sexta-feira, 3 de abril de 2020

Eis-nos aqui



«Eis-nos aqui

Aqui estamos, aqui chegamos. 

Há cinquenta anos que essa turbulência ameaça os altos-fornos da incúria da humanidade, ai estamos. Sobre o muro, à beira do abismo, como só o homem pode fazer de maneira brilhante, que só percebe a realidade quando ela o magoa. 

Como a nossa boa e velha cigarra, a quem emprestamos as nossas qualidades despreocupadas.  Nós cantamos, dançamos. Quando digo "nós", quero dizer um quarto da humanidade, enquanto o resto estava lutando.

Construímos uma vida melhor, deitamos os nossos pesticidas na água, nossos fumos no ar, conduzimos três carros, esvaziamos as minas, comemos morangos vindos do fim do mundo, viajamos em todos os sentidos, iluminamos as noites, usamos sapatos de ténis que brilham quando andamos, engordamos, molhamos o deserto, acidificamos a chuva, criamos clones, francamente, podemos dizer que nos divertimos muito.

Conseguimos truques absolutamente surpreendentes, muito difíceis, como derreter icebergs, criar criaturas geneticamente modificadas, deslocar a corrente do Golfo, destruir um terço das espécies vivas, explodir o átomo, afundar resíduos radioativos no solo, nem vistos nem conhecidos.  Francamente, nós gozamos muito. Francamente, aproveitamos.  E gostaríamos de continuar, pois escusado será dizer que é mais engraçado andar de um avião com ténis luminosos do que apanhar batatas. Claro que sim.

Mas eis-nos aqui.

Na Terceira Revolução. Que é muito diferente das duas primeiras (a Revolução neolítica e a Revolução industrial, para relembrar) porque não foi escolhida. 

"Temos de fazer isso, a Terceira Revolução?" perguntarão algumas mentes relutantes e tristes.

Sim.  Não temos escolha, já começou, não nos pediu nossa opinião. Foi a Mãe Natureza que a decidiu fazer, depois de nos deixar brincar com ela durante décadas. A Mãe Natureza, exausta, suja, sem sangue, fecha as nossas torneiras. Do petróleo, do gás,  do urânio, do ar, da água.

Seu ultimato é claro e impiedoso: Salvem-me ou morram comigo (com exceção das formigas e aranhas que nos sobreviverão, porque são muito resistentes e, além disso, pouco dançarinas).

Salvem-me ou morram comigo.  Obviamente, dito assim, entendemos que não temos escolha, corremos imediatamente e, mesmo que tenhamos tempo, pedimos desculpas, em pânico e com vergonha.  Alguns, um pouco sonhadores, estão a tentar um alargamento do prazo, para se divertirem com o crescimento mais um bocado. 

Perda de tempo. Há trabalho a fazer, mais do que a humanidade já alguma vez teve.  Limpar o céu, lavar a água, desobstruir a terra, abandonar o carro, parar a energia nuclear, recolher os ursos polares, apagar quando sair, manter a paz, conter a ganância, encontrar morangos perto de sua casa, não, não saia à noite para os colher todos, deixe para o vizinho, relançar barcos à vela, deixar o carvão onde está, - tenha cuidado, não se deixe tentar, deixe esse carvão em paz - recupere o esterco, mije nos campos (para obter fósforo, não temos mais, tiramos tudo nas minas, como nos divertimos).

Esforce-se. Reflita, até. E, sem querer ofender com um termo obsoleto, seja solidário.

Com o vizinho, com a Europa, com o mundo.

Programa colossal este o da Terceira Revolução. Sem escapatória, vamos lá. Ainda, deve-se notar que a recolha de esterco, e todos os que o fizeram sabem, é uma atividade fundamentalmente satisfatória.
Que não impede de dançar à noite, não é incompatível.  Desde que a paz exista, desde que se contenha o regresso da barbárie - outra das grandes especialidades do homem, talvez a mais bem-sucedida.

A esse preço, teremos sucesso na Terceira Revolução. A esse preço, dançaremos, de maneira diferente, sem dúvida, mas dançaremos novamente.»

Fred Vargas (Frédérique Audoin-Rouzeau), Arqueóloga e Escritora, 2008

Fonte:  https://framablog.org/2009/09/10/fred-vargas-nous-y-sommes/ (tradução livre)

quarta-feira, 25 de março de 2020

Como surgiu o coronavírus?

Estudos vários começam a apontar que a origem de muitas doenças epidémicas como a COVID-19, provocada pelo novo coronavírus, são transmitidas por certos animais em determinadas condições. As "zoonoses" são doenças infecciosas capazes de ser naturalmente transmitidas entre animais e seres humanos. Neste caso, ao que tudo indica, a origem estará no comércio de animais selvagens no mercado de Wuhan na China: vejam o vídeo abaixo, explica de uma forma muito clara.


Aconselho a leitura do artigo "Biodiversidade e Saúde" publicado pela Associação Campo Aberto em 2018, e republicado recentemente, devidamente fundamentado, onde o surgimento de doenças epidémicas é inequivocamente ligado à intromissão humana na vida selvagem, do qual ficam aqui dois parágrafos:


«Em pleno Antropoceno, a alteração do uso dos solos, as populações animais e o clima arrastam o aparecimento de doenças transmissíveis dos animais aos seres humanos, ou seja, de zoonoses.

...

Com cerca de 60 por cento dos agentes patogénicos humanos e cerca de 60 por cento das doenças infeciosas emergentes classificadas como zoonoses, ou seja, transmissíveis dos animais aos seres humanos, essas patologias (gripe das aves, VIH SIDA, SRAS e Ebola, etc) representam um desafio crescente de saúde pública a nível mundial.
...
As atividades humanas influenciam a emergência e a transmissão da quase totalidade das zoonoses, quer como motor principal quer como fator secundário.

A humanidade modifica o seu ambiente desde que surgiram seres humanos, mas, com uma população mundial em aumento constante e uma necessidade exponencial de recursos, aumentam de rapidez a expansão geográfica das atividades humanas e as pressões associadas (agricultura, urbanização, atividades industriais). São diminutos os espaços atualmente isentos da marca antrópica.

Daí resulta simultaneamente o desaparecimento em massa das populações animais selvagens e um contacto reforçado do Homem com a fauna cujo espaço vital se vai reduzindo. Estando essa pressão antrópica sem precedentes sobre os ecossistemas em constante aumento,  e em contexto de mudanças ambientais globais, as doenças zoonóticas continuarão no futuro a emergir.»




Este vídeo é uma tradução por QI News do vídeo original de VOX (aqui)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Carta do #CORONAVIRUS para a Humanidade

Este vídeo é uma mensagem do novo coronavírus para a Humanidade. Aliás, o vírus é apenas o mensageiro, quem manda a mensagem é o planeta Terra. Este  aviso é provavelmente a nossa última chance de mudar de direção, de começarmos a pensar no planeta e agir para o proteger. A sério.



Vídeo original: Letter from #CORONAVIRUS to Humanity

quinta-feira, 19 de março de 2020

Massa de fermentação lenta (receita)

Com a dificuldade em sair de casa e em comprar alimentos que vivemos nestes dias de pandemia, partilho aqui uma receita de pão de fermentação lenta - feito com massa-mãe. 

Normalmente, este pão tem de ser  "sovado" (amassado de uma determinada forma). Neste caso, em vez da "sova" uso uma forma mais expedita - maior quantidade de água para o pão ficar "fofo".


A massa é para mexer com colher,  e o pão é feito em 2 etapas. Mais a de "fabricação do fermento", esta realizada uma única vez, mas que dura 5 dias. 


Fiz várias experiências, de várias fontes. Esta foi a que escolhi, a que, para já, resultou bem para o meu gosto. 


Ainda passarei a outras farinhas para além do trigo e centeio, e posteriormente adicionarei sementes. Será possível, com certeza, usar outras farinhas, ou misturas com diferentes farinhas com menos glúten ou sem glúten (espelta, kamut,  milho, arroz, ….). Mas em anteriores experiências com pão, sem glúten é muito mais difícil um pão fofo. Normalmente requer outros ingredientes adicionais (ex. goma de xantana).


O difícil é acertar o passo para ter pão todos os dias. Mas não é preciso fazer diariamente, porque este pão mantém-se bom pelo menos alguns dias.


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PÃO DE FERMENTAÇÃO LENTA 

Ingredientes:
·         Farinha de centeio integral biológica
·         Farinha de trigo branca e/ou integral biológica
·         Água
·         Sal

1 – Fazer o fermento natural

Fermento natural: com as leveduras e lactobacilos naturais dos cereais. Por isso a importância de usar integral e biológico para fazer o fermento. E com o centeio resulta melhor.

Ingredientes:
·         Farinha de centeio integral biológica
·         Água

Dia 1 – Num frasco de vidro, juntar 1 colher de sopa rasa de farinha de centeio integral biológica e 2 colheres de sopa rasas de água sem cloro, morna.  Deixar em local reservado, ex. dentro de um armário, 24 horas.
Dia 2 – Juntar mais 1 colher de sopa rasa de farinha de centeio integral biológica e 2 colheres de sopa rasas de água sem cloro, morna.  Voltar a deixar em local reservado, ex. dentro de um armário, 24 horas.
Dia 3, 4 e 5 – Repetir o dia 2.

Se a mistura desenvolveu bolhinhas bem visíveis lateralmente, é porque já é fermento. Se não, tentar mais um dia . Se não resultar em bolhinhas, deitar fora. Voltar a tentar, e usar um local mais morno (menos frio).

Guardar no frigorífico. Uma vez por semana deve ser “alimentado”/ reativado.

·         Alimentar / reativar o fermento: juntar 1 colher de sopa rasa de farinha (de preferência de centeio integral biológica, mas também pode ser trigo) e 1 colher de sopa de água sem cloro, de preferência morna. Misturar. Deixar fora do frigorífico de um dia para o outro.  Está pronto a usar ou a voltar para o frigorífico mais 7 dias.

2 – Fazer a massa mãe (para um pão de cerca de 1 kg)

Ingredientes:
·         40 g farinha de centeio (de preferência integral e biológica)
·         40 g farinha de trigo branca ou integral (de preferência integral e biológica)
·         80 ml água sem cloro (de preferência morna)
·         40 g fermento natural

Também pode ser usado só centeio, ou só trigo.  Usar igual quantidade de água que o total de farinha (em peso) e metade de fermento natural.

Numa bacia pequena misturar as farinhas e a água, juntar o fermento. Misturar e deixar levedar num local reservado, como por exemplo dentro de um armário da cozinha ou no forno desligado. 
Fica de um dia para o outro, ou cerca de 12 horas no inverno, ou cerca de 8 horas no verão.
A massa mãe cresce mais ou menos para o dobro em volume.

Usar parte da massa mãe para fazer o pão (cerca de 10% do peso do pão) e guardar a restante (pelo menos 50 g) como fermento natural no frigorífico. 
Reativar ou alimentar conforme ponto anterior.

3 – Fazer a massa do pão (para um pão de cerca de 1 kg)

Ingredientes:
·         300 g farinha de trigo branca (de preferência biológica)
·         100 g farinha de trigo integral (de preferência biológica)
·         50 g farinha de centeio integral  (de preferência biológica)
·         450 ml água sem cloro (de preferência morna)
·         2 colheres de chá de sal grosso
·         100 g fermento natural

Numa bacia média misturar as farinhas e o sal. Juntar a água morna e misturar bem. Juntar o fermento e misturar novamente.
Forrar uma forma retangular (tipo bolo inglês) com papel vegetal. Deitar a massa na forma que não deve ultrapassar metade da mesma.
Deixar levedar num local reservado, como por exemplo dentro de um armário da cozinha ou no forno desligado. Pelo menos 2-3 horas ou até ficar no dobro do volume (no verão é mais rápido, no inverno mais lento).

Quanto às farinhas, também pode ser usado só trigo, ou só trigo branco, ou outras misturas ou outras percentagens.    

4 –  Cozer o pão

Ligar o forno, colocar lá dentro um recipiente com água (para dar humidade) e aquecer aos 200 ºC (eu uso calor de cima e de baixo, forno elétrico). Só quando tiver atingido a temperatura é que se deve meter a forma com a massa no forno.

Coze cerca de 25 -30 minutos. Retirar do forno e retirar da foram. Bater por baixo como quem bate à porta: se soar a oco, é porque está pronto. Bom proveito. 

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(Nota publiquei também mo blogue Agir pela Sustentabilidade, dado que este foi mais uma vez bloquado pelo Facebook e Instagram)

terça-feira, 17 de março de 2020

"O que o vírus nos está a explicar"



«Acredito que o cosmos tem sua própria maneira de equilibrar as coisas e suas leis, quando elas estão perturbadas.  O momento em que estamos a viver, cheio de anomalias e paradoxos, faz-nos pensar...

Numa época em que as alterações climáticas causadas pelos desastres ambientais atingiram níveis preocupantes, a China em primeiro lugar, e muitos países depois, são forçados a congelar; a economia entra em colapso, mas a poluição diminui consideravelmente. O ar melhora; você usa a máscara, mas respira...

Num momento histórico em que certas ideologias e políticas discriminatórias, com fortes referências a um passado mesquinho, estão  a ser reativadas em todo o mundo, chega um vírus que nos faz experimentar que, em um instante, podemos nos tornar os discriminados, os segregados, os presos na fronteira, os portadores de doenças. Mesmo que a culpa não seja nossa. Mesmo que sejamos brancos, ocidentais e viajando em classe executiva.

Numa sociedade baseada na produtividade e no consumo, em que todos corremos 14 horas por dia atrás do desconhecido, sem sábados nem domingos, sem mais vermelhos no calendário, de um momento para o outro, vem a paragem.

Parados, em casa, dias e dias. Para contar com um tempo cujo valor perdemos, se não for mensurável em compensação, em dinheiro.  Ainda sabemos o que fazer com ele?

Numa fase em que o crescimento dos filhos é, por necessidade, muitas vezes delegado a outras figuras e instituições, o vírus fecha as escolas e obriga-as a encontrar soluções alternativas, para voltar a colocar mães e pais junto dos filhos. Obriga-nos a começar uma nova família.

Numa dimensão onde as relações, a comunicação, a sociabilidade são jogadas principalmente no "não-espaço" da rede social virtual, dando-nos a ilusão de proximidade, o vírus tira-nos a verdadeira proximidade: sem tocar, sem beijar, sem abraçar, à distância, no frio do não-contacto.

Quanto é que tomámos estes gestos e o seu significado como garantidos?

Numa fase social em que pensar no próprio umbigo se tornou a regra, o vírus envia-nos uma mensagem clara: a única saída é a reciprocidade, o sentido de pertença, a comunidade, o sentimento de fazer parte de algo maior para cuidar e que pode cuidar de nós. A responsabilidade partilhada, o sentimento de que o destino não é só de vocês, mas de todos à vossa volta depende das vossas acções. E que tu dependes deles.

Então, se pararmos de fazer caça às bruxas, de perguntar de quem é a culpa ou por que tudo isto aconteceu, mas pensando no que podemos aprender com isso, acho que todos nós temos muito o que pensar e nos comprometer.

Porque com o cosmos e suas leis, obviamente, temos uma dívida de gratidão.
O vírus está a explicar-nos, a um preço muito alto»

Fonte: Francesca Morelli: "ecco cosa ci sta spiegando il virus", em  Vita, 10/3/2020  (tradução livre)

sábado, 14 de março de 2020

11 anos, uma pandemia e uma corrente de solidariedade

Dia 14 de março de  2020, em plena situação de pandemia da doença provocada pelo coronavírus COVID-19,  este blogue completa 11 anos de existência.  Habitualmente faço um balanço da situação do blogue, mas este ano, em época excepcional, também vou fazer diferente do normal. 

Assim, de forma a ajudar a esclarecer, a evitar a propagação rápida do vírus e o pânico, e porque faz toda a diferença se o vírus se espalha rápido - com elevada taxa de mortalidade por colapso dos sistemas de saúde - ou lentamente - dando tempo aos hospitais para tratarem as pessoas, deixo aqui uma mensagem que tem andado a circular via Whatsapp pelas pessoas da minha terra, Vila Nova de Famalicão:

«Mensagem partilhada pelo médico famalicense Rui Guedes...

🚨🚨 IMPORTANTE 🚨🚨

Caros amigos,

Não somos entidades com nomes sonantes nem peritos em epidemiologia, somos apenas a arraia miúda, médicos que vivem diariamente num Sistema Nacional de Saúde (SNS) que no seu basal já trabalha no limite, e como tal, vemos com apreensão os dias que se avizinham.

Não estamos satisfeitos com o modo como a situação do COVID-19 tem sido conduzida pelas entidades competentes. Na tentativa atendível de não causar pânico, a verdadeira mensagem não está a passar e a nossa perceção é que pessoas fora da área da Saúde acham que o atual cenário “é um exagero”. Compreendemos em plenitude, não fossem tantas as vezes que a comunicação social nos anuncia a catástrofe iminente, que como ao proverbial rapaz os ignoramos quando há mesmo um lobo.

Assim, pretendemos deixar umas notas, que vindas de alguém que conhecem poderão ter o impacto que conferências de imprensa não têm conseguido.

Com base no cenário que vemos em Itália e que começamos a ver em Espanha (e na informação que vai sendo partilhada entre a comunidade médica) consideramos ser necessário dizer e reforçar o seguinte:

1- Mais de 80% das pessoas infetadas com o COVID-19 terão sintomas muito leves, semelhantes a uma simples constipação ou a um síndrome gripal ligeiro. Estes casos podem e devem evitar idas aos Serviços de Urgência. Não o dizemos por capricho! Não há qualquer tratamento a oferecer aos casos ligeiros, não há nada que se possa fazer num hospital que os impeça de agravar (e a vasta maioria não agravarão e passarão por si sós!). Breve, ir ao hospital não vos adiantará nada pessoalmente e pelo contrário porá em risco todos os outros utentes e profissionais.

2- Pelo menos 10% dos casos serão graves o suficiente para causar falta de ar e obrigar a idas ao Hospital. Alguns destes serão graves o suficiente para precisarem de ventilação mecânica (“ficar ligado à máquina”). Apesar de estes casos graves serem maioritariamente pessoas idosas ou com doenças que os fragilizam, também acontecerão casos de pessoas jovens saudáveis (se 0.2% dos jovens afetados precisarem de ventilação, no caso de 10.000 afetados serão 20 jovens em Portugal em estado grave). Nos idosos e pessoas com problemas de saúde, essa percentagem pode chegar aos 15-20%, o que significa potencialmente uma enormidade de doentes graves que o SNS não terá capacidade de assistir da melhor forma, que é o que se vê acontecer em Itália, onde ventiladores estão a ser recusados logo à partida, sem qualquer contemplação, a pessoas com mais de 60 anos.


3- O que podemos fazer? Tentar que em vez de termos 10.000 casos até ao final de Março, tenhamos esses 10.000 casos espalhados no tempo ao longo de 6 meses. Faz muita diferença um hospital ter no mesmo dia 10 pessoas a precisar de ventilador ou ter 50 pessoas a precisar de ventilador. É simples, não vai haver para todos. Como podemos atrasar então o surgimento de novos casos? Isolarmo-nos o mais possível. E cada dia conta no atraso que vamos conseguir!

Imagem de Globo
 4- Se és dono de uma empresa ou de um escritório considera fechar portas e colocar os funcionários a trabalhar tanto quanto possível de casa. Pensa assim, vais ter que fechar  portas em duas semanas de qualquer forma, com uma grande diferença: salvaste vidas!!

5- Se podes trabalhar de casa, deves absolutamente fazê-lo.

6- Não vás ao ginásio, vai dar uma corrida (não em grupo!) e faz umas flexões em casa. Não vás ao café. Não vás ao restaurante. Escusado será mencionar esse ambiente fresco e arejado que existe em discotecas e bares noturnos. Almoço de fim de semana em casa dos avós? Cancelem. Jantar de anos da Filipa? Não vai dar, a Filipa compreenderá, mais não seja em duas semanas quando perceber a dimensão do problema.

7- As crianças, ao contrário do que se viu escrito em alguns locais, parecem ser bastante contagiosas. Apresentam também muito poucos sintomas quando estão infetadas. Ou seja, devemos evitar o contacto entre as crianças da família e respetivos avós e outros membros mais frágeis. Pelo lado bom e para tranquilizar: tanto quanto sabemos (e já sabemos alguma coisa após tantos milhares de casos pelo Mundo) não há qualquer caso de doença grave em crianças menores de 10 anos. Os sacanitas são rijos, mas muito contagiosos.

8- A máscara só é útil para quem já está a tossir e espirrar - para pessoas sem sintomas ajuda pouco. Importante mesmo é lavar as mãos frequentemente e evitar tocar na cara/boca/olhos. E manter distância social: não há apertos de mão, não há beijinhos e falar de perto é também má ideia (vá, todos conhecemos aquela pessoa que manda muitos “perdigotos”).

9- Não é demais salientar que durante esta época as outras doenças, acidentes e infortúnios vários não vão tirar férias. Continuarão a existir AVCs, ataques cardíacos, outras infeções, acidentes de viação, exatamente na mesma quantidade de antes. Com uma diferença saliente: quando esses doentes graves precisarem de vaga nos cuidados intensivos (que mesmo num dia bom já são insuficientes e difíceis de gerir), podem bem não a ter. A mortalidade do COVID não é só a mortalidade do COVID - com um sistema a trabalhar para lá do limite, todas as outras doenças que já antes matavam, matarão mais.

10- Terminamos com uma nota importante: o pânico é contraproducente. Ninguém tem necessidade de açambarcar setecentos rolos de papel higiénico. A sociedade como a conhecemos não colapsará. Mas isto não é a gripe A, não é a vespa asiática, não é a crise dos combustíveis, não é nenhuma das mais recentes catástrofes sempre anunciadas e felizmente nunca cumpridas. Desta vez é a sério (palavra de escuteiro) e cabe a cada um de nós fazer a sua parte para que seja o menos sério possível.»

Neste momento em que escrevo, na Europa há 36642 casos confirmados e 1514 mortos (daqui) devido ao coronavírus, onde a pior situação, no momento, é em Itália, com cerca de metade dos casos. Em Portugal, neste momento há 169 caso, e a aumentar muito cada dia; felizmente ainda 0 mortos (daqui) . Se não forem tomadas medidas de prevenção suficientes nos vários países, podem todos ficar muito pior. Por isso, informe-se, tenha calma, e proteja-se a si e aos outros.

Como agradecimento aos profissionais de saúde que lutam e trabalham para além de toda a razoabilidade nesta fase difícil, partilho também a corrente que um grupo de cidadãos iniciou nas redes sociais:

«Hoje às 22h00 vai haver uma corrente de esperança e energia dedicada a todos os profissionais de saúde que trabalham em todo o país para nos ajudar a ultrapassar este desafio enorme.
💖
Às 22h00 venham todos à janela, à varanda, onde puderem, aplaudir os nossos profissionais de saúde. 👏👏👏Passem a todos os conhecidos. 
🙏🏻
#somostodosSNS💫»


Saiba mais sobre o novo coronavírus na DGS em:   https://covid19.min-saude.pt/

Situação atualizada na Europa (via OMS) : ver aqui

Veja também (fonte do gráfico acima) artigo no  Globo : Globo: Um gráfico explica a pandemia