domingo, 27 de setembro de 2020

Um "remake" da Bauhaus?

Não me parece que qualquer corrente artística ou arquitetónica possa ser ditada pelas instituições políticas, a não ser, claro, nas ditaduras. 

Casas projetadas por Mies van der Rohe, Krefeld, Alemanha.
Foto (Getty Images) obtida aqui.

No entanto, a Comissão Europeia tem a intenção de resgatar esta escola/corrente arquitetónica dando-lhe um cunho de sustentabilidade, e integrando-a no Acordo Verde Europeu.

Porque de facto, a sustentabilidade passa  pela simplicidade, caraterística da Bahaus. 

Quem sabe possa esta iniciativa trazer a construção para patamares mais sustentáveis na UE, em que são tidos em conta na pegada ecológica: 
- todos os materiais utilizados e a sua origem, 
- os métodos construtivos, 
-os gastos energéticos e de manutenção da construção durante o seu tempo de vida,  
- e o destino dos materiais após demolição do edifício.

Todo o ciclo de vida da construção tem de ser tido em conta. 

A seguir, a tradução (livre) do artigo de Valentina Di Liscia em Hyperallergic  sobre o assunto.


«Como parte do plano de recuperação de 750 mil milhões de euros da UE, um apelo por uma "nova Bauhaus". 
A União Europeia está a olhar para o influente movimento modernista como um modelo para uma nova arquitetura neutra para o clima.

Valentina Di Liscia 25 de setembro de 2020

Um século atrás, a Escola Bauhaus em Weimar, Alemanha, surgiu como um novo modelo radical de design e arquitetura baseado na integração de artesanato e belas-artes. A instituição e o legado do movimento que o acompanha sobre o modernismo são impossíveis de exagerar, deixando sua marca em tudo, desde objetos funcionais e manufatura industrial até teoria académica e educação artística.

Agora, a União Europeia está a olhar para a Bauhaus cada vez mais produtiva como inspiração para uma nova arquitetura neutra para o clima como parte de seus planos de recuperação de coronavírus. Em seu discurso sobre o estado da união na semana passada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a construção sustentável era "não apenas um projeto ambiental ou económico", mas "um novo projeto cultural para a Europa".

“É por isso que vamos criar uma nova Bauhaus europeia - um espaço de cocriação onde arquitetos, artistas, estudantes, engenheiros e designers trabalham juntos para que isso aconteça”, disse von der Leyen.

As observações foram no contexto da NextGeneration EU, o fundo de recuperação de 750 mil milhões de euros da comissão para ajudar a economia do continente afetada pela pandemia. A proposta do fundo também inclui um Acordo Verde Europeu, um plano para a UE se tornar neutra em carbono até 2050, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa e investindo em tecnologia e infraestrutura verdes.

A construção de edifícios com eficiência energética é um passo fundamental para atingir essas metas, disse von der Leyen. Embora ela não tenha dado detalhes sobre o papel da Bauhaus nesse propósito, von der Leyen pareceu sugerir que o par forma/ função do movimento, bem como a abordagem colaborativa e o estilo "think tank" dessa escola, poderiam ser aplicados para uma arquitetura simplificada e mais sustentável.

“Cada movimento tem sua própria aparência e comportamento”, continuou a presidente da CE. “E precisamos dar à nossa mudança sistémica sua própria estética distinta - para combinar estilo com sustentabilidade.”»

Fonte: As Part of EU’s $872 Billion Recovery Plan, a Call For a “New Bauhaus”,  Valentina Di Liscia, 25 de setembro de 2020, Hyperallergic

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Contra a ratificação do acordo UE-Mercosul

De uma maneira geral, os acordo de comércio internacionais têm sido "cozinhados" sem informação aos cidadãos e portanto sem a sua participação. Como tal, beneficiam grandes empresas em detrimento das pequenas empresas, das pessoas com menos rendimentos e do ambiente.  

Neste momento,  a União Europeia prepara-se para aprovar o acordo com o Mercosul.

Leia abaixo a carta modelo preparada pela TROCA - Plataforma por um comércio internacional justo  , destinada a ser enviada ao Primeiro Ministro e ao Ministro dos Negócios estrangeiros, e perceba as razões porque devemos impedir o acordo e a União Europeia e os países membros do Mercosul.

Se concordar, copie, adapte e envie o email para:   

  • gabinete.pm@pm.gov.pt     
  • gabinete.ministro@mne.gov.pt

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Sua Excelência o Primeiro-Ministro Dr. António Costa,

Sua Excelência o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Prof. Dr. Augusto Santos Silva,

O acordo entre a União Europeia e os países membros do Mercosul – a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai – foi assinado a 28 de Junho de 2019, mas ainda não foi ratificado. No Conselho da União Europeia o governo português terá a possibilidade de votar a favor ou contra a ratificação deste acordo.

Venho por este meio apelar a que o Governo Português vote contra a ratificação do acordo no Conselho da União Europeia pelas seguintes razões:

É um acordo que agrava o genocídio dos povos indígenas. É público que o processo de expropriação das terras indígenas e a violência que tem caracterizado as relações com os povos indígenas estão associados a projectos de mineração ou outras formas de extracção de recursos do território. Se tivermos em conta que o acordo UE-Mercosul vai aumentar os mercados para estes produtos e facilitar o investimento europeu nestas indústrias extractivas, não há como negar que o acordo vai, não só  incentivar estas violações dos Direitos Humanos, como acentuar a cumplicidade da liderança europeia nesses abusos.

É um acordo que vai contribuir para devastar as florestas tropicais e o património natural sul-americano. O acordo vai provocar uma perda da biodiversidade galopante em todos os biomas da América do Sul, um aumento do ritmo de destruição da Floresta Amazónica e do Cerrado; a expansão das monoculturas intensivas e da pecuária intensiva, à custa da destruição de ecossistemas naturais; bem como a utilização não controlada de pesticidas.

É um acordo que vai agravar as ameaças climáticas. O acordo UE-MERCOSUL resultará num aumento de emissões por via do aumento do volume de bens transportados (em particular bens agrícolas com uma pior relação “valor-volume”), por via da desflorestação e por alterações no uso dos terrenos, além do impacto que a redução das taxas aduaneiras sobre os combustíveis fósseis tem no que toca à diminuição de incentivos para a eficiência energética. Outros sectores específicos, como a aquacultura intensiva e a produção pecuária (que se tornará mais intensiva), também irão contribuir de forma significativa para este aumento.

É um acordo que vai conduzir a um enorme aumento do sofrimento animal. Este acordo ignora completamente o sofrimento animal. Assim, ele conduzirá a um aumento dos métodos intensivos de criação de gado, por ter custos mais reduzidos. Efectivamente, um acordo deste tipo torna uma legislação menos exigente no que concerne ao bem-estar animal numa vantagem competitiva mais forte, propiciando a deslocalização  da produção pecuária precisamente para os países onde a legislação for menos robusta a este respeito.

É um acordo que vai ameaçar a produção agrícola na Europa, principalmente a dos pequenos produtores. Os padrões de qualidade alimentar nos países do Mercosul são muito reduzidos: estes países permitem diversos agrotóxicos proibidos na Europa, antibióticos e hormonas perigosos na pecuária e têm leis de protecção animal e ambiental mais laxistas. Prevê-se um enorme aumento das exportações de bens alimentares dos países do Mercosul para a União Europeia, o que irá ameaçar os agricultores em geral e os pequenos agricultores em particular.

É um acordo que vai prejudicar os trabalhadores. Em resultado das políticas de Bolsonaro, o Brasil encontra-se actualmente, nas Conferências Internacionais do Trabalho de 2018 e 2019, nas listas dos estados que têm violado de forma mais grave as convenções e recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A OIT acusa o Brasil de violar as convenções 98 (relativa ao trabalho infantil) e 154 (relativa à negociação colectiva), o que constitui um ataque aos sindicatos e trabalhadores em todo o mundo. Neste contexto, ratificar um acordo comercial que envolva o Brasil, no mínimo, enfraquece estas convenções.

É um acordo que vai reduzir padrões de saúde. A harmonização regulatória prevista no acordo UE-MERCOSUL também inclui medidas sanitárias e fitossanitárias, que, no caso da UE, passarão a sofrer maior pressão no sentido do seu afrouxamento. Por outro lado o controlo do cumprimento das normas sanitárias e fitossanitárias estabelecidas será enfraquecido. E isto acontece num contexto em que os actuais controlos já são claramente insuficientes. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, no seu mais recente relatório, declarou que 7,6% das amostras recolhidas excedem o nível máximo de pesticidas permitido na União Europeia.

É um acordo que vai acentuar assimetrias e vulnerabilidades. O acordo UE-MERCOSUL pode ser resumido no slogan “carros por comida”, já que a expectativa da União Europeia é aumentar as suas exportações no sector industrial, onde é mais competitiva, e a do Mercosul é aumentar as suas exportações no sector primário. Em certa medida, o acordo vai promover o acentuar de relações económicas assimétricas, que perpetuam a dependência da América do Sul em relação ao sector primário. Já o sector agrícola europeu será fortemente prejudicado e esta circunstância pode ser preocupante já que coloca os países da União Europeia numa situação de maior vulnerabilidade. A pandemia provocada pelo Coronavirus mostrou que as redes de comércio podem enfrentar fortes disrupções a qualquer momento e uma maior dependência das importações agrícolas pode resultar em catástrofes humanas tremendas.

É um acordo que resulta de um processo pouco transparente e contribui para esvaziar a Democracia. Após cerca de 20 anos de negociações, o acordo foi assinado em 2019 sem que o seu texto tenha sido inteiramente disponibilizado para o público. Mesmo a parte que foi tornada pública, só foi publicada em Julho de 2019. O acordo não foi alvo de qualquer debate público dentro da sociedade portuguesa, apesar dos riscos que representa, nem tem recebido qualquer visibilidade na nossa comunicação social. Além disso, o acordo UE-Mercosul estabelece um conjunto de sub-comités que representam uma instância burocrática de papel obscuro e não sujeita a um adequado controlo democrático. O acordo não oferece qualquer garantia de que os grupos empresariais não capturem estes sub-comités, sendo que alguns destes têm poderes que se estendem para lá daquilo que está explicitamente acordado no documento. Nenhum mecanismo de escrutínio democrático está previsto no âmbito destes sub-comités.

É fundamental que o comércio internacional seja social e ecologicamente sustentável. Infelizmente, o presente acordo, sobretudo no actual contexto, não cumpre estes requisitos. Ao invés, vai agravar injustiças sociais e económicas e danos ambientais.

Por estas razões apelo a que o Governo Português vote contra a ratificação do acordo no Conselho da União Europeia.


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Fonte: TROCA - Plataforma por um comércio internacional justo


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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Parem de impedir a venda do arroz a granel!

Porque não há arroz a granel? porque a legislação o impede! Porquê?????

É urgente promover, e não impedir, o comércio a granel , também do arroz!
Contra o desperdício e o excesso de embalagens, assine a petição para alterar a lei que obriga a que o arroz seja vendido embalado.
(veja o n.º 3 do art. 7º do DL 157/2017: «O arroz e a trinca de arroz destinados ao retalho são obrigatoriamente pré-embalados.»)

Veja aqui o programa Biosfera sobre o assunto, e leia também o artigo (pergunta 2) do blogue Mind The Trash

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Salve as abelhas e os agricultores! (ICE)

«Iniciativa de Cidadania Europeia "Salve as abelhas e os agricultores!"

Pedimos, de muitos cantos da União Europeia, uma agricultura que respeite as abelhas, em benefício dos agricultores, da saúde e do ambiente.

Com a nossa Iniciativa de Cidadania Europeia, apelamos à Comissão Europeia para apoiar um modelo agrícola que permite aos agricultores e à biodiversidade evoluir em harmonia.

1 - Eliminar pesticidas sintéticos: - Eliminação progressiva dos pesticidas sintéticos na agricultura da UE em 80% até 2030, começando pelos mais perigosos, para atingir 100% até 2035.

2 - Restaurar biodiversidade: - Restaurar ecossistemas naturais em áreas agrícolas para que a agricultura contribua para a recuperação da biodiversidade.

3 - Apoiar os agricultores na transição: - Reformar a agricultura priorizando: pequena escala, diversidade, sustentabilidade e práticas agroecológicas, bem como treinamento independente e pesquisa no campo da agricultura livre de agrotóxicos e organismos geneticamente modificados.»


Petição em espanhol: https://www.savebeesandfarmers.eu/spa/ 

    

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Brotos da Terra

 «Nossas armas são nossas sementes. Nunca poderão esmagar-nos, sempre voltaremos a crescer, continuaremos a resistir. Somos gente da Terra, somos a Natureza.»

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Vamos continuar a ter “piroverões” (Jorge Paiva)

 «Sem medidas efectivas, vamos continuar a ter “piroverões

Os culpados são todos os governos que temos tido, particularmente a partir da extinção dos Serviços Florestais. Porém, todos esses governantes, não só não assumem o que fizeram, como não são capazes de admitir o erro e, no mínimo, criarem novamente os Serviços Florestais.

Imagem daqui

O Governo do Líbano foi avisado, até por escrito, de que havia o risco do que ocorreu. Depois, demitiram-se como se isso fosse a condenação que mereciam pela mortalidade e destruição de que foram culpados. 

Por cá temos a tragédia dos anuais Verões com incêndios florestais devastadores e mortíferos, apesar de há mais de 40 anos termos (eu e outros) alertado, muitas vezes, no que estavam a transformar o nosso país, particularmente as regiões Norte e Centro: numa pira contínua de lenha altamente inflamável, isto é, eucaliptal (produtos aromáticos voláteis e altamente incandescentes) e pinhal (resina, volátil e altamente incandescente) intensivos, contínuos e contíguos. Mostrei isso de helicóptero a um Presidente da República (Mário Soares). Não valeu de nada.

Em vez de travarem ou obrigarem a uma arborização cuidada e ordenada, fizeram ainda pior: extinguiram os Serviços Florestais. Assim, deixou de haver qualquer entidade competente para regularizar e não deixar arborizar da maneira desmesurada e contínua, como aconteceu durante estas dezenas de anos. Por outro lado, nos Serviços Florestais havia os guardas florestais que viviam no meio rural. Eram vigilantes permanentes e conheciam bem a região onde circulavam. Podia haver incêndios, mas nunca foram tão devastadores e mortíferos como os actuais.

Os culpados são todos os governos que temos tido, particularmente a partir da extinção dos Serviços Florestais. Porém, todos esses governantes, não só não assumem o que fizeram, como não são capazes de admitir o erro e, no mínimo, criarem novamente os Serviços Florestais. Além disso, muito do património construído (particularmente casas florestais) ainda existe, embora a maioria bastante delapidado.

...

Infelizmente, vamos continuar com piroverões, plenos de fogos florestais, mortes e enormes despesas, muito superiores à de uns Serviços Florestais bem estruturados e um país ruralmente ordenado.

Finalmente, com tantos incêndios florestais e sem Serviços Florestais com capacidade de rearborizar ordenadamente, as regiões montanhosas do país, estão a transformar-se em desertos de rocha nua, por erosão pluviosa, com consequente arrastamento de solos, como já é visível, particularmente no Norte e Centro do país.»

Jorge Paiva, Biólogo 

Leia o artigo completo do Biólogo e especialista em floresta Jorge Paiva na fonte, artigo do Público de 19/8/2020: https://www.publico.pt/2020/08/19/ciencia/opiniao/medidas-efectivas-vamos-continuar-piroveroes-1928360