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domingo, 28 de agosto de 2011

Civilização disfuncional

No capítulo do livro do qual extraí o texto que se segue, de 1992, o autor compara a civilização humana a uma família disfuncional, com a convivência entre os elementos agressores e as vitimas que sofrem, e a tendência predadora de expansão das civilizações disfuncionais.
No fundo, uma civilização doente que se recusa a enxergar as causas óbvias da sua doença e continua a procurar avidamente anestesiar-se com, precisamente, aquilo que a adoece.

"Há no coração de todas as sociedades humanas uma teia de histórias que tentam responder às nossas questões mais básicas: quem somos e porque estamos aqui? Mas à medida que o padrão destrutivo da nossa relação com a natureza se torna cada vez mais claro, começamos a interrogarmo-nos se as velhas histórias ainda fazem sentido, e, por vezes, chegámos mesmo a inventar histórias completamente novas sobre o significado e o objectivo da civilização humana.
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No mundo moderno, a divisão entre espírito e corpo, homem e natureza, criou um novo vício: penso que a nossa civilização está, de facto, viciada no consumo da própria Terra.
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Do mesmo modo que as crianças não podem rejeitar os pais, cada nova geração da nossa civilização sente-se hoje totalmente dependente da própria civilização. Os alimentos nas prateleiras dos supermercados, a água das torneiras das nossas casas, o abrigo e o sustento, o vestuário e o trabalho compensador , os divertimentos, até a nossa identidade - tudo isto é fornecido pela civilização e nem sequer nos atrevemos a pensar em nos separarmos de tal abundância.
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O ataque sem precedentes sobre o mundo natural feito pela civilização global é também extremamente complexo e muitas das suas causas estão especificamente relacionadas com os contextos geográficos e históricos dos muitos pontos de ataque. Mas em termos psicológicos, a nossa rápida e agressiva expansão sobre o que ainda resta da vida selvagem da terra representa um esforço para roubar fora da civilização aquilo que não encontramos dentro dela. O nosso impulso insaciável para procurar bem no fundo da superfície da Terra, retirar todo o carvão, petróleo e outros combustíveis fósseis que possamos encontrar e queimá-los em seguida tão rapidamente como os encontramos - enchendo assim a atmosfera de de dióxido de carbono e outros poluentes - é uma expansão internacional da civilização disfuncional para zonas vulneráveis do mundo natural. E a destruição da maior parte das florestas tropicais e das florestas antigas por parte da civilização industrial é um exemplo especialmente assustador da expansão agressiva para além de fronteiras admissíveis, um impulso insaciável de encontrar soluções exteriores para problemas que têm origem num padrão disfuncional intrínseco.

Ironicamente, a Etiópia, a primeira vítima da expansão totalitária moderna, também já foi vítima do padrão disfuncional que nos conduziu ao ataque ao mundo natural. No fim da Segunda Guerra Mundial, depois de os fascistas italianos terem sido expulsos, 40% do solo da Etiópia estava coberto e protegido por árvores. Menos de meio século mais tarde, depois de décadas marcadas pela expansão populacional mais rápida do mundo, por uma procura de lenha, pelo abuso das pastagens e pela exportação de madeiras para pagar juros e dívidas, menos de 1% da Etiópia está coberto de árvores. Primeiro, a maior parte do solo arável foi arrastada pelas águas; depois, vieram as secas - e lá ficaram. Os milhões que morreram à fome são, em sentido real, vítimas das tendências expansionistas da nossa civilização disfuncional.

Ao estudar as hipóteses de deter esta expansão destrutiva, ficamos quase aterrorizados pelo impulso implacável e aparentemente compulsivo de dominar todas as partes da Terra. As necessidades não satisfeitas da civilização alimentam o motor da agressão; estas necessidades nunca podem ser verdadeiramente satisfeitas. A área invadida é totalmente devastada, a sua produtividade natural esgotada, os seus recursos saqueados e rapidamente consumidos e toda esta destruição limita-se apenas a abrir o nosso apetite por mais.

Os membros mais fracos e mais impotentes da família disfuncional transformam-se nas vítimas de maus-tratos às mãos dos que são responsáveis por fornecer cuidados. De modo semelhante, abusamos sistematicamente das áreas mais vulneráveis e menos defendidas do mundo natural: as áreas húmidas, as florestas tropicais, os oceanos. Também maltratamos outros membros da família humana, especialmente aqueles que não se podem defender. Toleramos o roubo de terras aos povos indígenas, a exploração de áreas habitadas pelas populações mais pobres e - pior do que tudo - a violação dos direitos dos que virão depois de nós. À medida que esgotamos a terra a um ritmo completamente insustentável, fazemos com que seja impossível que os filhos dos nossos filhos tenham um nível de vida que se compare, mesmo remotamente, ao nosso.
Em termos filosóficos, o futuro é, afinal de contas, um presente vulnerável e em desenvolvimento e o desenvolvimento insustentável é, portanto, aquilo a que se pode chamar uma forma de «maltratar o futuro».
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Mas há uma saída. Não é necessário que um padrão de disfuncionalidade persista indefinidamente e a chave da mudança é a crua luz da verdade
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E, como Alice Miller e outros peritos mostraram, o acto de chorar a perda original enquanto se sente, total e conscientemente, a dor que se causou pode curar a ferida e libertar a vítima de mais escravização. Igualmente, se a crise do ecossistema global tem origem no padrão disfuncional do relacionamento da nossa civilização com o mundo natural, enfrentar e compreender esse padrão na sua totalidade e reconhecer o seu impacto destrutivo no ambiente e em nós, é o primeiro passo para chorar aquilo que perdemos, curar os males que fizemos à Terra e à nossa civilização e aceitar a nova história do que significa ser o guardião da Terra."

Extraído do capítulo "A Civilização Disfuncional" do livro "A Terra à procura de Equilíbrio, ecologia e espírito humano" , Al Gore, 1992 ("Earth in Balance"), Editorial Presença, 1993, tradução de Isabel Nunes

(Nota: os negrito são meus, os links  são sugestões minhas; as imagens foram obtidas na Internet)

domingo, 30 de janeiro de 2011

O desafio da sustentabilidade - por Valdemar Rodrigues

Mais um extracto do livro "Desenvolvimento Sustentável - uma introdução crítica"  em complemento da mensagem anterior, e com o qual partilho a visão integrada da sustentabilidade. Com os sinceros agradecimentos ao Professor Valdemar Rodrigues por ter permitido publicar textos seus neste blogue, que tanto o enriqueceram. 

"
Imagem que veio do blogue Ita Tapajônica
"Nos dias que correm é no mínimo imprudente pensar-se o desenvolvimento humano à margem dos limites que a natureza sugestivamente lhe impõe. Sugestivamente porque nem sempre esses limites são nítidos, e a sociedade no seu todo, e particularmente a ciência, têm ainda grandes dificuldades em identificar as relações de causalidade envolvidas. Daí a urgência de procurar formas de tornar mais transparente a relação que existe entre qualidade do ambiente e bem-estar humano, entre pobreza e poluição, entre equidade na distribuição de recursos e igualdade de oportunidades para todos. O ideal da sustentabilidade exprime bem através dos seus princípios o alcance imenso deste desafio. Um desafio que é como se tentou demonstrar inseparável dos ideais de democracia e justiça, e que é portanto um desafio de toda a sociedade de homens livres. Um desafio para o qual existem múltiplas soluções interessantes e válidas.
Falar de sustentabilidade enquanto patamar superior de aperfeiçoamento das sociedades humanas implica também falar de justiça e de democracia.
(...)
A ideia de devolver à responsabilidade dos homens a nobre tarefa de caminhar rumo à sustentabilidade significa  o mesmo que, em democracia, a tarefa de procurar realizar a justiça. É urgente libertar o potencial criativo da sustentabilidade desse tentador totalitarismo técnico e científico, herdeiro do velho iluminismo, que o enleia e assimila.
A solução para a protecção do ambiente é algo que atravessa os tempos e as culturas humanas, e essa é com certeza outra das conclusões deste ensaio. O alcançar da sustentabilidade pode ser hoje mais um problema de visão do que de tecnologia. Mais de justiça e de ética do que de eficiência económica e de gestão ambiental. Para isso é preciso que as escolas incluam o homem no ambiente, e o estudem e respeitem enquanto homem nas suas liberdades e diferenças.
(...)
A natureza não um mero conjunto de de objectos e espaços físicos com história; meras narrativas sem narradores. O frenesi modernizante trouxe consigo a desumanização desses objectos e espaços, e uns quantos passaram a ter estatuto legal de peças de colecção, internacionalmente reconhecidas e catalogadas pela UNESCO, peças que que se tornaram dessa foram exteriores ao homem. O homem moderno, transfigurado em consumidor-espectador das coisas da natureza (e da cultura), convertido em turista globalizado no muito fátuo mundo em movimento que Zygmunt Bauman surpreende, um mundo que insiste em olhar de maneira exótica certas culturas desocidentalizadas e que confunde virtuosismo com riqueza material, justiça com legalidade, beleza com bondade, nomadismo com vagabundagem. Não são seguramente esses nem o homem nem o mundo que mais convém à sustentabilidade."

Valdemar J. Rodrigues, em "Desenvolvimento Sustentável - uma introdução crítica", Conclusões, Editora Principia, 2009. Itálico do autor. Negrito meu.

Abordagem à sustentabilidade - por Valdemar Rodrigues

O seguinte texto foi extraído do livro abaixo referido, do Professor Valdemar Rodrigues, e do qual já várias  vezes  falei neste blogue, pela sua excelente clareza de abordagem: 

"À semelhança do que se verificou na maioria dos países da União Europeia e um pouco por todo o mundo desenvolvido, o apelo da sustentabilidade em Portugal ficou marcado pela deriva da modernização ecológica e pelo discurso tecnoburocrático em torno das questões de ambiente stricto sensu e da gestão eficiente dos recursos naturais. A face mais visível dessa deriva foi o nascimento de uma nova burocracia - a burocracia ambiental - baseada em instituições novas ou renovadas da administração pública e apoiada por um elaborado regime de enquadramento legal das diversas políticas, programas e projectos tendo em vista o desenvolvimento, regime este em grande medida delineado pela mão de técnicos e especialistas. Paralelamente à evolução desta burocracia desenvolveram-se e consolidaram-se novas áreas de negócio num sector emergente - o «sector do ambiente» - e cresceram e multiplicaram-se pelo país os grupos e associações cívicas com interesses específicos na área do ambiente, do ordenamento do território e da conservação da natureza.

Em síntese, a abordagem à sustentabilidade fez-se sobretudo por via de questões estritamente ambientais, em detrimento das questões relativas à equidade, à autonomia ou aos aspectos sociais do desenvolvimento. Seria pois legítimo esperar-se que, dada a concentração do esforço de investimento público no  «sector do ambiente», fossem visíveis, pelo menos a esse nível progressos substanciais. (...)  Contudo, os progressos registados em tais domínios são sofríveis, sendo até nalgumas áreas manifesto o agravamento das condições necessárias para a denominada «sustentabilidade ambiental». (...)

Valdemar J. Rodrigues, em "Desenvolvimento Sustentável - uma introdução crítica", Conclusões, Editora Principia, 2009. Imagem do mesmo livro. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Tamera - um modelo de futuro, de Portugal para o Mundo

"Que aspecto poderia ter um mundo onde todos os seres humanos tivessem comida suficiente, onde os rios de águas claras pudessem serpentear livremente, onde as crianças pudessem novamente confiar nos adultos e onde os conflitos pudessem ser resolvidos com inteligência e compaixão, em vez de conduzir à violência?
Como parece ser o futuro da humanidade? Podemos imaginar um mundo no qual os seres humanos vivam em paz entre si e com a natureza? Será realmente possível uma vida diferente?
O actual desenvolvimento global não é animador. Para ser capaz de imaginar um futuro diferente e um futuro positivo, precisamos de locais, a princípio em pequena escala, onde os possamos realmente  criar. Este é o significado mais simples dos modelos.
Tamera desenvolve tal modelo para o futuro."

Este texto foi transcrito do livro de Leila Dregger, "Tamera - Um Modelo Para o Futuro", cuja versão portuguesa foi editada em Setembro de 2010,

Tamera, também conhecida pela Aldeia Solar, é um projecto que se desenvolve no Alentejo (Monte do Cerro), com investigação e prática, de um modelo de comunidade sustentável, de paz, e independente das energias fósseis. Os primeiros 11 minutos do programa Falar Global da SIC Notícias, do passado dia 27 de Novembro (abaixo incorporado), explicam melhor o que se passa nesta aldeia. Tamera é um local onde vivem cerca de 160 pessoas (o objectivo é 500), entre voluntários, investigadores  e estudantes, que caminha no sentido da independência da energia da rede, onde se investiga energia solar, onde se pratica pemacultura, onde se formam jovens, onde mulheres em idade de reforma são extremamente úteis à comunidade.
A fundação de Tamera data de 1995, mas a ideia nasceu na Alemanha em 1978, quando se cruzaram Dieter Duhm, sociólogo, Sabine Lichtenfels, teóloga, e Charly Rainer Ehrenpreis, engenheiro e físico. Escolheram Portugal e o Alentejo para arrancar com o protótipo, pela luz solar, pela situação geográfica e climática, pela receptividade e hospitalidade do povo, pela cooperação das autoridades, e pela tradição em tolerância e em trabalho em comunidade.

"Se a nossa Terra fosse pacificamente cultivada, ela produziria alimentos suficientes para 12 mil milhões de pessoas. A realidade, porém, é que diariamente 100.000 pessoas morrem como resultado da fome ou má nutrição”."  Jean Ziegler

Que a experiência de Tamera prove que é possível viver sustentavelmente, e que o modelo seja replicado pelo mundo fora. Força, Tamera!

sábado, 18 de dezembro de 2010

"A sociedade de consumo não é sustentável"

André Trigueiro é um jornalista brasileiro com pós-graduação em Gestão Ambiental, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, e autor  de livros dedicados à sustentabilidade. Actualmente é também editor-chefe do programa semanal Cidades e Soluções, exibido na Globo News desde Outubro de 2006.

Os seguintes parágrafos são extraídos da entrevista que deu para a Greenvana Style


«Nenhum desenvolvimento é possível se não for sustentável
(...)
GS – Qual é a importância de adotarmos novas atitudes de consumo mais conscientes?
AT – Sobrevivência. Estamos falando de um mundo onde os recursos naturais não renováveis estão sendo depredados, onde a população cresce a uma taxa de 200 mil novos habitantes por dia, onde as pessoas que se declaram consumistas não percebem o equívoco que é acumular bens, achando que a felicidade se resume em possuir. Cada bem que você adquire, é um pedacinho da natureza que você leva para sua casa.
E o planeta é um só, os recursos são finitos. Quem coleciona bens, coleciona meio ambiente dentro de casa. E isso é grave porque quando se acumula há a geração de escassez. É um mundo onde todos nós estamos instigados a achar que, para sermos bem sucedidos, precisamos ter o estilo de vida americano. A sociedade de consumo não é sustentável. Ela não gera prosperidade para todos. Ela gera opulência para poucos, pobreza e exclusão para muitos e o esgotamento da Terra, o esgotamento dos recursos naturais não renováveis.

GS – É possível haver uma harmonia entre economia e ecologia?
AT – Não é possível haver harmonia de uma forma geral e ampla sem o empreendimento da economia com a ecologia. Nenhum desenvolvimento é possível se não for sustentável. Não é possível imaginar um modelo de desenvolvimento que não tenha na sustentabilidade o seu eixo principal. (...)
Porque não é possível imaginar uma agricultura forte sem o meio ambiente saudável. E o meio ambiente saudável propicia as melhores condições de produtividade no campo. Então, é falsa a tese de que o desenvolvimento atrapalha o meio ambiente e que o meio ambiente atrapalha o desenvolvimento. Essa discussão está superada. Não tem como gerar economia, ou seja, geração de emprego e renda e produção de riqueza, sem se preocupar com sustentabilidade. 
(...)»

domingo, 24 de janeiro de 2010

Desenvolvimento Sustentável - estamos tão longe...

Na edição especial da revista "National Geographic" intitulada "O Estado do Planeta", de 2008, e que este fim de semana estava à venda em conjunto com mais duas revistas ("Alterações Climáticas" e "Mares e Oceanos"), esbarrei na primeira fase do primeiro tema "A Condição Humana", e que é a seguinte:

"A fortuna das 2 pessoas mais ricas do mundo é maior que a soma do PIB dos 45 países mais pobres"

Eu já tinha uma noção das disparidades e desequilíbrios económicos deste mundo, mas isto, dito assim com estes números chocantes, confesso que me abalou.

Entretanto, descobri hoje um livro, que ainda não li, mas que folheei e me pareceu muito interessante. Chama-se "Desenvolvimento Sustentável, Uma Introdução Crítica", de Valdemar Rodrigues. Fica aqui abaixo parte do texto da contracapa:

"O desenvolvimento sustentável não pode, nem deve, continuar a confundir-se com o discurso pragmático e superficial da modernização ecológica, para bem da protecção do ambiente e em benefício da possibilidade de uma vida digna para as gerações vindouras.
A sustentabilidade apresenta um extraordinário potencial mobilizador das vontades humanas - o qual tem sido frequentemente obliterado e incompreendido - no sentido de uma sociedade mais justa, mais democrática e mais respeitadora da multiplicidade de energias criadoras existentes na Terra; e implica o crescimento em cada indivíduo e em cada geração de um sentido amplo e altruísta do dever de cuidar daquilo que não é seu, embora esteja à disposição de cada pessoa e de cada sociedade humana.
A educação para a sustentabilidade, a boa governação, a boa ciência e a ligação mutuamente produtiva das pessoas com a natureza e com a restante humanidade são exemplos de factores «enzimáticos» da cristalização nas sociedades humanas deste novo quadro de valores."

Não podia estar mais de acordo. Tal como referi num comentário do "post" anterior: «Na minha "versão" de sustentabilidade, a equidade e justiça na distribuição de recursos pelos diferentes povos é tão essencial como o preservar recursos para as gerações futuras: há "gerações presentes" sem qualquer direito a recursos básicos, que outras "gerações presentes" desperdiçam e esbanjam. Isto é absolutamente insustentável. A sustentabilidade passa também pela satisfação das necessidades de todos, e não de alguns. Todos: pessoas, fauna, flora, toda a natureza.»