quarta-feira, 14 de setembro de 2022

ECOLOGIA PROFUNDA

Dedico este Dia da Ecologia (Ecology Day) à Ecologia Profunda. Enquanto a Ecologia é uma ciência, a Ecologia Profunda trata do respeito pela natureza.

"Deep Ecology", Óleo sobre tela de Daniel Mirante, 2009
A palavra Ecologia tem origem no grego "oikos", que significa casa, e "logos", estudo. É a ciência que estuda as interações entre os seres vivos e seu ambiente: a influência do ambiente nos seres vivos, a influência dos seres vivos do ambiente, a interação dos seres vivos entre si.

A Ecologia Profunda, por outro lado, é um conceito filosófico, que considera que a natureza possui valor intrínseco, independentemente da utilidade que tem para o ser humano.  A sua ideia central é a de que fazemos parte da natureza e não estamos à parte dela. Cada elemento da natureza, ser vivo ou não vivo, inclusive os seres humanos, deve ser preservado e respeitado para garantir o equilíbrio. 

O conceito de Ecologia Profunda foi proposto pelo filósofo e ecologista norueguês Arne Næss em 1973, mas  já existia muito antes em diversas sociedades humanas, particularmente indígenas, como forma de pensar e agir. 

"A Terra é uma comunidade à qual pertencemos, não um objeto que nos pertence", Aldo Leopoldo
Esta filosofia, que deriva do pensamento de Thoreau  e Aldo Leopoldo, contrasta com a visão corrente do mundo (antropocêntrica), mesmo com a teoria do desenvolvimento sustentável preconizada pela ONU cujo princípio n.º 1 (da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento) é:

"Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza." 

Os  princípios básicos da Ecologia Profunda, definidos em 1984 por Arne Næss em conjunto com George Sessions, podem ser lidos no quadro ao lado. 

Transcrevo (novamente) uma pequena parte do discurso do índio norte-americano Chefe Seattle, de 1845, que demonstra um saber superior ao que a ciência nos dá, e que exemplifica a ecologia profunda:


"A terra não pertence, ao homem: é o homem que pertence à terra. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará." (ler o resto aqui).



Nota: Esta é apenas uma abordagem ligeira sobre a ecologia profunda e de acordo com a minha interpretação.


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Esta  mensagem foi originalmente publicada neste blogue no dia 5 de junho de 2013 com o seguinte 1º parágrafo:

«Porque a palavra Ecologia tem sido usada muitas vezes de forma inapropriada, decidi dedicar este Dia Mundial do Ambiente 2013 à Ecologia, mais propriamente à Ecologia Profunda. Enquanto a ecologia é uma ciência, a ecologia profunda trata verdadeiramente do respeito pelo ambiente.»

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Glifosato causa doenças neurodegenerativas


Um estudo recente de Winstone et al. publicado  no Journal of Neuroinflammation, demonstra que  o glifosato infiltra-se no cérebro e aumenta a citocina pró-inflamatória TNFα com implicações nas doenças neurodegenerativas.

 «Conclusões

Coletivamente, esses resultados mostram pela primeira vez que o glifosato se infiltra no cérebro, eleva a expressão de TNFα e Aβ solúvel e interrompe o transcriptoma de maneira dependente da dose, sugerindo que a exposição a esse herbicida pode ter resultados prejudiciais em relação à saúde da população em geral.»

Glifosato é o herbicida mais usado no mundo, e em Portugal, é vulgarmente conhecido por Roundup, e é usado (a rodos) na agricultura e na limpeza de caminhos, como se não fosse um verdadeiro veneno.

«O glifosato (N-(fosfonometil)glicina), o ingrediente ativo em muitos herbicidas comerciais, tem sido o herbicida mais aplicado em todo o mundo desde o ano de 2000, logo após a introdução de culturas tolerantes ao glifosato em 1996. Hoje, mais de 113 milhões de quilos de glifosato são utilizados na agricultura a cada ano nos Estados Unidos. ... Embora atualmente considerado seguro pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPS) e pela Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), pesquisas recentes indicam que o glifosato pode ser tóxico para o corpo humano, o que merece uma investigação mais aprofundada. Os efeitos agudos dos herbicidas têm sido extensivamente estudados, no entanto, as complicações a longo prazo da exposição permanecem amplamente desconhecidas. De particular preocupação é que o glifosato demonstrou atravessar a barreira hematoencefálica in vitro, mas ainda não foi estudado extensivamente no cérebro.»

Em 2018 participei num estudo sobre a presença de glifosato na urina dos portugueses, publicado mais tarde na revista Environmental Toxicology and Pharmacology. Numa altura em que mais de metade dos meus alimentos já eram de produção biológica, parte deles cultivados por mim, fiquei estupefacta com a quantidade desta substância que foi encontrada na minha urina:  0,17 microgramas por litro em julho e 0,54 microgramas por litro em outubro (o valor mais baixo em julho é explicado por consumir, no verão, mais produtos da minha horta); imaginem aqueles que não se preocupam com a proveniência dos seus alimentos!

Neste tema dos pesticidas, há 3 coisas completamente incompreensíveis: 

  1.  que agências de proteção do ambiente aprovem venenos (sim, todos os pesticidas são venenos) químicos sem muitos, independentes e prolongados estudos,  
  2.  que essas agências continuem a ignorara os estudos independentes que já há começaram a ser publicados, e 
  3.  que o princípio da precaução seja totalmente ignorado!~~
Fonte: Journal of NeuroinflammationWinstone et al. : "Glyphosate infiltrates the brain and increases pro‑inflammatory cytokine TNFα: implications for neurodegenerative disorders", 2022

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

"Fast-Fashion": a moda que mata!

A ignorância e a ganância são as maiores inimigas da sustentabilidade. Elas comandam um exército de pessoas alheias, pessoas exploradas, pessoas ludibriadas que deixam que assim seja. Muitas das ferramentas dos que comandam o sistema são incutidas culturalmente desde naqueles que mantém o sistema que os prejudica.

A moda, a imitação do presente, é uma dessas ferramentas, e bem poderosa. A moda rápida, a fast fashion,  a que muda todos os anos, todas as estações, que não tem qualidade e não dura, ainda é muito mais poderosa.


Imagem obtida em Unifardas


«Fast fashion é a moda rápida, a moda que você pode receber em casa em poucos cliques, a moda que que se fabrica em poucas semanas ou até mesmo em poucos dias.

Fast fashion é moda descartável, moda que usamos como uma palha, que usamos cada vez menos tempo, moda que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade, moda que é difícil de reciclar.

Fast fashion é a moda que nos leva a comprar mais, mais vezes, é a moda de demasiado, é a moda que nos sufoca, é a moda que nos faz gastar, é a moda que nos faz acreditar que economizamos dinheiro, é moda que só enriquece as indústrias que a criam.

Fast fashion é a moda que nos envenena, a moda dos produtos químicos que causam doenças, a moda que seca os rios, a moda sintética cheia de microplásticos, a moda que esgota nossos recursos e destrói a biodiversidade. Fast fashion é a moda que mata.

Fast fashion é moda de baixo custo, moda que se vende ao preço das condições de trabalho, do salário e da saúde dos trabalhadores desde o início da cadeia produtiva até aos vendedores; é a moda que explora.

Fast fashion é a moda da infelicidade, a moda que nos vende felicidade, mas que nunca nos satisfaz, a moda disforme que nunca nos torna bonitos, belos ou magros o suficiente.


A fast fashion é um sistema bem lubrificado, que precisa ser interrompido: informando-se, desintoxicando-se de tudo o que nos ensinaram e incutiram, mudando a maneira como consumimos, partilhando e fazendo campanha para mudá-la.»


A primeira imagem e o texto acima a azul fazem parte do GUIA DE RESISTÊNCIA À FAST FASHION (GUIDE DE RÉSISTANCE À LA FAST-FASHION), da Zero Waste France, que encontrei no site Défi Rien de Neuf (Desafio Nada de Novo).

Este guia "oferece conselhos sobre como mudar a sua relação com a roupa e reduzir o seu consumo, mas também para desafiar as marcas e incentivá-las a rever o seu modelo de produção e venda. Como bónus: uma lista resumida de todas as ações a serem implementadas para resistir ao fast fashion, passo a passo."

Para já só conheço esta publicação em francês, se alguém conhecer tradução para português, por favor deixe aqui nos comentários.

sábado, 30 de julho de 2022

Direito a um ambiente limpo, saudável e sustentável

Em 28 de julho de 2022, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução reconhecendo o direito a um ambiente limpo, saudável e sustentável. 

Cascata da Ferida Má, Rio Âncora
A resolução A/76/L.75:   

1. Reconhece o direito a um ambiente limpo, saudável e sustentável como um direito humano;

  2. Observa que o direito a um ambiente limpo, saudável e sustentável está relacionado com outros direitos e com o direito internacional existente;

  3. Afirma que a promoção do direito humano a um ambiente limpo, saudável e sustentável exige a plena aplicação dos acordos ambientais multilaterais segundo os princípios do direito ambiental internacional;

  4. Exorta os Estados, organizações internacionais, empresas e outras partes interessadas a adotar políticas, aumentar a cooperação internacional, fortalecer a capacitação e continuar a partilhar boas práticas a fim de ampliar os esforços para garantir um ambiente limpo, saudável e sustentável para todos.


"Esta resolução envia uma mensagem de que ninguém pode tirar de nós a natureza, o ar e a água limpos ou um clima estável - pelo menos, não sem luta", 

disse Inger Andersen, Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), 

"agora devemos construir sobre esta vitória e implementar o certo, porque a tríplice crise planetária (alterações climáticas, perda da natureza e da biodiversidade, poluição e resíduos) é uma enorme ameaça para as gerações presentes e futuras. Se as nações implementarem totalmente esse direito, isso mudará muito – ao capacitar a ação na tríplice crise planetária, fornecer um ambiente regulatório global mais previsível e consistente para as empresas e proteger aqueles que defendem a natureza." 

Fonte: https://www.unep.org/news-and-stories/story/historic-move-un-declares-healthy-environment-human-right