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terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio+20 - O preço da natureza ou o preço da economia verde

Com o tema "Economia verde", uma das questões centrais da Cimeira Rio+20, que começa amanhã no Rio de Janeiro, é a colocação de um preço nos recursos, bens e serviços ambientais, assim como já estão a fazer com as taxas de carbono. Esta ideia pode até ter tido origem e defensores bem intencionados para proteger os recursos naturais, mas o perigo que ela representa numa civilização dominada pelo capitalismo predatório é assustador. Não, não apoio, não acredito neste caminho do qual apenas adivinho que leve à aceleração das injustiças sociais e da predação dos recursos naturais. Chegaremos ao ponto de pagar uma taxa pelo oxigénio que respiramos a corporações que compraram a Amazónia?   Sobre esta questão, aconselho a leitura da Carta de Evo Morales, presidente da Bolívia, aos povos indígenas do mundo, publicada em Outubro de 2010, antes da Cimeira de Cancun.


A seguir, a tradução do texto de Esther Vivas publicado no Público.es anteontem e no blogue da autora ontem:

«Quando a economia e o capitalismo se pintam de verde

Imagem obtida aqui
O verde vende. Desde a revolução verde , passando pela tecnologia verde, o crescimento verde até chegar aos "brotos verdes" que tinham de arrancar da crise. A última novidade: a economia verde. Uma economia que, ao contrário do que o próprio nome indica, não tem nada de "verde" para além dos dólares que esperam ganhar com ela aqueles que a promovem.


E a nova ofensiva do capitalismo global por privatizar e comercializar maciçamente os bens comuns, tem na economia verde o seu expoente máximo. Justamente num contexto de crise económica como a atual, uma das estratégias do capital para recuperar a taxa de lucro consiste em privatizar ecossistemas e converter “a vida” em mercadoria.


A economia verde será precisamente tema central da agenda da próxima Cimeira das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio +20, a ser realizada de 20 a 22 de Junho no Rio de Janeiro, vinte anos depois da Cimeira da Terra da ONU que em 1992 teve lugar na mesma cidade. E duas décadas depois, onde estamos? Onde ficaram conceitos como "desenvolvimento sustentável" cunhados na dita cimeira? Ou a ratificação da Convenção sobre Mudanças do Climáticas, que estabeleceu as bases do Protocolo de Quioto? Ou a Convenção sobre Diversidade Biológica, que foi então lançada? No papel, nem mais nem menos. Hoje estamos muito pior do que antes.


Durante estes anos, não só não se conseguiu travar as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, parar a desflorestação ... senão, pelo contrário, esses processos se agudizaram e intensificado. Assistimos, pois, a uma crise ecológica sem precedentes que ameaça o futuro da espécie e da vida no planeta, e tem um papel central na crise de civilização que enfrentamos.


Uma crise ambiental que demonstra a incapacidade do capitalismo para nos tirar da "beco sem saída" a que a lógica do crescimento ilimitado, o benefício a curto prazo, o consumismo compulsivo ... nos conduziu. E esta incapacidade de dar uma "saída" real, vimo-la claramente após as falhadas cimeiras do clima em Copenhague (2009), Cancun (2010), Durban (2011) ou na cimeira sobre a biodiversidade em Nagoya (Japão 2010), etc., onde acabaram por se colocar os interesses políticos e econômicos à frente das necessidades coletivas dos povos e do futuro do planeta.


Nestas cimeiras surgiram falsas soluções para as mudanças climáticas, soluções tecnológicas, desde a energia nuclear, passando pelos biocombustíveis até à captura e armazenamento de CO2 no subsolo, entre outras. Medidas que tentam esconder as causas estruturais que conduziram à atual crise ecológica, pretendendo de fazer negócios com ela, e que mais não farão que agravá-la.


Os laços estreitos entre aqueles que detêm o poder político e o poder económico explicam esta falta de vontade para dar uma resposta eficaz. As políticas não são neutras. Um solução real implicaria uma mudança radical no atual modelo de produção, distribuição e consumo, enfrentar a lógica produtivista do capital. Tocar no núcleo duro do sistema capitalista. E aqueles que detêm o poder político e económico não estão dispostos a isso, a acabar com a sua "galinha dos ovos de ouro."


Agora, vinte anos depois, querem-nos "vender a moto" da economia verde como a solução para a crise económica e ecológica. Outra grande mentira. A economia verde procurar apenas fazer negócios com a natureza e com a vida. Esta é a neocolonização dos recursos naturais, aqueles que ainda não foram privatizadas, e pretende transformá-los em mercadorias para compra e venda.


Os seus promotores são precisamente aqueles que levaram à situação de crise em que estamos: grandes empresas multinacionais, com o apoio ativo dos governos e instituições internacionais. As empresas que monopolizam o mercado de energia (Exxon, BP, Chevron, Shell, Total), da agroindustria (Unilever, Cargill, DuPont, Monsanto, Procter & Gamble), das farmacêuticos (Roche, Merck), da química (Dow , DuPont, BASF) são os principais impulsionadores da economia verde.


Assistimos a um novo ataque aos bens comuns, donde quem saímos a perder somos os 99% e o nosso planeta. E especialmente as comunidades indígenas e camponesas do Sul global, cuidadoras desses ecossistemas, que serão expropriadas e expulsas dos seus territórios para o benefício das empresas multinacionais que procuram negociar esses ecossistemas.


Com a cimeira Rio +20 pretende-se criar o que poderíamos chamar de "uma nova governança ambiental internacional" para consolide a mercantilização da natureza e que permita um maior controle oligopolista dos recursos naturais. Em suma, abrindo caminho para que as corporações internacionais se apropriem dos recursos naturais, legitimando práticas de roubo e usurpação. A resposta está em nossas mãos, dizer "não" e expor o capitalismo como uma economia que se tinge de verde

Fontes: Esther Vivas | Público, 17/06/2012



segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Economia verde versus Economia solidária " - Leonardo Boff

Leonardo Boff é uma das vozes que vem "gritando" contra o sistema económico e social de hoje, contra o capitalismo predatório de recursos naturais que enfraquece as sociedades humanas, contra a criminosa distribuição de riqueza que o sistema implica, e que tem defendido que só há futuro para a humanidade se mudarmos de era: se passarmos da era antropozoica para a era ecozoica.

Mas não é com a "economia verde" assente no mesmo sistema de capitalismo predatório e injusto que vamos lá.  A poucos dias da Cimeira Rio+20, depois da opinião de Vandana Shiva e da Campanha das Sementes Livres, não podia aqui faltar a crítica de Leonardo Boff sobre  o Documento Zero da ONU para a Rio+20 e sobre o futuro que realmente queremos:

Imagem obtida em envolverde
«Economia verde versus Economia solidária  (04/06/2012)

por Leonardo Boff

O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Através dele e nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A economia verde radicaliza esta tendência, pois como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón “ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas mas também sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bonos negociáveis  pelo mercado e pelos bancos. Destarte o texto se revela definitivamente  antropocêntrico como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles e não a outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta.


Resumidamente: “O futuro que queremos”, lema central do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este  se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto destes, não avançar é retroceder e fechar as portas para o novo.


Há outrossim um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marron ou de verde, ela guarda sempre sua lógica interna que seformula nesta pergunta: quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres. Nesta guerra nãopossuimos nenuma chance de vitória. Ela ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença. Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nosquer dizer (pelos eventos extremos, pelos tsunamis etc), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações mas não nos dita comportamentos. Estes devem se inventados por nós mesmos. Eles somente serão  bons caso estiverem  em conformidade com seus ritmos e ciclos.


Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada  bioregião, destribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida. Ela ganha corpo hoje através da economia biocentrada, solidária, agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir  sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e consumidores numa verdadeira democracia alimentar.


A Rio 92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório  Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para  seu campo e assim distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava nela, eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera.


Isso não é superado pela economia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que produziu o texto teórico do PNUMA Iniciativa da Economia Verde. Com isso, astutamente  descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança de olhar sobre o planeta  que possa projetar um  real futuro para a Humanidade e para a Terra.


Junto com a Rio+20 seria um ganho  resgatar também a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial da ONU de 5-15 de julho de1972 em Estocolmo na Suécia  sobre o Ambiente Humano, o foco central não era o desenvolvimento mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde.»

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/06/04/economia-verde-verus-economia-solidaria/ (os links e os negritos fui eu que coloquei)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"A ilusão de uma economia verde" - por Leonardo Boff

Imagem obtida em EcoSaveWorld


A ilusão de uma economia verde

por Leonardo Boff, 16/10/2011

"Tudo o que fizermos para proteger o planeta vivo que é a Terra contra fatores que a tiraram de seu equilíbrio e provocaram, em conseqüência, o aquecimento global é válido e deve ser apoiado. Na verdade, a expressão “aquecimento global” esconde fenômenos como: secas prolongadas que dizimam safras de grãos, grandes inundações e vendavais, falta de água, erosão dos solos, fome, degradação daqueles 15 entre os 24 serviços, elencados pela Avaliação Ecossistêmica da Terra (ONU), responsáveis pela sustentabilidade do planeta (água, energia, solos, sementes, fibras etc).

A questão central nem é salvar a Terra. Ela se salva a si mesma e, se for preciso, nos expulsando de seu seio. Mas como nos salvamos a nós mesmos e a nossa civilização? Esta é real questão que a maioria dá de ombros, especialmente os que tratam da macroeconomia.

A produção de baixo de carbono, os produtos orgânicos, energia solar e eólica, a diminuição, o mais possível, de intervenção nos ritmos da natureza, a busca da reposição dos bens utilizados, a reciclagem, tudo que vem sob o nome de economia verde são os processos mais buscados e difundidos. E é recomendável que esse modo de produzir se imponha.

Mesmo assim não devemos nos iludir e perder o sentido critico. Fala-se de economia verde para evitar a questão da sustentabilidade que se encontra em oposição ao atual modo de produção e consumo. Mas no fundo, trata-se de medidas dentro do mesmo paradigma de dominação da natureza. Não existe o verde e o não verde. Todos os produtos contem nas várias fases de sua produção, elementos tóxicos, danosos à saúde da Terra e da sociedade. Hoje pelo método da Análise do Ciclo de Vida podemos exibir e monitorar as complexas inter-relações entre as várias etapas, da extração, do transporte, da produção, do uso e do descarte de cada produto e seus impactos ambientais. Ai fica claro que o pretendido verde não é tão verde assim. O verde representa apenas uma etapa de todo um processo. A produção nunca é de todo ecoamigável.

Tomemos como exemplo o etanol, dado como energia limpa e alternativa à energia fóssil e suja do petróleo. Ele é limpo somente na boca da bomba de abastecimento. Todo o processo de sua produção é altamente poluidor: os agrotóxicos aplicados ao solo, as queimadas, o transporte com grandes caminhões que emitem gases, as emissões das fábricas, os efluentes líquidos e o bagaço. Os pesticidas eliminam bactérias e expulsam as minhocas que são fundamentais para a regeneração os solos; elas só voltam depois de cinco anos.

Para garantirmos uma produção, necessária à vida, que não estresse e degrade a natureza, precisamos mais do que a busca do verde. A crise é conceptual e não econômica. A relação para com a Terra tem que mudar. Somos parte de Gaia e por nossa atuação cuidadosa a tornamos mais consciente e com mais chance de assegurar sua vitalidade.

Para nos salvar não vejo outro caminho senão aquele apontado pela Carta da Terra:”o destino comum nos conclama a buscar um novo começo; isto requer uma mudança na mente e no coração; demanda um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal” (final).

Mudança de mente significa um novo conceito de Terra como Gaia. Ela não nos pertence, mas ao conjunto dos ecossistemas que servem à totalidade da vida, regulando sua base biofísica e os climas. Ela criou toda a comunidade de vida e não apenas nós. Nós somos sua porção consciente e responsável. O trabalho mais pesado é feito pelos nossos parceiros invisíveis, verdadeiro proletariado natural, os microorganismos, as bactérias e fungos que são bilhões em cada culherada de chão. São eles que sustentam efetivamente a vida já há 3,8 bilhões de anos. Nossa relação para com a Terra deve ser como aquela com nossas mães: de respeito e gratidão. Devemos devolver, agradecidos, o que ela nos dá e manter sua capacidade vital.

Mudança de coração significa que além da razão instrumental com a qual organizamos a produção, precisamos da razão cordial e sensível que se expressa pelo amor à Terra e pelo respeito a cada ser da criação porque é nosso companheiro na comunidade de vida e pelo sentimento de reciprocidade, de interdependência e de cuidado, pois essa é nossa missão.

Sem essa conversão não sairemos da miopia de uma economia verde.Só novas mentes e novos corações gestarão outro futuro."

(Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2011/10/16/a-ilusao-de-uma-economia-verde/)