Fernando Diogo (Sociólogo, Universidade dos Açores), Filipe Carmo (Historiador), Gilberta Rocha (Socióloga, Universidade dos Açores), Giovanna Campani (Antropóloga, Universidade de Florença, Itália), Isabel Guerra (Socióloga, DINAMIA/CET, IUL/ISCTE), João Teixeira Lopes (Sociólogo, Faculdade de Letras, Universidade do Porto), Luísa Ferreira da Silva (Socióloga, ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade Técnica de Lisboa), Manuel Carlos Silva (Sociólogo, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho), Maria Alice Nogueira (Socióloga, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil) Maria José Casa-Nova (Socióloga da educação, Instituto de Educação, Universidade do Minho), Maria Helena Cabeçadas (Antropóloga), Manuel Matos (Professor aposentado da FPCE, Universidade do Porto), Manuel Sarmento (Sociólogo, Instituto de Educação, Universidade do Minho), Margaret Gibson (Professor Emérita of Education and Anthropology, University of California, Santa Cruz, USA), Maurizio Matteuzzi (Filósofo, Universidade de Bologna, Itália), Michael Young (Sociólogo, da educação, institute of Education, London) Michel Messu (Sociólogo, Universidade de Nantes, França), Nancy Fraser (Henry A. & Louise Loeb Professor of Philosophy and Politics, New School for Social Research, New York, USA), Nathalie Burnay (Socióloga, Universidade de Namur, Bélgica), Paulo Pereira de Almeida (sociólogo, ISCTE, Lisboa), Pedro Silva (Sociólogo da educação, Escola Superior de Educação e Ciências Sociais, Instituto Politécnico de Leiria), Roger Dale (Sociólogo, Universidade de Bristol, Inglaterra), Rui Brito Fonseca (Sociólogo, CIES/ISCTE-IUL) Universidade de Lisboa), Rui Canário (Sociólogo da educação, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa) Rui Santiago (Professor da Universidade de Aveiro), Saniye Dedeoglu (Centre For Research in Ethnic Relations, School of Health and Social Studies, University of Warwick, Inglaterra), Sílvia Carrasco Pons (Antropóloga, Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha), Sofia Marques da Silva (Socióloga da Educação, FPCE, Universidade do Porto) Tiziana Chiappelli (Educadora, Universidade de Florença, Itália), Tiago Neves (Sociólogo, FPCE, Universidade do Porto) David Smith (Sociólogo, Canterbury University, Kent, United Kingdom), Vitor Matias Ferreira (Sociólogo, Prof. Emérito do ISCTE) Xavier Bonal (Sociólogo, Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha), Xavier Rambla (Professor de Sociologia, Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha).

Quem concordar, pode subscrever este manifesto em http://www.manifestoparaummundomelhor.com/

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Desatar o pensamento

Imagem de Claudia Rogge
Na encruzilhada em que nos encontramos, precisamos urgentemente de parar para reflectir. Ninguém tem liberdade de pensamento quando o seu pensamento se encontra bloqueado por convicções baseadas em preconceitos ou quando toda a informação que lhe chega é filtrada e distorcida. E sem liberdade de pensamento, não há liberdade de escolha. Ninguém é dono da verdade, apenas se pode  tentar caminhar em direcção a ela. Para isso, precisamos de ver sem ser através do nevoeiro e da imensidão de filtros e caleidoscópios que nos impingem e que nos tolhem a liberdade de pensamento e de escolha. Não é fácil, eu sei, tanto mais que o nevoeiro vem de todos os lados.

Proponho que vejam uma animação da fábula popularizada por Tommy Douglas, Mouseland (do blogue "Alice in my head"), que  revejam o discurso de Chaplin no filme "O Grande Ditador", (do blogue "O Único Planeta que temos"), e que reflictam no contrato que subscrevemos tantos dos nossos dias, porque não tivemos outra escolha, para que lhe possamos dizer NÃO.

Há muitas maneiras de interpretar a realidade, mas se não estivermos atentos, nem sequer  a chegamos a vislumbrar. Para além da realidade, porém, podemos optar por tentar construir um optimismo que nos ajude a seguir em frente, pelo caminho que escolhemos.

terça-feira, 1 de março de 2011

A história dos cidadãos unidos versus corporações

Porque a democracia só funciona quando os cidadãos participam? Porque é que o povo perdeu o controle da democracia? Porque as mega corporações económicas e financeiras - sim, as grandes sociedades anónimas, aquelas que não têm rosto nem culpa -  mandam no mundo e nos políticos? 

Veja e ouça as explicações de Annie Leonard no mais recente vídeo de "The Story of Stuff", lançado hoje, ou leia o artigo no The Huffington Post. A história é contada para os americanos, onde os "lobbies" das corporações são "legais". Nos Estados Unidos, as grandes sociedades anónimas gastam centenas de milhões de dólares em propaganda eleitoral para influenciar os cidadãos a votar nos candidatos que os protegem. Nos Estados Unidos, podem gastar o que quiserem, porque o Supremo Tribunal assim o decidiu. Annie Leonard apela aos cidadãos para exigirem a mudança da constituição, que deve diferenciar pessoas reais de empresas.  Mais que óbvio - porque as pessoas são movidas por uma multiplicidade de interesses, necessidades e expectativas. E essas empresas, só as move uma coisa: maximizar o lucro!

Por cá, a história não é muito diferente: os "lobbies" não são permitidos, mas são como as bruxas: lá que existem, existem! E o pior, é que as grandes empresas anónimas são multinacionais, não actuam só nos Estados Unidos! E muitas delas actuam das maneiras mais sórdidas!



Com legendas em espanhol aqui