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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O Futuro

Existe um claro consenso de que o futuro que hoje começa a emergir será extremamente diferente de tudo o que alguma vez conhecemos no passado. É uma diferença não de grau, mas de género. Não existe qualquer período de mudanças anterior que se assemelhe sequer ao que a humanidade está prestes a conhecer. Já passamos por períodos de mudanças revolucionárias, mas nenhum tão intenso nem tão prenhe de perigo e oportunidade como os tempos que se avizinham. Também nunca passamos antes por um período de tantas mudanças revolucionárias e convergentes
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Imagem do livro obtida aqui
Existem já várias práticas imprudentes que deviam ser imediatamente interrompidas: a venda de armas mortíferas a grupos em todo o mundo; o uso de antibióticos como estimulante de crescimento para animais; a exploração de petróleo no vulnerável oceano Ártico; o domínio das transacções bolsistas por supercomputadores com algoritmos optimizados para transações de alta velocidade e frequência que criam volatilidade e riscos de perturbações no mercado; e propostas completamente loucas para impedir que o a luz do Sol chegue à Terra como estratégia para diminuir a retenção de calor provocada por níveis crescentes de poluição. Todas estas práticas e propostas constituem exemplos de ideias confusas e perigosas. Deviam ser encaradas como «casos padrão» para perceber se temos ou não a vontade, a determinação e a energia para criar um futuro digno das gerações vindouras.
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A civilização humana chegou a uma bifurcação na estrada que percorremos há muito. Há que escolher um de dois caminhos. Ambos nos conduzem ao desconhecido. Mas um conduz à destruição do equilíbrio climático de que dependemos, à destruição de recursos insubstituíveis que nos sustentam, à degradação de valores unicamente humanos e ao possível fim da civilização como a conhecemos. O outro conduz ao futuro.

Al Gore, em “O FUTURO – Seis forças que irão mudar o mundo”, 2013, Actual Editora (extratos)

Sinopse do livro (extrato obtido aqui):  
«Fruto de uma investigação exaustiva e da análise de casos paradigmáticos, O Futuro identifica as principais forças emergentes que irão moldar os tempos vindouros: as mudanças em curso na economia global, a alteração no equilíbrio de poder geostratégico e o papel dos Estados e nações; as revoluções digital e biotecnológica, a crise climática e a transição energética para as renováveis; o desafio demográfico, o consumo dos recursos do planeta, a medicina e a saúde; e, por fim, a emergência de uma consciência global que transcende fronteiras.»

domingo, 28 de agosto de 2011

Civilização disfuncional

No capítulo do livro do qual extraí o texto que se segue, de 1992, o autor compara a civilização humana a uma família disfuncional, com a convivência entre os elementos agressores e as vitimas que sofrem, e a tendência predadora de expansão das civilizações disfuncionais.
No fundo, uma civilização doente que se recusa a enxergar as causas óbvias da sua doença e continua a procurar avidamente anestesiar-se com, precisamente, aquilo que a adoece.

"Há no coração de todas as sociedades humanas uma teia de histórias que tentam responder às nossas questões mais básicas: quem somos e porque estamos aqui? Mas à medida que o padrão destrutivo da nossa relação com a natureza se torna cada vez mais claro, começamos a interrogarmo-nos se as velhas histórias ainda fazem sentido, e, por vezes, chegámos mesmo a inventar histórias completamente novas sobre o significado e o objectivo da civilização humana.
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No mundo moderno, a divisão entre espírito e corpo, homem e natureza, criou um novo vício: penso que a nossa civilização está, de facto, viciada no consumo da própria Terra.
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Do mesmo modo que as crianças não podem rejeitar os pais, cada nova geração da nossa civilização sente-se hoje totalmente dependente da própria civilização. Os alimentos nas prateleiras dos supermercados, a água das torneiras das nossas casas, o abrigo e o sustento, o vestuário e o trabalho compensador , os divertimentos, até a nossa identidade - tudo isto é fornecido pela civilização e nem sequer nos atrevemos a pensar em nos separarmos de tal abundância.
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O ataque sem precedentes sobre o mundo natural feito pela civilização global é também extremamente complexo e muitas das suas causas estão especificamente relacionadas com os contextos geográficos e históricos dos muitos pontos de ataque. Mas em termos psicológicos, a nossa rápida e agressiva expansão sobre o que ainda resta da vida selvagem da terra representa um esforço para roubar fora da civilização aquilo que não encontramos dentro dela. O nosso impulso insaciável para procurar bem no fundo da superfície da Terra, retirar todo o carvão, petróleo e outros combustíveis fósseis que possamos encontrar e queimá-los em seguida tão rapidamente como os encontramos - enchendo assim a atmosfera de de dióxido de carbono e outros poluentes - é uma expansão internacional da civilização disfuncional para zonas vulneráveis do mundo natural. E a destruição da maior parte das florestas tropicais e das florestas antigas por parte da civilização industrial é um exemplo especialmente assustador da expansão agressiva para além de fronteiras admissíveis, um impulso insaciável de encontrar soluções exteriores para problemas que têm origem num padrão disfuncional intrínseco.

Ironicamente, a Etiópia, a primeira vítima da expansão totalitária moderna, também já foi vítima do padrão disfuncional que nos conduziu ao ataque ao mundo natural. No fim da Segunda Guerra Mundial, depois de os fascistas italianos terem sido expulsos, 40% do solo da Etiópia estava coberto e protegido por árvores. Menos de meio século mais tarde, depois de décadas marcadas pela expansão populacional mais rápida do mundo, por uma procura de lenha, pelo abuso das pastagens e pela exportação de madeiras para pagar juros e dívidas, menos de 1% da Etiópia está coberto de árvores. Primeiro, a maior parte do solo arável foi arrastada pelas águas; depois, vieram as secas - e lá ficaram. Os milhões que morreram à fome são, em sentido real, vítimas das tendências expansionistas da nossa civilização disfuncional.

Ao estudar as hipóteses de deter esta expansão destrutiva, ficamos quase aterrorizados pelo impulso implacável e aparentemente compulsivo de dominar todas as partes da Terra. As necessidades não satisfeitas da civilização alimentam o motor da agressão; estas necessidades nunca podem ser verdadeiramente satisfeitas. A área invadida é totalmente devastada, a sua produtividade natural esgotada, os seus recursos saqueados e rapidamente consumidos e toda esta destruição limita-se apenas a abrir o nosso apetite por mais.

Os membros mais fracos e mais impotentes da família disfuncional transformam-se nas vítimas de maus-tratos às mãos dos que são responsáveis por fornecer cuidados. De modo semelhante, abusamos sistematicamente das áreas mais vulneráveis e menos defendidas do mundo natural: as áreas húmidas, as florestas tropicais, os oceanos. Também maltratamos outros membros da família humana, especialmente aqueles que não se podem defender. Toleramos o roubo de terras aos povos indígenas, a exploração de áreas habitadas pelas populações mais pobres e - pior do que tudo - a violação dos direitos dos que virão depois de nós. À medida que esgotamos a terra a um ritmo completamente insustentável, fazemos com que seja impossível que os filhos dos nossos filhos tenham um nível de vida que se compare, mesmo remotamente, ao nosso.
Em termos filosóficos, o futuro é, afinal de contas, um presente vulnerável e em desenvolvimento e o desenvolvimento insustentável é, portanto, aquilo a que se pode chamar uma forma de «maltratar o futuro».
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Mas há uma saída. Não é necessário que um padrão de disfuncionalidade persista indefinidamente e a chave da mudança é a crua luz da verdade
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E, como Alice Miller e outros peritos mostraram, o acto de chorar a perda original enquanto se sente, total e conscientemente, a dor que se causou pode curar a ferida e libertar a vítima de mais escravização. Igualmente, se a crise do ecossistema global tem origem no padrão disfuncional do relacionamento da nossa civilização com o mundo natural, enfrentar e compreender esse padrão na sua totalidade e reconhecer o seu impacto destrutivo no ambiente e em nós, é o primeiro passo para chorar aquilo que perdemos, curar os males que fizemos à Terra e à nossa civilização e aceitar a nova história do que significa ser o guardião da Terra."

Extraído do capítulo "A Civilização Disfuncional" do livro "A Terra à procura de Equilíbrio, ecologia e espírito humano" , Al Gore, 1992 ("Earth in Balance"), Editorial Presença, 1993, tradução de Isabel Nunes

(Nota: os negrito são meus, os links  são sugestões minhas; as imagens foram obtidas na Internet)

terça-feira, 29 de março de 2011

Sementes de privação ou a destruição do jardim do paraíso

O texto abaixo transcrito é de parte de um capítulo de um livro escrito há cerca de 20 anos. De lá para cá, todos os problemas graves para que o autor alertou, pioraram, e muito. De facto, continua-se a destruir o jardim do paraíso, extinguindo, em aceleração contínua, cada vez mais espécies e variedades de vida.   
Numa altura em que é urgente e importante restabelecer a biodiversidade alimentar perdida ou em riscos de se perder definitivamente, a Comissão Europeia pretende restringir o comércio de variedades de sementes (ver em Zona Livre de OGM), passando a só poder ser comercializadas (pagando licença) as espécies e variedades que as grandes empresas abusivamente patentearam. Uma Comissão Europeia que assim age na defesa dos interesses de certas empresas contra a natureza e contra a humanidade, ou é ignorante ou é vendida. É preciso que isto se saiba! 

Ajude na luta contra a privatização das sementes! Assine e divulgue a petição lançada pela Campanha Europeia pelas Sementes Livres.

"Sementes de privação

Não há nada que nos ligue mais profundamente à Terra - aos seus rios e terrenos e às suas épocas de abundância - do que os alimentos. São eles que nos recordam diariamente a nossa ligação ao milagre da vida. Portanto, não é de admirar que a maior parte das religiões do mundo exijam a consagração dos alimentos antes de transformarem no sustento da vida.
Mas quantas pessoas sentem ainda essa ligação? A maioria de nós já não produz aquilo que come, confiando antes num enorme e complexo sistema que coloca uma surpreendente variedade de alimentos de todos os cantos do mundo nos supermercados.
(...)
A história da agricultura está intimamente ligada à história da humanidade. Cada aumento do tamanho dos povoamento foi acompanhado de uma sofisticação do esforço cooperativo para produzir, armazenar  e distribuir quantidades de alimentos cada vez maiores.
(...)
Contudo, o sistema global que produz as enormes colheitas hoje necessárias enfrenta uma verdadeira ameaça estratégica. Malthus preocupava-se com o abastecimento de alimentos; hoje devíamos preocuparmo-nos ainda mais com o abastecimento de sementes. Cada semente (e cada planta) transporta aquilo a que se chama idioplasma; contém não apenas genes mas todas as qualidades especiais que controlam a herança, definem o modo como os genes funcionam e fixam padrões através dos quais se combinam e expressam as suas características - nas palavras de Steve Witt, «a matéria da vida». Mas a saúde futura do abastecimento de alimentos depende de uma grande variedade deste material insubstituível e hoje arriscamo-nos a destruir o idioplasma que é essencial à viabilidade constante das colheitas. A resistência genética das colheitas à destruição maciça por doenças, pragas e alterações climáticas é crucial a qualquer abastecimento alimentar.
(...)
Na verdade, as fontes primitivas de todas as nossas colheita principais estão a ser sistematicamente destruídas. Os agrónomos só agora estão a compreender este perigo;
(...)
A biotecnologia está, sem dúvida, a criar novas variedades de culturas de características impressionantes, como uniformidade, alta produtividade e até resistência natural a doenças e pragas. Mas temos estado cegos a uma dura verdade: as novas variedades de culturas que criamos nos laboratórios tornam-se rapidamente vulneráveis aos seus inimigos naturais, que evoluem rapidamente, por vezes após algumas estações. Embora a sua resistência genética seja reforçada com novos genes, que se juntam às variedades comerciais de tempos a tempos, muitos dos genes próprios para reabastecer a vitalidade das culturas apenas existem na natureza primitiva.
(...)
O que é inquietante nestas evoluções não é o envolvimento de companhias multinacionais de produtos químicos em si. Estas têm capacidade empresarial, recursos e outras capacidades que poderão ser úteis para enfrentar alguns problemas estratégicos que afectam o sistema alimentar mundiasl. Contudo, as estratégias que algumas companhias seguem neste momento reflectem o pressuposto de que somos suficientemente inteligentes para dirigir o percurso evolucionário de importantes plantas e obter benefícios a curto prazo, sem pagar um altíssimo preço a longo prazo.
Mas não somos assim tão inteligentes, nem nunca o fomos. Na realidade, a agricultura continua assombrada por acordos faustianos, feitos quando se introduziram tecnologias mais antigas, muitas das quais menos sofisticadas do que a moderna engenharia genética. Veja-se o exemplo dos pesticidas: não matam só pragas prejudiciais, também matam muitas que são benéficas, destruindo assim o padrão natural de um ecossistema e fazendo mais mal que bem. O ecologista Amory Lovins conta uma história especialmente inquietante de como se usou na Indonésia um pesticida muito forte para matar os mosquitos que espalhavam a malária; a pulverização matou também as minúsculas vespas que controlavam a população de insectos nos telhados de colmo das casas. Passado pouco tempo, os telhados ruíram. Entretanto, milhares de gatos morreram igualmente, envenenados pelo pesticida e, depois da sua morte, a população de ratazanas, por sua vez, trouxe uma epidemia de peste bubónica.
Mesmo sem efeitos colaterais catastróficos, as pragas prejudiciais desenvolvem frequentemente imunidades com muita rapidez, o que encoraja os agricultores a usar doses maiores de pesticida. E os escoamentos agrícolas levam os resíduos para os reservatórios de água subterrânea e para os ribeiros, de onde passam os pássaros e peixes. Estes perigos não são novos: Silent Spring, o livro de Rachel Carson que marcou uma época, avisava eloquentemente a América e o mundo em 1962 dos perigos que os pássaros migratórios e outros elementos do ambiente natural corriam devido aos escoamentos agrícolas.
(...)
Os métodos de cultivo modernos não são, porém, a única fonte de abuso do sistema global. O abuso das pastagens é uma importante causa de desertificação, assim como a recolha de lenha para cozinhar os alimentos por parte de uma população em crescimento. A manipulação genética de animais, que ainda não está tão desenvolvida como nas plantas, começa, no entanto, a provocar preocupações semelhantes, bem assim como o uso de hormonas artificiais no gado.
Particularmente alarmante é o número de provas de que estamos a esgotar muitos dos pesqueiros mais importantes do mundo: desde 1950 a quantidade total de pescado a nível mundial aumentou 500% e parte-se do princípio de que é mais elevado do que o ritmo de reposição, na maior parte das áreas. E está a desaparecer completamente um número cada vez maior de espécies valiosas do ponto de vista alimentar. O uso de redes de arrasto de malha fina com mais de cinquenta quilómetros de comprimento, que limpam os oceanos, provocou recentemente -  e com toda a justeza - grandes protestos públicos; mesmo sem redes de arrasto, as frotas pesqueiras estão a fazer um assalto geral à produtividade dos oceanos em todo o mundo.
(...)
Mas a ameaça estratégica isolada mais séria ao sistema alimentar mundial é a da erosão genética: a perda de idioplasma e vulnerabilidade cada vez maior das culturas alimentares em relação aos seus inimigos naturais. Ironicamente, esta perda de resistência e flexibilidade genética ocorre precisamente no momento em que os que acreditam que podemos adaptarmo-nos ao aquecimento global também defendem que podemos conceber novas plantas que se desenvolverão nas imprevisíveis condições que estamos a criar. Mas os cientistas nunca criaram um novo gene. Limitam-se a recombinar genes que se encontram na natureza e é este fornecimento de genes que está hoje tão ameaçado.

A nossa incapacidade de fornecer protecção adequada à reserva alimentar do mundo é, na minha opinião, simplesmente mais uma manifestação do mesmo erro filosófico que levou à crise ambiental global no seu todo: partimos do princípio de que as nossas vidas não necessitam de uma ligação real ao mundo natural, de que o nosso espírito está separado do corpo, e de que, quais intelectos sem corpo, podemos manipular o mundo da forma que quisermos. Exactamente porque não sentimos qualquer ligação ao mundo físico, minimizamos as consequências das nossas acções. E porque esta ligação parece abstracta, só com muita lentidão compreendemos o que significa destruir as partes do ambiente que são vitais à nossa sobrevivência. Na verdade, estamos a destruir o Jardim do Paraíso."

Extraído do capítulo "Sementes de Privação" do livro "A Terra à procura de Equilíbrio, ecologia e espírito humano" , Al Gore, 1992 ("Earth in Balance"), Editorial Presença, 1993, tradução de Isabel Nunes
 (Nota: o negrito é meu; as imagens foram obtidas na internet)

domingo, 28 de junho de 2009

1º passo para aprovação de Lei Climática nos EUA

Sexta-feira foi aprovada na Câmara do Representantes dos EUA, uma lei climática com vista à redução das emissões de CO2. Desde a sua apresentação, em Maio, a proposta sofreu muitas modificações para que fosse possível obter consenso. Nos últimos dias, Hillary Clinton e Al Gore fizeram apelos aos indecisos. Fica aqui o apelo de Al Gore. A lei ainda terá de passar no Senado.
(Fontes: Público -Ecosfera, Blog do Juscelino)



Não sei se a proposta será suficientemente ambiciosa. Também não sei se passará no Senado. Mas é concerteza, um primeiro passo.