"Pobre não é o que tem pouco, mas sim o que necessita infinitamente muito e deseja, deseja, mais e mais" - citação de Pepe Mujica, presidente do Uruguai, na Conferência Rio+20, no passado mês de Junho. O seu discurso merece ser ouvido:
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quarta-feira, 22 de agosto de 2012
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Uma flor nasceu na rua!
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| Numa rua de V.N. Famalicão, 25 Maio 2012 |
Um poema de Carlos Drummond de Andrade serviu de mote ao texto de Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente e ex-candidata à presidência do Brasil, publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia29/06/2012, que abaixo se transcreve.
Todas as vozes que aqui trouxe sobre o tema Cimeira Rio+20 apontam em uníssono:
Todas as vozes que aqui trouxe sobre o tema Cimeira Rio+20 apontam em uníssono:
Não há qualquer esperança de mudança para um mundo mais sustentável e justo que se possa depositar nos governos e naqueles que governam os governos e se governam com eles.
Mas a esperança está vós e em nós, simples cidadãos que acordámos e não aceitamos as regras viciadas deste jogo que não escolhemos e que escolhemos não jogar, porque, nas nossas ações individuais e coletivas, escolhemos ser a mudança que queremos ver.
«Falando de Florpor Marina Silva
"Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu."
Após o paralisante "nada a declarar" de líderes mundiais na Rio+20, é preciso muita poesia para manter a persistência que --como diz o apóstolo-- produz a esperança. E então a acidez singela da poesia de Drummond veio em socorro de minha fome poética. O genial poeta itabirano celebra o nascimento de uma flor na fresta do asfalto, superando a indiferença humana e o pesado invólucro da civilização.
Assim me sinto ao lembrar os intensos dias em que organizações civis e milhares de pessoas manifestaram, no Rio, sua indignada exigência de atenção perante os dirigentes de Estado reunidos na conferência da ONU. Gente de todos os continentes, de jovens ativistas de grandes cidades a líderes de pequenas comunidades indígenas, dando demonstrações criativas, como a "Marcha a Ré" que parou o Rio, de que o mundo quer viver.
Infelizmente, a conferência oficial não ouviu isso. E o poema de Drummond me revela sua dimensão profética, que, feitas as contas, pode ser válida até a Rio+40 se predominar a desdita ambiental das necessidades presentes: "Depois de quarenta anos,/e nenhum problema resolvido, sequer colocado./Nenhuma carta escrita nem recebida./Todos os homens voltam pra casa".
Mas o desafio dos que voltam para casa, décadas após décadas de "Rio+" que se somam sem subtrair os problemas, é extrair a "esperança mínima" de que fala o poeta, para não cair no vazio da queixa que paralisa até os jovens, cuja natureza é andar: Andar à frente,/andar ao lado,/de marcha a ré e atravessado,/enveredando pelo futuro,/no chão dos rastros deixados.
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| Foto minha, de telemóvel, Maio 2012 |
Desde a retomada da democracia vemos o florescimento de movimentos sociais antes abafados pelo autoritarismo, com um ideário amplo que antecipava o novo milênio. Essa é a flor que agora irrompe no asfalto. Sua delicadeza denuncia as rachaduras do sistema que já não consegue impedi-la de brotar.
Chegou a hora de a sociedade tomar iniciativas próprias, buscar autonomia e independência. Sem recusar nem desconhecer a política e o Estado, ir além deles e fazer mudanças na vida com a noção ampla de um novo contrato natural --pois inclui os demais seres vivos e ecossistemas--, não só um contrato social. Conseguiremos? Estamos maduros para o que o tempo nos exige?
Aqui se revela a necessidade da utopia, que ultrapassa as ilusões limitantes do pragmatismo e reafirma a força da esperança, sem a qual não há futuro. No fim das contas --Drummond sabia--, é a poesia que faz brotar a flor.»
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terça-feira, 3 de julho de 2012
Cegueira ingénua ou propositada?
«Não corresponde à realidade dizer que a Rio+20 foi um sucesso. Pois não se chegou a nenhuma medida vinculante nem se criaram fundos para a erradicação da pobreza nem mecanismos para o controle do aquecimento global. Não se tomaram decisões para a efetivação do propósito da Conferência que era criar as condições para o “futuro que queremos”. É da lógica dos governos não admitirem fracassos. Mas nem por isso deixam de sê-lo. Dada a degradação geral de todos os serviços ecossistêmicos, não progredir significa regredir.
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| Imagem obtida em Oxfam |
No fundo, afirma-se: se a crise se encontra no crescimento, então a solução se dá com mais crescimento ainda. Isso concretamente significa: mais uso dos bens e serviços da natureza o que acelera sua exaustão e mais pressão sobre os ecossistemas, já nos seus limites. Dados dos próprios organismos da ONU dão conta que de desde a Rio 92 houve uma perda de 12% da biodiversidade, 3 milhões de metros quadrados de florestas foram desmatados, 40% mais gases de efeito estufa foram emitidos e cerca da metade das reservas de pesca mundiais foram exauridas.
O que espanta é que o documento final e o borrador não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por quê chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceptual deste e, em geral, de outros documentos oficiais da ONU.
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| Imagem obtida em Planeta |
(...)
Por considerar tudo pela ótica do econômico que se rege pela competição e não pela cooperação, aboliram a ética e a dimensão espiritual na reflexão sobre o estilo de vida, de produção e de consumo das sociedades. Sem ética e espiritualidade, nos fizemos bárbaros, insensíveis à paixão de milhões de famintos e miseráveis. Por isso impera radical individualismo, cada país buscando o seu bem particular por em cima do bem comum global, o que impede, nas Conferências da ONU, consensos e convergências na diversidade. E assim, hilariantes e alienados, rumamos ao encontro de um abismo, cavado por nossa falta de razão sensível, de sabedoria e de sentido transcendente da existência.
Com estas insuficiências conceptuais, jamais sairemos bem das crises que nos assolam. Este era o clamor da Cúpula dos Povos que apresentava alternativas de esperança. Na pior das hipóteses, a Terra poderá continuar mas sem nós. (...)»
Leia o artigo completo de Leonardo Boff na fonte: leonardoBOFF.com
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domingo, 24 de junho de 2012
Rio+20 - Nos interstícios da malha
Para finalizar as mensagens sobre a Rio+20 por aqui, algumas imagens e um extrato do artigo de opinião de Luísa Schmidt no jornal Expresso deste fim de semana, intitulado "As Malhas do Mundo":
«Algo de frustrante perpassa nesta cimeira. Com o mundo aflito na crise e a Europa a jogar à bola, este Rio por pouco desagua em seco.
...
A medir pela atenção que lhe foi dada pelos grandes governos do mundo, este Rio+20 seria quase um Rio menos 40" não fosse a exuberante criatividade das suas 'outras' cimeiras. É que tal como há 20 anos, esta cimeira são duas. Uma, a cimeira dos chefes de Estado com as suas presenças e sobretudo com as suas marcantes ausências (Obama, Merkel, Cameron). Um circo que move uma colossal máquina de segurança e de burocracia jurídica e diplomática à sua volta. Mas há outra que move mais gente: a cimeira da cúpula dos povos. Aquela onde está o mundo a querer existir e a não aceitar que o impeçam , agora que a informação, o conhecimento e as redes permitem construir sociedade, quer os poderes queiram, quer não. E é por aqui que o futuro parece espreitar, por onde melhor se fabrica sustentabilidade, e por onde se recupera a humanidade.
A medir pela atenção que lhe foi dada pelos grandes governos do mundo, este Rio+20 seria quase um Rio menos 40" não fosse a exuberante criatividade das suas 'outras' cimeiras. É que tal como há 20 anos, esta cimeira são duas. Uma, a cimeira dos chefes de Estado com as suas presenças e sobretudo com as suas marcantes ausências (Obama, Merkel, Cameron). Um circo que move uma colossal máquina de segurança e de burocracia jurídica e diplomática à sua volta. Mas há outra que move mais gente: a cimeira da cúpula dos povos. Aquela onde está o mundo a querer existir e a não aceitar que o impeçam , agora que a informação, o conhecimento e as redes permitem construir sociedade, quer os poderes queiram, quer não. E é por aqui que o futuro parece espreitar, por onde melhor se fabrica sustentabilidade, e por onde se recupera a humanidade.
...
Desta cimeira leva-se, assim, um sentimento duplo: por um lado um pessimismo lúcido, porque os governantes mais uma vez transformaram uma oportunidade num oportunismo e adiaram as urgências para um tempo que já não temos.
...
Por outro lado, também se leva daqui um otimismo igualmente lúcido, quando se percebe que o mundo anda a construir-se nos interstícios e, à medida que isso acontece, esses interstícios revelam afinal que afinal há mais mundos dentro do Mundo numa grande rede que vai construindo o seu próprio caminho, que não é 'alternativo' nem apenas reativo, mas real e concretizável. É sobretudo aí que está tudo a ser feito: as ideias novas, a criatividade, a esperança, os projetos inovadores, a solidariedade e sobretudo a inteligência e a alegria. ...»
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| Imagem obtida em Portal Aprendiz |
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| Imagem obtida em Combate ao Racismo Ambiental |
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| Imagem obtida em Cúpula dos povos |
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| Imagem obtida em Terra |
«Ares Kagele, de Malauí, África Oriental, durante a Marcha Global da Cúpula dos Povos da Rio+20, em 20 de junho de 2012. Tradução: "Estou aqui para mostrar aos Estados que nós somos os donos da terra, das sementes e da vida. Queremos que eles entendam que não é para destruir nossa terra. Estamos aqui para demandar que eles discutam o que podem fazer para proteger nossa terra e para proteger nossa vida".» Fonte: Canal de PortalAprendiz no Youtube
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sábado, 23 de junho de 2012
Rio+20 - Opinião de Boaventura Souza Santos
Na sequência de uma série de depoimentos sobre a Cimeira Rio+20 que foram sendo publicados aqui ao longo deste mês, faltava a voz do sociólogo Boaventura Souza Santos:
"Estamos hoje discutindo transformar bens da Natureza, como a água, a biodiversidade e os oceanos, em bens de mercado, quando eles deveriam ser considerados bens comuns. As discussões na Rio+20 estão fora de foco e não só por causa da economia verde, mas também por causa da redução da pobreza. O problema hoje no mundo não é discutir a redução da pobreza, mas sim a redução das desigualdades."
Leia a entrevista completa n'O Globo.
Leia a entrevista completa n'O Globo.
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sexta-feira, 22 de junho de 2012
Rio+20 - balanço em imagens
Terminou a Cimeira Rio+20. Como uma imagem vale mais que mil palavras, penso que as seguintes caricaturas do cartoonista brasileiro Lute resumem muito bem o que se passou:
Fontes: Blog do Lute e Facebook do Lute
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quinta-feira, 21 de junho de 2012
"A vida não é um documento" - Vandana Shiva
«A senhora fica desanimada quando vê que questões como agricultura familiar e erradicação da pobreza extrema provavelmente ficarão de fora do documento final da Rio+20?
Vim sem grande expectativa com relação à conferência formal. Não é por que o documento não vai falar dessas causas que a luta das pessoas vai diminuir. Não vim atrás de um texto, e sim atrás da solidariedade. A vida não é um documento, é a preservação dos nossos rios e sementes; verde não é a cor do dinheiro, é a cor da vida. Confio muito mais na força das pessoas do que nas negociações, que são influenciadas pelas grandes corporações. Existe uma grande reunião de quem está preocupado com a paz e a justiça, o que nos permite pensar estratégias juntos. Em 92, podíamos entrar nos corredores e interferir, por isso chegamos a compromissos sobre o clima. Retrocedemos. Assim como as corporações estão comprando nossos governos, estão comprando a ONU. A Rio+20 será lembrada como a última tentativa das grandes corporações de desfazer as obrigações legais estabelecidas na Eco 92.
O que o cidadão comum pode fazer?
Todo mundo tem que declarar que o patenteamento das sementes é ilegal e imoral. A Monsanto (gigante da agroindústria, produtora líder de sementes geneticamente modificadas) não inventou as sementes, e patentes são dadas a invenções. Como governos deixam que eles cobrem royalties de fazendeiros, levando-os ao suicídio? O meu chamado às pessoas em todo o mundo é para o dia 2 de outubro, aniversário de Gandhi: Diga não ao patenteamento. Comecem a guardar sementes. Não importa se você não é um fazendeiro, faça em casa, na escola.
A senhora costuma ser criticada por defender metas consideradas inatingíveis, desconectadas da realidade capitalista. Como responde a isso?
É porque estou conectada com a realidade que ajo assim. Se não fosse, investiria em Wall Street enquanto eles quebram, acharia que as sementes foram criadas por uma empresa. Estamos vivendo num mundo em que os poderosos acham que a alucinação deles é a realidade. Para mim, a realidade é a da criança que morre de fome.
A senhora critica o crescimento econômico da Índia, por excluir 95% da população, mas crescimento econômico é o que todos os países perseguem. O que está errado?
Crescimento econômico é um indicador de quanto a natureza foi destruída. Nós temos que priorizar o bem-estar, e não o crescimento. Existe um ditado antigo que diz que quem tem o ouro escreve as regras, e quem escreve as regras recebe mais ouro. Meu país, em 1992, não tinha um problema grave de fome. Hoje, uma a cada duas crianças procura comida no lixo. Por quê? Porque comida se transformou numa commodity. A sociedade era muito mais igualitária antes do crescimento econômico, que só serviu para criar dez bilionários. Dizem que existe uma classe média em países como Índia e Brasil, mas para mim existe uma elite e uma grande parcela da população que acaba despossuída de seus recursos naturais. »
Fonte do texto e da imagem: http://blogs.estadao.com.br/rio-20/a-vida-nao-e-um-documento-diz-ativista-indiana/
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quarta-feira, 20 de junho de 2012
A voz da juventude na Rio+20
Há 20 anos, a canadense Severn Suzuki, então com 12 anos, ficou conhecida como "A menina que calou a ONU" na Conferência da Terra, a Cimeira Rio 92, com o seu discurso emotivo e profundo.
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| Imagem obtida na exame.abril |
Hoje em dia, nós sabemos e ela sabe que não foi realmente ouvida, pois globalmente estamos bem pior. Pessoalmente, não acredito que a Rio+20 faça a diferença, porque os lideres mundiais continuam surdos à realidade das pessoas e da Terra e apenas têm ouvidos para as vozes $onante$ das grandes empresas multinacionais.
Mas a juventude continua a apelar aos líderes mundiais para mudarem de rumo. E ainda bem! Haja esperança!
Hoje foi a vez de Brittany Trilford (na foto), uma neozelandesa de 17 anos, discursar na cimeira, num discurso de 10 minutos que finalizou assim: "vocês têm 72 horas para decidir o destino de nossas crianças, dos meus filhos, dos filhos dos meus filhos. O cronômetro está contando, tic, tac, tic, tac". A seguir, fica um vídeo com o seu apelo através da internet.
E abaixo, um novo alerta de Severn Suzuki, desta vez referindo-se especificamente ao Canadá (o que não consta das legendas), país que tem tido retrocessos inacreditáveis nas políticas ambientais e cujo governo nitidamente a envergonha.
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terça-feira, 19 de junho de 2012
Rio+20 - O preço da natureza ou o preço da economia verde
Com o tema "Economia verde", uma das questões centrais da Cimeira Rio+20, que começa amanhã no Rio de Janeiro, é a colocação de um preço nos recursos, bens e serviços ambientais, assim como já estão a fazer com as taxas de carbono. Esta ideia pode até ter tido origem e defensores bem intencionados para proteger os recursos naturais, mas o perigo que ela representa numa civilização dominada pelo capitalismo predatório é assustador. Não, não apoio, não acredito neste caminho do qual apenas adivinho que leve à aceleração das injustiças sociais e da predação dos recursos naturais. Chegaremos ao ponto de pagar uma taxa pelo oxigénio que respiramos a corporações que compraram a Amazónia? Sobre esta questão, aconselho a leitura da Carta de Evo Morales, presidente da Bolívia, aos povos indígenas do mundo, publicada em Outubro de 2010, antes da Cimeira de Cancun.
A seguir, a tradução do texto de Esther Vivas publicado no Público.es anteontem e no blogue da autora ontem:
«Quando a economia e o capitalismo se pintam de verde
O verde vende. Desde a revolução verde , passando pela tecnologia verde, o crescimento verde até chegar aos "brotos verdes" que tinham de arrancar da crise. A última novidade: a economia verde. Uma economia que, ao contrário do que o próprio nome indica, não tem nada de "verde" para além dos dólares que esperam ganhar com ela aqueles que a promovem.
E a nova ofensiva do capitalismo global por privatizar e comercializar maciçamente os bens comuns, tem na economia verde o seu expoente máximo. Justamente num contexto de crise económica como a atual, uma das estratégias do capital para recuperar a taxa de lucro consiste em privatizar ecossistemas e converter “a vida” em mercadoria.
A economia verde será precisamente tema central da agenda da próxima Cimeira das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio +20, a ser realizada de 20 a 22 de Junho no Rio de Janeiro, vinte anos depois da Cimeira da Terra da ONU que em 1992 teve lugar na mesma cidade. E duas décadas depois, onde estamos? Onde ficaram conceitos como "desenvolvimento sustentável" cunhados na dita cimeira? Ou a ratificação da Convenção sobre Mudanças do Climáticas, que estabeleceu as bases do Protocolo de Quioto? Ou a Convenção sobre Diversidade Biológica, que foi então lançada? No papel, nem mais nem menos. Hoje estamos muito pior do que antes.
Durante estes anos, não só não se conseguiu travar as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, parar a desflorestação ... senão, pelo contrário, esses processos se agudizaram e intensificado. Assistimos, pois, a uma crise ecológica sem precedentes que ameaça o futuro da espécie e da vida no planeta, e tem um papel central na crise de civilização que enfrentamos.
Uma crise ambiental que demonstra a incapacidade do capitalismo para nos tirar da "beco sem saída" a que a lógica do crescimento ilimitado, o benefício a curto prazo, o consumismo compulsivo ... nos conduziu. E esta incapacidade de dar uma "saída" real, vimo-la claramente após as falhadas cimeiras do clima em Copenhague (2009), Cancun (2010), Durban (2011) ou na cimeira sobre a biodiversidade em Nagoya (Japão 2010), etc., onde acabaram por se colocar os interesses políticos e econômicos à frente das necessidades coletivas dos povos e do futuro do planeta.
Nestas cimeiras surgiram falsas soluções para as mudanças climáticas, soluções tecnológicas, desde a energia nuclear, passando pelos biocombustíveis até à captura e armazenamento de CO2 no subsolo, entre outras. Medidas que tentam esconder as causas estruturais que conduziram à atual crise ecológica, pretendendo de fazer negócios com ela, e que mais não farão que agravá-la.
Os laços estreitos entre aqueles que detêm o poder político e o poder económico explicam esta falta de vontade para dar uma resposta eficaz. As políticas não são neutras. Um solução real implicaria uma mudança radical no atual modelo de produção, distribuição e consumo, enfrentar a lógica produtivista do capital. Tocar no núcleo duro do sistema capitalista. E aqueles que detêm o poder político e económico não estão dispostos a isso, a acabar com a sua "galinha dos ovos de ouro."
Agora, vinte anos depois, querem-nos "vender a moto" da economia verde como a solução para a crise económica e ecológica. Outra grande mentira. A economia verde procurar apenas fazer negócios com a natureza e com a vida. Esta é a neocolonização dos recursos naturais, aqueles que ainda não foram privatizadas, e pretende transformá-los em mercadorias para compra e venda.
Os seus promotores são precisamente aqueles que levaram à situação de crise em que estamos: grandes empresas multinacionais, com o apoio ativo dos governos e instituições internacionais. As empresas que monopolizam o mercado de energia (Exxon, BP, Chevron, Shell, Total), da agroindustria (Unilever, Cargill, DuPont, Monsanto, Procter & Gamble), das farmacêuticos (Roche, Merck), da química (Dow , DuPont, BASF) são os principais impulsionadores da economia verde.
Assistimos a um novo ataque aos bens comuns, donde quem saímos a perder somos os 99% e o nosso planeta. E especialmente as comunidades indígenas e camponesas do Sul global, cuidadoras desses ecossistemas, que serão expropriadas e expulsas dos seus territórios para o benefício das empresas multinacionais que procuram negociar esses ecossistemas.
Com a cimeira Rio +20 pretende-se criar o que poderíamos chamar de "uma nova governança ambiental internacional" para consolide a mercantilização da natureza e que permita um maior controle oligopolista dos recursos naturais. Em suma, abrindo caminho para que as corporações internacionais se apropriem dos recursos naturais, legitimando práticas de roubo e usurpação. A resposta está em nossas mãos, dizer "não" e expor o capitalismo como uma economia que se tinge de verde.»
Fontes: Esther Vivas | Público, 17/06/2012
A seguir, a tradução do texto de Esther Vivas publicado no Público.es anteontem e no blogue da autora ontem:
«Quando a economia e o capitalismo se pintam de verde
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| Imagem obtida aqui |
E a nova ofensiva do capitalismo global por privatizar e comercializar maciçamente os bens comuns, tem na economia verde o seu expoente máximo. Justamente num contexto de crise económica como a atual, uma das estratégias do capital para recuperar a taxa de lucro consiste em privatizar ecossistemas e converter “a vida” em mercadoria.
A economia verde será precisamente tema central da agenda da próxima Cimeira das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio +20, a ser realizada de 20 a 22 de Junho no Rio de Janeiro, vinte anos depois da Cimeira da Terra da ONU que em 1992 teve lugar na mesma cidade. E duas décadas depois, onde estamos? Onde ficaram conceitos como "desenvolvimento sustentável" cunhados na dita cimeira? Ou a ratificação da Convenção sobre Mudanças do Climáticas, que estabeleceu as bases do Protocolo de Quioto? Ou a Convenção sobre Diversidade Biológica, que foi então lançada? No papel, nem mais nem menos. Hoje estamos muito pior do que antes.
Durante estes anos, não só não se conseguiu travar as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, parar a desflorestação ... senão, pelo contrário, esses processos se agudizaram e intensificado. Assistimos, pois, a uma crise ecológica sem precedentes que ameaça o futuro da espécie e da vida no planeta, e tem um papel central na crise de civilização que enfrentamos.
Uma crise ambiental que demonstra a incapacidade do capitalismo para nos tirar da "beco sem saída" a que a lógica do crescimento ilimitado, o benefício a curto prazo, o consumismo compulsivo ... nos conduziu. E esta incapacidade de dar uma "saída" real, vimo-la claramente após as falhadas cimeiras do clima em Copenhague (2009), Cancun (2010), Durban (2011) ou na cimeira sobre a biodiversidade em Nagoya (Japão 2010), etc., onde acabaram por se colocar os interesses políticos e econômicos à frente das necessidades coletivas dos povos e do futuro do planeta.
Nestas cimeiras surgiram falsas soluções para as mudanças climáticas, soluções tecnológicas, desde a energia nuclear, passando pelos biocombustíveis até à captura e armazenamento de CO2 no subsolo, entre outras. Medidas que tentam esconder as causas estruturais que conduziram à atual crise ecológica, pretendendo de fazer negócios com ela, e que mais não farão que agravá-la.
Os laços estreitos entre aqueles que detêm o poder político e o poder económico explicam esta falta de vontade para dar uma resposta eficaz. As políticas não são neutras. Um solução real implicaria uma mudança radical no atual modelo de produção, distribuição e consumo, enfrentar a lógica produtivista do capital. Tocar no núcleo duro do sistema capitalista. E aqueles que detêm o poder político e económico não estão dispostos a isso, a acabar com a sua "galinha dos ovos de ouro."
Agora, vinte anos depois, querem-nos "vender a moto" da economia verde como a solução para a crise económica e ecológica. Outra grande mentira. A economia verde procurar apenas fazer negócios com a natureza e com a vida. Esta é a neocolonização dos recursos naturais, aqueles que ainda não foram privatizadas, e pretende transformá-los em mercadorias para compra e venda.
Os seus promotores são precisamente aqueles que levaram à situação de crise em que estamos: grandes empresas multinacionais, com o apoio ativo dos governos e instituições internacionais. As empresas que monopolizam o mercado de energia (Exxon, BP, Chevron, Shell, Total), da agroindustria (Unilever, Cargill, DuPont, Monsanto, Procter & Gamble), das farmacêuticos (Roche, Merck), da química (Dow , DuPont, BASF) são os principais impulsionadores da economia verde.
Assistimos a um novo ataque aos bens comuns, donde quem saímos a perder somos os 99% e o nosso planeta. E especialmente as comunidades indígenas e camponesas do Sul global, cuidadoras desses ecossistemas, que serão expropriadas e expulsas dos seus territórios para o benefício das empresas multinacionais que procuram negociar esses ecossistemas.
Com a cimeira Rio +20 pretende-se criar o que poderíamos chamar de "uma nova governança ambiental internacional" para consolide a mercantilização da natureza e que permita um maior controle oligopolista dos recursos naturais. Em suma, abrindo caminho para que as corporações internacionais se apropriem dos recursos naturais, legitimando práticas de roubo e usurpação. A resposta está em nossas mãos, dizer "não" e expor o capitalismo como uma economia que se tinge de verde.»
Fontes: Esther Vivas | Público, 17/06/2012
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segunda-feira, 11 de junho de 2012
"Economia verde versus Economia solidária " - Leonardo Boff
Leonardo Boff é uma das vozes que vem "gritando" contra o sistema económico e social de hoje, contra o capitalismo predatório de recursos naturais que enfraquece as sociedades humanas, contra a criminosa distribuição de riqueza que o sistema implica, e que tem defendido que só há futuro para a humanidade se mudarmos de era: se passarmos da era antropozoica para a era ecozoica.
«Economia verde versus Economia solidária (04/06/2012)
por Leonardo Boff
O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Através dele e nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A economia verde radicaliza esta tendência, pois como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón “ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas mas também sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bonos negociáveis pelo mercado e pelos bancos. Destarte o texto se revela definitivamente antropocêntrico como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles e não a outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta.
Resumidamente: “O futuro que queremos”, lema central do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto destes, não avançar é retroceder e fechar as portas para o novo.
Há outrossim um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marron ou de verde, ela guarda sempre sua lógica interna que seformula nesta pergunta: quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres. Nesta guerra nãopossuimos nenuma chance de vitória. Ela ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença. Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nosquer dizer (pelos eventos extremos, pelos tsunamis etc), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações mas não nos dita comportamentos. Estes devem se inventados por nós mesmos. Eles somente serão bons caso estiverem em conformidade com seus ritmos e ciclos.
Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada bioregião, destribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida. Ela ganha corpo hoje através da economia biocentrada, solidária, agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e consumidores numa verdadeira democracia alimentar.
A Rio 92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para seu campo e assim distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava nela, eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera.
Isso não é superado pela economia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que produziu o texto teórico do PNUMA Iniciativa da Economia Verde. Com isso, astutamente descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança de olhar sobre o planeta que possa projetar um real futuro para a Humanidade e para a Terra.
Junto com a Rio+20 seria um ganho resgatar também a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial da ONU de 5-15 de julho de1972 em Estocolmo na Suécia sobre o Ambiente Humano, o foco central não era o desenvolvimento mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde.»
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/06/04/economia-verde-verus-economia-solidaria/ (os links e os negritos fui eu que coloquei)
Mas não é com a "economia verde" assente no mesmo sistema de capitalismo predatório e injusto que vamos lá. A poucos dias da Cimeira Rio+20, depois da opinião de Vandana Shiva e da Campanha das Sementes Livres, não podia aqui faltar a crítica de Leonardo Boff sobre o Documento Zero da ONU para a Rio+20 e sobre o futuro que realmente queremos:
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| Imagem obtida em envolverde |
por Leonardo Boff
O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Através dele e nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A economia verde radicaliza esta tendência, pois como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón “ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas mas também sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bonos negociáveis pelo mercado e pelos bancos. Destarte o texto se revela definitivamente antropocêntrico como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles e não a outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta.
Resumidamente: “O futuro que queremos”, lema central do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto destes, não avançar é retroceder e fechar as portas para o novo.
Há outrossim um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marron ou de verde, ela guarda sempre sua lógica interna que seformula nesta pergunta: quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres. Nesta guerra nãopossuimos nenuma chance de vitória. Ela ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença. Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nosquer dizer (pelos eventos extremos, pelos tsunamis etc), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações mas não nos dita comportamentos. Estes devem se inventados por nós mesmos. Eles somente serão bons caso estiverem em conformidade com seus ritmos e ciclos.
Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada bioregião, destribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida. Ela ganha corpo hoje através da economia biocentrada, solidária, agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e consumidores numa verdadeira democracia alimentar.
A Rio 92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para seu campo e assim distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava nela, eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera.
Isso não é superado pela economia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que produziu o texto teórico do PNUMA Iniciativa da Economia Verde. Com isso, astutamente descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança de olhar sobre o planeta que possa projetar um real futuro para a Humanidade e para a Terra.
Junto com a Rio+20 seria um ganho resgatar também a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial da ONU de 5-15 de julho de1972 em Estocolmo na Suécia sobre o Ambiente Humano, o foco central não era o desenvolvimento mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde.»
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/06/04/economia-verde-verus-economia-solidaria/ (os links e os negritos fui eu que coloquei)
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terça-feira, 5 de junho de 2012
Vandana Shiva: “financeirização da economia está na raiz da crise”
Para marcar o Dia Mundial do Ambiente (sim, para marcar, porque há mais a lamentar do que a celebrar), transcrevo o artigo de Ana Paula Salviatti publicado hoje na Carta Maior sobre a entrevista a Vandana Shiva: “financeirização da economia está na raiz da crise” (também publicado hoje no Correio do Brasil).
Vandana Shiva: “financeirização da economia está na raiz da crise”
«Vandana Shiva, que participará da Rio+20 e da Cúpula dos Povos, é a autora do livro ‘The Violence of Green Revolution’ de 1991 (A Violência da Revolução Verde), uma leitura obrigatória para o debate sobre a produção agrícola alterada pela ‘Revolução Verde’; ‘revolução’ que trouxe para o plano agrícola a lógica que impôs o uso de pesticidas e sementes transgênicas, dentre muitas outras modificações, que Vandana explora profundamente em seu livro, infelizmente ainda sem tradução para o português.
Ela é defensora dos direitos humanos e do meio ambiente, os quais infelizmente muitas vezes são defendidos como causas separadas, mas que possuem intrínseca conexão pois os dois são explorados, cada um a sua forma, pela lógica econômica capitalista.
Vandana trabalha por uma economia verde sem dogmas e não foge ao debate sobre questões necessárias para barrar o avanço da situação que se encontram tanto trabalhadores, como natureza. A ativista também levanta a bandeira da situação das mulheres indianas, da segurança alimentar e da preservação dos povos e culturas locais. É fundadora da ONG indiana Navdanya, que, entre outras agendas, estimula a agricultura orgânica local.
Infelizmente seu livro “The Violence of Green Revolution” não foi traduzido para o português até hoje. Você poderia trazer ao nosso leitor uma exposição dá época em que ele foi escrito juntamente de uma análise dos desdobramentos que se deram dos anos 80 prá cá em relação as perdas da agricultura, não só na Índia como nos outros países.
Comecei a fazer a pesquisa sobre a violência da Revolução Verde em 1984, ano da violência no Punjab, onde a Revolução Verde foi implementada pela primeira vez em 1965. A Revolução Verde teve um Prêmio Nobel da Paz, mas em 1984, Punjab era uma terra de guerra. 30.000 pessoas foram mortas pela violência em Punjab, que é um número 6 vezes maior do que os mortos na tragédia do 11/9. O ano de 1984 foi também o ano do desastre de Bhopal, onde uma fábrica de pesticidas, da ‘Union Carbide’ (hoje Dow), vazou e matou 3.000 pessoas. Desde então, 30.000 pessoas morreram.. Hoje a Índia é a capital da fome e dos suicídios de agricultores. Desde 1997, 250.000 agricultores foram presos por dívidas e tiraram suas vidas.
A senhora traçaria um paralelo entre o modo de produção voltado ao abastecimento e especulação do mercado, as reservas naturais e as condições que se encontram a mão de obra trabalhadora no seu país? Outras regiões do mundo trariam condições semelhantes?
O modelo econômico dominante desperdiça recursos e pessoas. Apesar destes resíduos serem chamados de “eficiente” e “produtivo”. Ele substituiu a produção com a especulação do capital financeiro, e do consumismo para as pessoas. Este modelo é: destruir a natureza e a sociedade em si.
Reformas ou Revolução? O que e o porque a senhora acredita ser necessário para impedir o avanço da situação de degradação das condições tanto humanas quanto naturais contemporâneas?
Duas coisas são necessárias para acabar com essa deterioração. Em primeiro lugar, uma mudança de paradigma e visão de mundo. Em segundo lugar, as pessoas levantarem-se coletivamente e dizer “Basta”. Chega.
A senhora terá a oportunidade de participar da Rio+20 e da Cúpula dos Povos. Quais seriam na sua opinião, as limitações e as contribuições que cada uma delas poderão nos trazer?
A Rio+20 será limitada em firmar compromissos em função da influência das grandes corporações. Essas contribuições podem ser significativas, se reconhecerem a necessidade de restabelecer a harmonia com a natureza – objeto de uma sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas no ano passado – e se reconhecerem que a agricultura ecológica é o caminho para a proteção do planeta e da Segurança Alimentar. A Cúpula dos Povos, os Direitos da Mãe Terra, e o compromisso para uma transformação serão vitais.
Não haveria uma lógica comum entre os mecanismos financeiros criados em torno da questão ambiental e ativos financeiros comuns? Esta mesma lógica é capaz de lidar com problemas ambientais, criados muitas vezes por ela própria? O que a senhora poderia falar sobre este assunto?
Há um provérbio africano que diz: “Você não pode colocar um bezerro dentro de uma vaca bezuntando-o com lama”. A financeirização da economia e a consequente redução da economia a um casino, e os recursos do planeta e processos em mercadorias privatizadas, são a a raiz das crises ecológicas e econômicas. Estas crises não podem ser resolvidas por mais financeirização e mercantilização.»
Vandana Shiva: “financeirização da economia está na raiz da crise”
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| Imagem obtida no site de Vandana Shiva |
«Em entrevista à Carta Maior, a ativista indiana Vandana Shiva fala sobre suas expectativas em relação a Rio+20. Ela não acredita que a conferência da ONU consiga firmar compromissos de mudanças mais significativas em função da influência das grandes corporações. Neste cenário, defende, o papel da Cúpula dos Povos adquire maior importância. Para Vandana Shiva, a crise atual não poderá ser resolvida com mais financeirização e mais mercantilização.»
Ana Paula Salviatti«Vandana Shiva, que participará da Rio+20 e da Cúpula dos Povos, é a autora do livro ‘The Violence of Green Revolution’ de 1991 (A Violência da Revolução Verde), uma leitura obrigatória para o debate sobre a produção agrícola alterada pela ‘Revolução Verde’; ‘revolução’ que trouxe para o plano agrícola a lógica que impôs o uso de pesticidas e sementes transgênicas, dentre muitas outras modificações, que Vandana explora profundamente em seu livro, infelizmente ainda sem tradução para o português.
Ela é defensora dos direitos humanos e do meio ambiente, os quais infelizmente muitas vezes são defendidos como causas separadas, mas que possuem intrínseca conexão pois os dois são explorados, cada um a sua forma, pela lógica econômica capitalista.
Vandana trabalha por uma economia verde sem dogmas e não foge ao debate sobre questões necessárias para barrar o avanço da situação que se encontram tanto trabalhadores, como natureza. A ativista também levanta a bandeira da situação das mulheres indianas, da segurança alimentar e da preservação dos povos e culturas locais. É fundadora da ONG indiana Navdanya, que, entre outras agendas, estimula a agricultura orgânica local.
Infelizmente seu livro “The Violence of Green Revolution” não foi traduzido para o português até hoje. Você poderia trazer ao nosso leitor uma exposição dá época em que ele foi escrito juntamente de uma análise dos desdobramentos que se deram dos anos 80 prá cá em relação as perdas da agricultura, não só na Índia como nos outros países.
Comecei a fazer a pesquisa sobre a violência da Revolução Verde em 1984, ano da violência no Punjab, onde a Revolução Verde foi implementada pela primeira vez em 1965. A Revolução Verde teve um Prêmio Nobel da Paz, mas em 1984, Punjab era uma terra de guerra. 30.000 pessoas foram mortas pela violência em Punjab, que é um número 6 vezes maior do que os mortos na tragédia do 11/9. O ano de 1984 foi também o ano do desastre de Bhopal, onde uma fábrica de pesticidas, da ‘Union Carbide’ (hoje Dow), vazou e matou 3.000 pessoas. Desde então, 30.000 pessoas morreram.. Hoje a Índia é a capital da fome e dos suicídios de agricultores. Desde 1997, 250.000 agricultores foram presos por dívidas e tiraram suas vidas.
A senhora traçaria um paralelo entre o modo de produção voltado ao abastecimento e especulação do mercado, as reservas naturais e as condições que se encontram a mão de obra trabalhadora no seu país? Outras regiões do mundo trariam condições semelhantes?
O modelo econômico dominante desperdiça recursos e pessoas. Apesar destes resíduos serem chamados de “eficiente” e “produtivo”. Ele substituiu a produção com a especulação do capital financeiro, e do consumismo para as pessoas. Este modelo é: destruir a natureza e a sociedade em si.
Reformas ou Revolução? O que e o porque a senhora acredita ser necessário para impedir o avanço da situação de degradação das condições tanto humanas quanto naturais contemporâneas?
Duas coisas são necessárias para acabar com essa deterioração. Em primeiro lugar, uma mudança de paradigma e visão de mundo. Em segundo lugar, as pessoas levantarem-se coletivamente e dizer “Basta”. Chega.
A senhora terá a oportunidade de participar da Rio+20 e da Cúpula dos Povos. Quais seriam na sua opinião, as limitações e as contribuições que cada uma delas poderão nos trazer?
A Rio+20 será limitada em firmar compromissos em função da influência das grandes corporações. Essas contribuições podem ser significativas, se reconhecerem a necessidade de restabelecer a harmonia com a natureza – objeto de uma sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas no ano passado – e se reconhecerem que a agricultura ecológica é o caminho para a proteção do planeta e da Segurança Alimentar. A Cúpula dos Povos, os Direitos da Mãe Terra, e o compromisso para uma transformação serão vitais.
Não haveria uma lógica comum entre os mecanismos financeiros criados em torno da questão ambiental e ativos financeiros comuns? Esta mesma lógica é capaz de lidar com problemas ambientais, criados muitas vezes por ela própria? O que a senhora poderia falar sobre este assunto?
Há um provérbio africano que diz: “Você não pode colocar um bezerro dentro de uma vaca bezuntando-o com lama”. A financeirização da economia e a consequente redução da economia a um casino, e os recursos do planeta e processos em mercadorias privatizadas, são a a raiz das crises ecológicas e econômicas. Estas crises não podem ser resolvidas por mais financeirização e mercantilização.»
sábado, 2 de junho de 2012
Rio+20 ou Rio dos 99% - "greenwashing" capitalista não
O texto que se segue foi publicado no site GAIA - Campanha das Sementes Livres e o alerta que transmite, no mês da Cimeira Rio+20, e considero-o de tal modo importante que o transcrevo integralmente.
Fica também aqui a ligação para um vídeo da RTP sobre o evento encontro paralelo da sociedade civil que não quer mais greenwashing capitalista - a Cúpula dos Povos, e mais abaixo, um vídeo de chamada para a mesma. E aqui, uma outra chamada, da OcupaRio.
«Rio+20 e a Economia Verde: À procura do Rio dos 99%
Nos próximos dias 20, 21 e 22 de Junho a Assembleia Geral das Nações Unidas vai realizar uma cimeira no Rio de Janeiro para assinalar o vigésimo aniversário da primeira Cimeira da Terra, a Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), que decorreu na mesma cidade em 1992.
Nesta cimeira foi estabelecida a primeira agenda global para o desenvolvimento sustentável, com a adopção da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCC) e a Convenção de Combate à Desertificação. Foi também estabelecida a Comissão sobre Desenvolvimento Sustentável (CSD) para assegurar o efectivo acompanhamento da UNCED "Cimeira da Terra".
Vinte anos depois, a vida tornou-se mais difícil para a maioria dos habitantes do planeta. O número de pessoas famintas aumentou para quase um bilião, sendo as mulheres e os pequenos agricultores os mais afectados. Enquanto isso, o ambiente está a esgotar-se rapidamente, a biodiversidade está a ser destruída, os recursos hídricos estão a escassear e o clima está em crise. O nosso futuro na Terra está seriamente prejudicado e comprometido, enquanto a pobreza e as desigualdades continuam a aumentar.
A ideia de desenvolvimento sustentável apresentada em 1992, que fundiu as preocupações relacionadas com desenvolvimento e ambiente, não resolveu o problema porque não travou o sistema capitalista na sua corrida pelo lucro à custa dos recursos humanos e naturais. O sistema alimentar está cada vez mais nas mãos de grandes corporações que procuram apenas maximizar o seu lucro.
As Nações Unidas consideram que os últimos vinte anos foram de progresso e mudança, apesar dos contratempos da crise financeira e económica, aliadas à flutuação dos preços nos alimentos e na energia. A insegurança alimentar, as alterações climáticas e a perda da biodiversidade, prejudicaram os possíveis ganhos no desenvolvimento. Segundo a UNEP, o programa ambiental das Nações Unidas, a situação paradoxal em que nos encontramos deve-se principalmente à má alocação de capital. Durante as últimas décadas investiu-se em combustíveis fósseis, propriedade e activos financeiros em detrimento da energia renovável, eficiência energética, transporte público, agricultura sustentável, protecção da biodiversidade e conservação dos recursos hídricos. Mas no seu relatório “Towards a green economy”, a agência coíbe-se de fazer a ligação entre o modelo global de comércio e o agravamento das condições ecológicas e sociais.
A Global Alliance for Rights of Nature, admite que a comunidade internacional tem tentado nas últimas décadas parar e reverter as alterações prejudiciais para o ambiente, particularmente desde a Cimeira da Terra. Durante este período, um volume sem precedentes de tratados e leis ambientais foram aprovados e implementados a nível nacional e internacional. No entanto, estes têm sido quase universalmente ineficazes na prevenção da degradação dos sistemas ecológicos de que os seres humanos e outras espécies dependem. Na realidade muitas tendências negativas continuam a aumentar, apesar dos esforços dos governos e ONGs em todos os países, o desenvolvimento sustentável continua a ser um objectivo distante e permanecem as principais barreiras e falhas sistémicas na implementação dos compromissos acordados internacionalmente.
Actualmente, novas evidências apontam para a gravidade das ameaças que enfrentamos. Para além dos novos desafios, a intensificação dos problemas anteriores exige respostas mais urgentes. As Nações Unidas dizem-se profundamente preocupadas com os cerca de 1,4 biliões de pessoas que ainda vivem na pobreza extrema e o sexto da população mundial subnutrida, à mercê da ameaça das epidemias e pandemias.
Segundo dados da UNEP, a crescente escassez ecológica é uma indicação de que estamos a esgotar os ecossistemas muito rapidamente e irreparavelmente, com consequências para o bem-estar actual e futuro. Um indicador importante do aumento mundial de escassez ecológica foi fornecido pelo Millennium Ecosystem Assessment(MEA), em 2005, que constatou que mais de 60 por cento dos bens e serviços dos principais ecossistemas mundiais foram degradados ou utilizados de forma insustentável.
Uma das razões pelas quais os sistemas legais e de governança contemporâneos fracassaram é porque foram projectados para facilitar e legitimar a exploração insustentável da natureza. A visão da natureza como propriedade tem vindo a fortalecer as relações de exploração entre os seres humanos e a natureza. Em vez disso, os governos devem reconhecer que a pressão humana sobre a capacidade da Terra já está acima dos níveis sustentáveis, afectando principalmente as populações pobres e vulneráveis e pondo em perigo o bem-estar de todas as formas de vida.
A UNEP define a economia verde como aquela que resulta em "melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, que simultaneamente reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica "(UNEP 2011). Na sua expressão mais simples, uma economia verde tem reduzidas emissões de carbono, é eficiente na utilização dos recursos e é socialmente inclusiva.
No entanto, um dos primeiros estudos económicos a investigar esta abordagem capitalista do desenvolvimento sustentável concluiu que, uma vez que as economias actuais estão continuamente a esgotar o capital natural para garantir o seu crescimento, o desenvolvimento sustentável é inatingível (Pearce et al., 1989).
A economia capitalista, baseada na sobre-exploração dos recursos naturais e dos seres humanos, nunca poderá ser "verde" porque se baseia no crescimento ilimitado num planeta que atingiu os seus limites e na mercantilização dos recursos naturais remanescentes que até agora se mantiveram sem valor nos mercados e controlados pelo sector público.
Não basta “pintar” o sistema actual de verde, é necessária uma verdadeira mudança de paradigma. O “greening” da economia baseia-se na mesma lógica e mecanismos que estão a destruir o planeta. Por exemplo, procura incorporar os aspectos da falhada "revolução verde" duma forma mais ampla, a fim de garantir as necessidades dos sectores industriais de produção, tais como promover as patentes sobre plantas e animais e os organismos geneticamente modificados.
Neste período de crise financeira, o capitalismo global procura novas formas de acumulação, a “economia verde” não é mais do que a sua máscara enquanto procura novos mercados baseados no “capital natural”, para se apropriar dos recursos naturais do mundo como matéria-prima para a produção industrial, como sumidouro de carbono ou mesmo para especulação. Esta tendência é visível através do aumento do land grabbing por todo o mundo, para a produção de culturas para exportação e agro-combustíveis. Novas propostas como a "intensificação sustentável" da agricultura, também cumprem o objectivo das corporações e do agro-negócio de sobre-explorar a Terra, colocando o rótulo de "verde" e forçando os camponeses a depender de sementes e insumos de alto custo.
A economia verde procura garantir que os sistemas biológicos e ecológicos do nosso planeta permaneçam ao serviço do capitalismo, pela intensa utilização de várias formas proprietárias de geo-engenharia, tecnologias sintéticas e biotecnologias, como a engenharia genética, peças-chave da agricultura industrial promovidas no âmbito da "economia verde".
- estabelecer um mecanismo participado de avaliação das tecnologias;
- proibir tecnologias que não oferecem garantias de segurança nem equidade como a geo-engenharia e a engenharia genética;
- apostar na via da pequena agricultura camponesa para alimentar o mundo.
Notas e referências na fonte: http://www.gaia.org.pt/node/16307
Nota minha: onde se lê "biliões", deverá ler-se, em Portugal, "mil milhões"
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