Mostrar mensagens com a etiqueta consumo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta consumo. Mostrar todas as mensagens

domingo, 26 de novembro de 2017

O Decrescimento

O conceito do Decrescimento (Decroissance em francês, Degrowth, em inglês) assenta no facto de o crescimento económico ser insustentável no ecossistema global, pois o planeta é finito e os recursos  naturais limitados, pelo que não é possível o crescimento infinito. Por oposição, o pensamento económico dominante considera que a melhoria do nível de vida só depende do aumento do PIB, promovendo o perpétuo crescimento  económico.

Imagem obtida aqui
«O decrescimento é um conceito social, político e económico e defende a redução da produção e do consumo uma vez que considera o excesso de consumo como a principal causa dos problemas ambientais e de desigualdade social.»

Esta é a definição constante de um documento resumo
elaborado por  Luís Coentro (novembro 2017), da Rede Transição Portugal, no qual se encontra informação acessível sobre o movimento do Decrescimento, a sua história, exemplos de soluções e obstáculos. 

Também encontram informação sobre este tema em português no blogue Decrescimento.

Abaixo, o vídeo "Dessine-moi l'éco: la décroissance, une solution à la crise? (O Decrescimento, uma solução para a crise), da série francesa Dessine moi l'éco, que acabo de legendar em português.


terça-feira, 19 de maio de 2015

"O Império do Consumo", por Eduardo Galeano

"A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe por conta, fica duplamente bêbado. A farra aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.  Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da procura choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina no ecrã do televisor. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. 

Imagem obtida aqui
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.  Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insónia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é pouca coisa quando se tem em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevideu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».  Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezasseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente do pequeno ecrã, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: essa indústria está a conquistar os paladares do mundo e está a demolir as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um património coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato do mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.  As filas na frente do McDonald´s de Moscovo, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloquência quanto a queda do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.

Imagem obtida aqui
As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.  Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.  Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece.


Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.  Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos. As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

Quando o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas?Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de autocarros e de combóios, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se a transformar, agora, em espaços de exibição comercial.

O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.  Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efémero, condena tudo à descartabilidade mediática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.  Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta."

O Império do Consumo, por Eduardo Galeano (1940-2015)

Fonte em português (com algumas adaptações):  Carta Maior (Blog do Emir), 17/01/2007  

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A arma secreta do marketing

Para além das técnicas de marketing que muitos conhecem, este vídeo (produzido pela "Catsnake Films" para a "Compassion in World Farming") expõe o principal segredo. Apesar de a protagonista ser uma atriz (Kate Miles), a audiência só o soube no final. Seja como for, o que ela diz sobre a indústria alimentar é a pura realidade, e sobre a tal "arma secreta", não me parece que restem dúvidas. (O vídeo tem legendas)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Presentes sustentáveis

Quer ideias de presentes sustentáveis? Presentes que em vez de aumentar a sua pegada ecológica, a diminuem? Então espreite as sugestões da Sónia Da Veiga no blogue irmão deste:


A Sónia propõe prendas de Natal sustentáveis, mas são também excelentes ideias para presentes de aniversário, para presentes inesperados, e até mesmo para se presentear a si próprio!

    segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

    Quer ser um bom consumidor?

    Hoje em dia, somos considerados "consumidores" como se o nosso papel nesta vida fosse "comprar" e não viver! Com as desculpas de que precisamos de consumir para estimular a economia e para estarmos "na moda", a publicidade e todo um sistema económico falhado impingem-nos incessantemente necessidades falsas. E quanto mais consumimos, mais recursos gastamos, mais lixo produzimos. E enquanto os recursos do planeta são esgotados pela civilização do consumo, outras civilizações, sobretudo no hemisfério sul, são privadas de viver com o mínimo à medida que são invadidas pela acção predadora e devastadora de grandes corporações.

    Já é tarde para que se comece a pensar com a própria cabeça, mas mais vale tarde que nunca. No entanto, a crise (que ainda está no princípio) irá ser a ferramenta mais poderosa para lutar contra essa lavagem ao cérebro que nos fazem desde que nascemos.

    domingo, 4 de setembro de 2011

    De que lado está nesta partida?

    Imagem obtida em Fiojovem
    O texto que se segue é de Março 2009, da autoria de um escritor brasileiro, António Brás Constante, e foi-me enviado pela Emília Pinto, do blogue conterrâneo Começar de Novo, onde também já o publicou. 



    Desde o tempo em que os misteriosos mecanismos evolutivos permitiram a existência da raça humana neste mundo, sem perceber começamos a participar de uma partida pelo futuro da Terra, pelo nosso futuro, e pelo futuro daqueles que amamos.

    Nesta disputa o nome “partida” define bem o que está acontecendo ao nosso redor, pois vários animais estão partindo rumo a derradeira extinção. Troncos de árvores vão sendo partidos em nome da ambição. O solo está se partindo sob nossos pés, vítima da implacável erosão, causada por nossos atos insensatos. Mas principalmente, estamos partindo para um caminho sem volta no que diz respeito à salvação do meio ambiente e, conseqüentemente, de nossas vidas.

    Realmente parece que não estamos entendendo (ou querendo entender) o jeito correto de se participar desta competição, e isso é péssimo, pois para se competir, é desejável que os participantes demonstrem um mínimo de aptidão e competência (algo que parece estar nos faltando). Se alguém dúvida, basta olhar para o nosso comportamento, como por exemplo: mesmo sabendo dos recursos finitos em nosso planeta, estamos sempre jogando fora tudo o que aparentemente já não serve aos nossos caprichos superficiais, demonstrando muito pouco interesse em elaborar, aperfeiçoar ou mesmo praticar formas de reciclagem, que tentem aproveitar o que já tiramos da natureza através da reutilização de materiais.

    Estamos competindo por nossa sobrevivência de forma individual, ignorando regras essenciais ao bem-estar geral, talvez por acharmos que não exista uma punição para estes tolos atos irresponsáveis. Quantos rios terão que morrer para criarmos consciência da importância de mudar nosso comportamento frente à utilização dos recursos naturais? Quantas florestas necessitarão ser devastadas para percebermos o quanto estamos errados? Quanto tempo ainda irá demorar até conseguirmos escutar os apelos de socorro da natureza?

    Somos Bilhões de indivíduos vivendo em uma sociedade consumista, pensando de forma egoísta coisas do tipo: “eu posso deixar a luz acesa”, “eu posso deixar a torneira aberta”, “eu posso jogar lixo na rua”, etc. E assim o ser humano vai poluindo, esbanjando e destruindo os recursos que estão a sua disposição, por achar que não precisa fazer a sua parte para evitar o desperdício. E com isso contribui para agravar cada vez mais a derrocada de todos, empurrando-nos diretamente ao precipício.

    Para piorar a situação, a cada dia aumentamos o número de jogadores em campo, sem perceber que quanto mais jogadores nascem pior o jogo fica para todos, pois os recursos são limitados frente a um consumo cada vez mais desenfreado.

    Muitos chamam a natureza de mãe, mas agem com ela como verdadeiros filhos da mãe. Atuando como seres ingratos, que não sabem retribuir tudo que recebem de seu ventre de terra no qual pisamos, e por onde a vida corre em forma de água cristalina, bem como se renova de tantas maneiras milagrosas o ar que se respira, isso entre tantos outros presentes que destruímos tal qual crianças mimadas, que não sabem dar o devido valor ao que tem.

    Gastamos tempo e dinheiro construindo piscinas para diversão, mas somos incapazes de construir reservatórios que captem a chuva, visando a preservação. Nos calamos frente à ganância mundial que impede a criação de fontes alternativas de combustível, obrigando-nos a continuar envenenando o meio ambiente para que eles possam continuar lucrando com seus gigantescos poços de petróleo inglório.

    Enfim, neste campeonato com trejeitos de guerra, onde o inimigo utiliza alcunhas como “desmatamento” e “poluição”, devemos rever nossas ações e atitudes, deixando de agir como atacantes vendidos, que ficam ajudando o time adversário, passando a atuar na defesa e preservação da natureza, pois somente assim poderemos ganhar uma chance de futuro. Caso contrário, ao invés de desenvolvimento, seremos a primeira espécie a ser algoz de sua própria extinção."

    segunda-feira, 25 de julho de 2011

    Telemóveis de Sangue

    Ouvi hoje um anúncio na SIC Notícias a uma reportagem que irá dar esta noite às 2:00 da madrugada, nesse canal, intitulada "Telemóveis de Sangue". Pesquisei na Internet para confirmar, mas em lado nenhum encontrei qualquer informação a confirmar a programação. De qualquer modo, programei a gravação do programa "Toda a Verdade" previsto para essa hora. Sem quaisquer certezas.

    Já falei aqui sobre o coltan, um minério usado em aparelhos electrónicos, como telemóveis e computadores portáteis, com uma forte procura devido às suas propriedades. A maior parte das reservas mundiais de coltan estão na República Democrática do Congo, onde crianças fazem trabalho escravo, pessoas são mortas e torturadas por causa da guerra alimentada pelos lucros brutais da extracção deste minério. De quem é a culpa? De muitos, de nós todos que compramos telemóveis e computadores. Tenhamos pelo menos a coragem de saber até que ponto somos responsáveis por esta situação. De certeza que depois não trocaremos de telemóvel ou computador com tanta facilidade. 

    Não sei se a reportagem será, como o nome indica, o filme "Blood in the Mobile" de Frank Piasecki Poulsen - 2010 (trailer no vídeo de cima), ou se será o "Blood Coltain" de Patrick Forestier - 2007 (reportagem no vídeo de baixo, em inglês), ou se será alguma outra reportagem sobre o tema. 





    quinta-feira, 16 de junho de 2011

    Consumo consciente

    O Instituto Akatu (Brasil), sob o lema "Consuma sem consumir o mundo em que você vive", define assim os 12 Princípios do Consumo Consciente:

    1. Planeie suas compras
    Não seja impulsivo nas compras. A impulsividade é inimiga do consumo consciente. Planeie antecipadamente e, com isso, compre menos e melhor.

    2. Avalie os impactos de seu consumo
    Leve em consideração o meio ambiente e a sociedade em suas escolhas de consumo.

    3. Consuma apenas o necessário
    Reflicta sobre suas reais necessidades e procure viver com menos.

    4.Reutilize produtos e embalagens
    Não compre outra vez o que você pode consertar, transformar e reutilizar.

    5.Separe seu lixo
    Recicle e contribua para a economia de recursos naturais, a redução da degradação ambiental e a geração de empregos.

    6.Use crédito conscientemente
    Pense bem se o que você vai comprar a crédito não pode esperar e esteja certo de que poderá pagar as prestações.

    7.Conheça e valorize as práticas de responsabilidade social das empresas
    Em suas escolhas de consumo, não olhe apenas preço e qualidade do produto. Valorize as empresas em função de sua responsabilidade para com os funcionários, a sociedade e o meio ambiente.

    8. Não compre produtos piratas ou contrabandeados
    Compre sempre do comércio legalizado e, dessa forma, contribua para gerar empregos estáveis e para combater o crime organizado e a violência.

    9. Contribua para a melhoria de produtos e serviços
    Adopte uma postura activa. Envie às empresas sugestões e críticas construtivas sobre seus produtos e serviços.

    10. Divulgue o consumo consciente
    Seja um militante da causa: sensibilize outros consumidores e dissemine informações, valores e práticas do consumo consciente. Monte grupos para mobilizar seus familiares, amigos e pessoas mais próximas.

    11. Cobre dos políticos
    Exija de partidos, candidatos e governantes propostas e acções que viabilizem e aprofundem a prática de consumo consciente.

    12. Reflicta sobre seus valores
    Avalie constantemente os princípios que guiam suas escolhas e seus hábitos de consumo.
     
    Recuso-me a ser considerada ou denominada como "consumidora", só porque sou obrigada a "consumir". Assim como me recuso a ser chamada de "dormidora" só porque sou obrigada a dormir. Na realidade, todos consumimos, pois todos temos necessidades que precisam ser atendidas. Uns consomem o estritamente necessário, outros são verdadeiros "consumidores". Uns têm a preocupação de escolher o que consomem com critérios ambientais e éticos, outros não querem saber. Mas afinal, o que é consumo consciente? O texto que se segue, transcrito da página de HowStuffWorks, explica:

    "O que é consumo consciente?

    A idéia básica do consumo consciente é transformar o ato de consumo em uma prática permanente de cidadania. O objetivo de consumo, quando consciente, extrapola o atendimento de necessidades individuais. Leva em conta também seus reflexos na sociedade, economia e meio ambiente.

    E os reflexos podem ser positivos ou negativos. Ao comprar produtos de uma empresa que utiliza trabalho escravo, por exemplo, o consumidor financia essa prática abominável. Por outro lado, se comprar alimentos orgânicos ou de comércio justo, contribuirá com setor da economia que não utiliza substâncias tóxicas em sua produção e que não agride o meio ambiente.

    Aquela velha prática de “lavar as mãos”, de encontrar um culpado pelas mazelas do mundo, é inválida no consumo consciente. Se algo está errado, todos têm uma parcela de responsabilidade.

    A escassez de recursos naturais, nesse sentido, não pode ser atribuída somente às empresas, pois foram os consumidores que financiaram sua exploração.

    Por isso, é fundamental estar bem informado sobre os produtos e serviços que serão adquiridos ou contratados. O poder de transformação social está nas mãos dos consumidores, e cabe a eles escolher como fornecedoras empresas éticas, que respeitam os direitos humanos e os limites naturais do planeta. "

    sexta-feira, 18 de março de 2011

    O último segundo

    Em Dezembro de 2009 foi aqui publicado o trailer do documentário The 11th Hour, em Portugal traduzido para A 11ª Hora, no Brasil para A Última Hora. O filme, que foi lançado nos cinemas em 2007, passou em 2009 na RTP2 e em Janeiro passado na RTP1. Para quem não viu ou quer rever, fica aqui a primeira parte da versão dobrada em português (Brasil) que está actualmente disponível no Youtube, e a ligação para as outras em 8 partes. 

    "Um impressionante testemunho do quanto as atividades humanos estão a contribuir para alterar o clima do planeta. Produzido e narrado por Leonardo Di Caprio, conta com a participação e o testemunho de dezenas de conceituados cientistas nesta luta pelo restabelecimento do equilíbrio da relação entre a humanidade e os ecossistemas. o documentário mostra os desastres naturais causados pela humanidade e mostra o que pode ser feito para reverter os problemas, entrevistando mais de 50 pessoas, como o cientista Stephen Hawking e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev." Fonte: RTP

    Se se comprimisse a história da Terra (4,56 mil milhões de anos até hoje) num só ano, com a formação do planeta no dia 1 de Janeiro, as primeiras formas de vida terão surgido em Março, os primeiros animais em meados de Novembro, e os primeiros hominídeos já na noite do dia 31 de Dezembro. Nessa escala, a nossa espécie terá aparecido no último minuto, e a era industrial no último segundo do dia 31 de Dezembro. Muito se "evoluiu" e muito se estragou nesse último segundo!



    Actualização 2012/03/04: Versão original com legendas em português em  http://youtu.be/rzznZ1kNIlI

    domingo, 6 de março de 2011

    Nascidos para morrer cedo

    Não se admire se o seu aparelho comprado há pouco mais de dois anos avariar, agora que está fora da garantia, e quando o quiser arranjar lhe disserem que mais vale comprar um novo: é que é esse o motor da economia moderna: as coisas são feitas para usar e deitar fora. Se quiser aprofundar o tema, veja o documentário  Comprar, Tirar, Comprar (abaixo incorporado) emitido pela TVE e leia a mensagem de Mab no blogue O Único Planeta que Temos.

    sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

    Os jovens e o consumo - mensagem do GEOTA

    Porque a mensagem é muito importante para uma mudança urgente na sociedade, publico a seguir o comunicado do GEOTA - Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, que se constituiu legalmente em 1986 como associação de defesa do ambiente de âmbito nacional, mas cuja existência enquanto grupo de reflexão e educação na área do ambiente remonta a 1981. E fica desde já um agradecimento à Ana Teresa por me ter enviado um e-mail alertando para a necessidade de divulgação deste comunicado.

    O GEOTA - Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente sugere que no Programa para a Juventude, que foi objecto, no dia 14 de Fevereiro de 2011, de debate na Assembleia da República,se introduza o tema "Os Jovens  e o Consumo".
    As solicitações crescentes a que os jovens estão sujeitos, actualmente,  obrigam a uma maior consciência e discussão sobre todas as realidades a  que o jovem está exposto, incluindo os assédios constantes da  publicidade, da moda e do mercado.
    No quotidiano, sentem-se  encurralados entre as exigências do mercado de trabalho e os ditames  da publicidade e do mercado de consumo, deixando uma pequena margem de manobra  para a sua identidade, felicidade e realização pessoal.
    Devemos lançar a discussão sobre o auxílio a prestar aos jovens e às  famílias face ao assédio constante a que estão sujeitos por parte da  indústria do marketing e das grandes empresas, que deixa pouco espaço  para a individualidade e para a diferença, obrigando a um gasto  excessivo para manter a aparência da modernidade, da juventude, da  novidade e da pertença ao grupo.
    O processo de autonomia do jovem  passa não apenas pelo crescimento e autonomia face à família e a  sociedade, mas também face aos ditames da moda e do mercado.
    Esta é  também uma questão de saúde pública que não deve ser evitada e  perguntamos não deverá o Estado auxiliar os jovens e as famílias nesta  difícil tarefa?
    Queremos jovens saudáveis, cultos, interessados, que contribuam  positivamente para a sociedade, nomeadamente através do voluntariado,  e não jovens permanentemente insatisfeitos na busca incessante por  objectos não essenciais.
    Os jovens devem estar preparados e saber que  um consumidor consciente  deve estar atento a todas as implicações  sociais, económicas e ambientais de cada gesto de consumo, nomeadamente à decadência actual de todos os ciclos de vida provocada pelo excesso de consumo, e deve  conhecer o poder do consumidor e, em especial, dos jovens consumidores.
    Queremos empresas responsáveis e campanhas éticas que respeitem os consumidores, jovens e menos jovens, através da transparência, sustentabilidade, rigor e sentido cívico dos bens que promovem. Essa consciência ética deve ultrapassar, inclusive, os aspectos ligados à gestão ambiental das empresas, mas entroncar numa abordagem mais abrangente do desenvolvimento sustentável e da solidariedade intergeracional. Esta posição, portanto, não é contra as empresas, grandes ou pequenas, qualquer que seja a sua natureza. É, antes, contra as entidades (sejam grandes ou pequenas) que tenham mau desempenho ambiental, onde se inclui (nesse mau desempenho) fomentar nos seus clientes práticas pouco amigas do ambiente. Nós estamos contra a publicidade enganosa, onde se inclui aquela que mascara parte do problema, fazendo uma cosmética, contando meias verdades.
    Os jovens devem ser, desde pequenos, ensinados a saber que cada um por si e todos juntos, podem fazer a diferença. Jovens consciências conduzem a cidadãos responsáveis, a democracias duradouras e a economias saudáveis.
    Para  isso, solicitamos que seja introduzida a presente questão na agenda da  Política de Juventude: "Estamos a criar cidadãos ou consumidores?"
    GEOTA, Lisboa, 14 de Fevereiro de 2011

    segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

    A Pegada Humana USA - parte 2

    Há cerca de um ano, deixei aqui a primeira parte do documentário da  "National Geographic: The Human Footprint USA", que tinha passado recentemente na RTP2. Um excelente documentário que mostra de uma maneira fácil de entender, o que consumimos ao longo de uma vida: as toneladas que comemos, as embalagens que usamos, a roupa que vestimos, o lixo que produzimos...

    Agora, ficam aqui os vídeos que compõe a 2ª parte do documentário, e onde ficamos com uma noção do que se gasta  na construção de uma casa, nos automóveis, em gasolina, carvão...  a pegada de carbono... o impacto na natureza e biodiversidade...

    O documentário é aplicado aos americanos, que têm uma pegada ecológica equivalente a mais de 5 planetas.... são bem mais consumidores que os europeus, mas nós também gastamos muito mais planeta do que a nossa quota parte... por isso, vamos lá tentar perceber porque precisamos de tantas coisas... será que precisamos mesmo de consumir tanto? Eu acho que não... foi apenas uma questão cultural de um século que já passou e que ainda deixa as suas pegadas devastadoras!  Está na hora de pensar... e  mudar!










    sábado, 11 de dezembro de 2010

    "Não é o fim do mundo, apenas o fim do consumismo"

    "A sociedade está prestes a sofrer uma mudança forçada, a curto prazo, porque o consumo de energia e economia são quase a mesma coisa. E estamos prestes a deixar de ter a energia barata que permitiu a expansão económica descontrolada do século passado.

    Existe por aí um mito, diz Krumdieck, que em cada década, tem havido crescimento económico porque nos tornamos colectivamente mais inteligentes e mais produtivos. Se tudo é maior, melhor e mais brilhante, então, foi merecido.

    No entanto, na verdade, o que fizemos foi desenterrar e queimar cada vez mais combustíveis fósseis. O gráfico de consumo de energia do mundo e o seu produto interno bruto (PIB) são duas linhas paralelas. Então, desça ao âmago da questão, à razão de tudo. Conversão do petróleo ou do carvão em sapatos, hambúrgueres, telemóveis e SUV’s.

    No entanto, está a chegar o ajuste de contas. Os limites ecológicos do crescimento estão à vista. As alterações climáticas e a sobre-população.  E, de forma mais imediata, o pico do petróleo."

    Tradução (livre) de parte do artigo "End of Consumerism", obtido em The Oil Drum . Negrito e sublinhado meu

    Não vai ser o fim do mundo, mas vai ser o fim da civilização como a conhecemos. E não vai ser fácil, nada fácil, sobretudo para as comunidades e países que não fizerem a Transição para um modo de vida menos dependente do petróleo...

    segunda-feira, 29 de novembro de 2010

    Estado do Mundo 2010 - Ascensão e queda das culturas de consumo

    O relatório do Estado do Mundo 2010 - Transformando Culturas - Do Consumismo à Sustentabilidade, produzido pelo World Watch Institute,  foi  traduzido para português (do Brasil) pelo Instituto Akatu  e está disponível para download na respectiva página.

    Os parágrafos que transcrevo a seguir são extractos do capítulo "Ascensão e Queda das Culturas de Consumo", por Erik Assadourian

    "...
    O consumo teve um crescimento tremendo nos últimos cinquenta anos, registrando um aumento de 28% em relação aos US$ 23,9 trilhões gastos em 1996 e seis vezes mais do que os US$ 4,9 trilhões gastos em 1960 (em dólares de 2008). Parte desse aumento é resultante do crescimento populacional, mas o número de seres humanos cresceu apenas a uma razão de 2,2 entre 1960 e 2006. Sendo assim, os gastos com consumo por pessoa praticamente triplicaram.
    Como o consumo aumentou, mais combustíveis, minerais e metais foram extraídos da terra, mais árvores foram derrubadas e mais terra foi arada para o cultivo de alimentos (muitas vezes para alimentar gado, visto que pessoas com patamares de renda mais elevada começaram a comer mais carne). Entre 1950 e 2005, por exemplo, a produção de metais cresceu seis vezes, a de petróleo, oito, e o consumo de gás natural, 14 vezes. No total, 60 bilhões de toneladas de recursos são hoje extraídas anualmente – cerca de 50% a mais do que há apenas 30 anos. Hoje, o europeu médio usa 43 quilos de recursos diariamente, e o americano médio, 88 quilos. No final das contas, o mundo extrai o equivalente a 112 edifícios Empire State da Terra a cada dia. 
    A exploração desses recursos para a manutenção de níveis de consumo cada vez mais altos vem exercendo pressão crescente sobre os sistemas da Terra, e esse processo vem destruindo com grande impacto os sistemas ecológicos dos quais a humanidade e incontáveis outras espécies dependem.
     ...
    E a mudança climática é apenas um dos muitos sintomas de níveis excessivos de consumo. A poluição do ar, a destruição média de 7 milhões de hectares de floresta por ano, a erosão do solo, a produção anual de mais de 100 milhões de toneladas de dejetos perigosos, práticas trabalhistas abusivas movidas pelo desejo de produzir bens de consumo em maior quantidade e a preço mais baixo, obesidade, estresse crescente – a lista poderia continuar indefinidamente. Todos esses problemas são quase sempre tratados em separado, ainda que muitas de suas raízes remontem aos atuais padrões de consumo. 
    Além de serem acima de tudo excessivos, os níveis de consumo moderno são altamente enviesados, e, entre os ricos, assumem responsabilidade desproporcional pelos males ambientais de nossos dias.
     ...
    O consumismo está hoje infiltrado de modo tão absoluto nas culturas humanas que, por vezes, fica até difícil reconhecê-lo como uma construção cultural. Ele dá a impressão de ser simplesmente natural. Mas, de fato, os elementos culturais – linguagem e símbolos, normas e tradições, valores e instituições – foram profundamente transformados pelo consumismo em sociedades do mundo todo. De fato, “consumidor” hoje em dia é com frequência usado como sinônimo de pessoa nos 10 idiomas mais usados no mundo, e seria plausível pensar em um número bem maior.
    ...
    O consumismo também está afetando os valores das pessoas. A crença de que mais riqueza e mais posses materiais são essenciais para se chegar a uma vida boa aumentou de modo surpreendente em muitos países nas últimas décadas. Uma pesquisa anual com alunos de primeiro ano de faculdades nos Estados Unidos investigou durante mais de 35 anos as prioridades de vida dos alunos. No transcorrer desse tempo, a importância atribuída a ter boa situação financeira aumentou, enquanto a importância atribuída à construção de uma filosofia de vida plena de sentido diminui.
     ...
    Talvez a crítica mais forte às escolas seja o fato de que elas representam um enorme desperdício de oportunidade para combater o consumismo e educar alunos em relação a seus efeitos sobre as pessoas e o meio ambiente. Poucas escolas ensinam educomunicação para ajudar os alunos a interpretar o marketing; poucas ensinam ou servem de modelo de alimentação adequada, inclusive ao propiciarem acesso a produtos de consumo não saudáveis ou não sustentáveis; e poucas ensinam uma compreensão básica das ciências ecológicas, em especial, que a espécie humana não é distinta e que, para sobreviver, é tão dependente de um sistema terrestre que funcione quanto qualquer outra espécie. A falta de integração desse conhecimento básico ao currículo escolar, aliada à repetida exposição a bens de consumo e publicidade, além de um lazer voltado em grande parte à televisão, ajuda a reforçar a ideia fantasiosa de que os seres humanos estão separados da Terra e a ilusão de que o aumento perpétuo de consumo é ecologicamente possível e mesmo vantajoso.
     ...
    Um grande número de movimentos sociais está começando a se formar para, direta ou indiretamente, tratar de questões de sustentabilidade. Centenas de milhares de organizações estão trabalhando, não raro por conta própria e sem se conhecerem, muitos aspectos essenciais referentes à criação de culturas sustentáveis – como justiça social e ambiental, responsabilidade corporativa, recuperação de ecossistemas e reformagovernamental. “Esse movimento anônimo é o mais diversificado que o mundo já testemunhou”, explica o ambientalista Paul Hawken. “Creio que a própria palavra movimento seja muito limitada para descrevê-lo”. Juntos, eles têm o poder de redirecionar o ímpeto consumista e oferecer uma visão de um futuro sustentável que interessa a todos. As iniciativas para que se estimule trabalhar menos e viver de modo mais simples, o movimento Slow Food, Cidades em Transição e ecovilas estão inspirando as pessoas e conferindo-lhes poder de participação para que redirecionem as próprias vidas e amplos setores da sociedade rumo à sustentabilidade . 
     ...
    Talvez em um ou dois séculos, ações abrangentes para liderar uma nova orientação cultural não sejam mais necessárias, quando as pessoas tiverem internalizado muitas dessas novas ideias, enxergando a sustentabilidade – e não o consumismo – como “natural”. Até então, redes de pioneiros culturais serão necessárias para impelir as pessoas proativa e intencionalmente a acelerar essa mudança. A antropóloga Margaret Mead é muitas vezes citada por dizer: “Jamais duvide que um pequeno grupo de cidadãos comprometidos e sensatos consegue mudar o mundo. De fato, é a única atitude que sempre o mudou”. Com a interconexão de tantos cidadãos mobilizados, organizados e comprometidos em difundir um modo de vida sustentável, um novo paradigma cultural pode surgir, permitindo à humanidade viver vidas melhores e mais longas no futuro."


    (Nota 1: negrito meu.  Nota 2: ver aqui as relações entre trilhão, bilhão, bilião em Portugal e no Brasil)

    sexta-feira, 26 de novembro de 2010

    Comprar, não comprar ou dar

    Neste fim de semana (27 e 28 de Novembro) decorre mais uma campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar Contra a Fome nos supermercados e superfícies comerciais. 

    "Os Bancos Alimentares Contra a Fome voltam a apelar à solidariedade dos portugueses para mais uma recolha de alimentos nos os dias 27 e 28 deste mês (sábado e domingo).

    Os portugueses têm sabido responder com grande generosidade aos apelos do Banco Alimentar com a doação de alimentos, e a Campanha que decorre este fim-de-semana realiza-se num contexto particularmente difícil para as famílias, mas por mais pequena que seja a contribuição, muitas pessoas irão beneficiar dessa ajuda. Em 18 regiões do País (Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Beja, Aveiro, Abrantes, Setúbal, Cova da Beira, Leiria-Fátima, Oeste, Algarve, Portalegre, Braga, Santarém, Viseu, Viana do Castelo e ilhas de São Miguel e Terceira), cerca de 30 mil voluntários devidamente identificados estarão à porta de 1.147 estabelecimentos comerciais a convidar os portugueses a associarem-se a uma causa que já conhecem, doando as suas contribuições em alimentos.

    O produto da Campanha será distribuído de imediato e localmente a pessoas com carências alimentares comprovadas através de mais de 1.800 instituições de Solidariedade Social previamente seleccionadas e acompanhadas ao longo de todo o ano por voluntários visitadores. Este modelo de intervenção permite uma grande proximidade entre quem dá e quem recebe e possibilita o desenvolvimento de um trabalho de inclusão social que vai para além do mero assistencialismo." (Fonte: Banco Alimentar)



    Por outro lado, amanhã, dia 27 e último sábado de Novembro, é mundialmente assinalado o Dia Sem Compras (Buy Nothing Day), um dia para reflectir e repensar sobre os hábitos consumistas que tanto contribuem para a insustentabilidade das sociedades ditas "desenvolvidas".

    Mais uma vez, relato aqui a infeliz coincidência da campanha do Banco Alimentar e do Dia Sem Compras. 

    Apelo a todos, não apenas no Dia Sem Compras, mas todos os dias, que pensem antes de comprar. Que comprem apenas o que realmente precisam. Porque o que realmente precisam, para muitas pessoas, é muito menos do que o que julgam. É preciso é pensar antes de comprar. Porque se comprarem apenas o que realmente precisam, estarão a contribuir para uma sociedade mais sustentável, para uma exploração de recursos mais equilibrada e para uma menor produção de lixo.

    E neste fim de semana, se realmente precisa de ir ao supermercado, aproveite para ajudar aquele número assustadoramente crescente dos que nem sequer precisam pensar se realmente precisam, porque precisam e não podem comprar, e contribua para o Banco Alimentar contra a Fome.

    sábado, 26 de junho de 2010

    No caminho do consumo sustentável

    Um dos pecados da economia capitalista reside no apelo ao consumo desregrado e excessivo, que como já se falou aqui várias vezes, leva à exaustão dos recursos naturais, ao desequilíbrio dos ecossistemas, ao "afogamento" da natureza em lixo, e levará, por fim, ao colapso da nossa sociedade.
    Para contrariar esta tendência, há dois caminhos que devem ser percorridos em paralelo,: por um lado, a diminuição do consumo, e por outro lado, a procura de um consumo informado, de produtos e serviços que respeitem o ambiente, os animais e a dignidade humana.

    Nesse sentido, e porque explica melhor do que eu poderia dizer, transcrevo para aqui um texto de Afonso Capelas Jr. publicado no blogue Sustentável na Prática do site Planeta Sustentável, em 30/05/2010:

    "Em busca da corrente do bem   por Afonso Capelas Jr.

    Já foi dito que a nossa ação de consumir deixa rastros no planeta, por isso é fundamental consumir com consciência. Entretanto, além da necessidade de aprender a comprar apenas o que realmente será utilizado, é importante também saber fazer escolhas por produtos honestos do ponto de vista socioambiental.

    Um exemplo: você já teve a curiosidade de saber de onde veio o sabonete que você usa todos os dias? Como é feita a extração da matéria-prima? E o transporte até a fábrica? Os funcionários são bem remunerados e têm todos os direitos trabalhistas garantidos?

    Acredito que a partir de agora nossa tarefa será, cada vez mais, estar atentos aos elos da chamada cadeia de produção do que levamos para casa. Muitas empresas já estão preocupadas em incorporar a sustentabilidade à sua cadeia de produção, mas ainda não é a maioria.

    Por isso, a função do consumidor será, cada vez, mais ficar de olho nesse processo. Uma das maneiras é criar o hábito de ler rótulos e embalagens, esmiuçar os sites dos fabricantes, cobrar processos mais limpos utilizando canais de comunicação como o e-mail e os Serviços de Atendimento ao Consumidor (SAC). Outra boa atitude é deixar o produto suspeito na prateleira e escolher outro mais sustentável.

    Afinal de contas, não te causa mal estar saber que o chocolate que você adora foi feito com matéria-prima proveniente de fornecedores que destroem florestas tropicais, como foi denunciado no caso da Nestlé, recentemente? Ou que o seu celular de última geração foi produzido com trabalho semi-escravo?

    Sobre esse último caso escrevi aqui no site uma resenha sobre o documentário franco-finlandês A decent factory (em tradução livre “Uma fábrica decente”), cujo tema principal é a visita de duas especialistas em ética a uma fábrica chinesa fornecedora de carregadores de celulares terceirizada pela Nokia.

    As profissionais não gostaram nada do que viram e a empresa acabou por substituir o fornecedor de sua cadeia produtiva. Assim como a própria Nestlé também se prontificou a fazer o mesmo depois que o caso foi parar na imprensa.

    Penso que essas preocupações serão uma tendência cada vez maior neste século 21. Ainda bem. Mas é indispensável fazer a nossa parte já que somos um dos elos mais importantes dessa corrente."

    No Brasil, está para breve o selo Qualidade Ambiental, que garante que o produto foi fabricado de acordo com cuidados socioambientais em todos os elos da sua cadeia de produção, desde a extracção da matéria-prima até ao fim de vida - reciclagem e descarte. Saibam mais sobre este selo no post de 25/06/2010, "O selo dos selos ambientais", do mesmo blogue e do mesmo autor, que acaba assim: 
    "É, sem dúvida, uma grande notícia e quem sai ganhando somos nós. Só não diminui nossa responsabilidade de estar sempre de olho nos rótulos."
     
    Na Europa existe o "Ecolabel", que certifica o respeito pelo ambiente do produto ou serviço, também em toda a sua cadeia produtiva (desde a matéria prima à deposição final), mas que julgo não leve em linha de conta os aspectos sociais e de comércio justo.

    Deixo também a indicação de um outro texto do site Planeta Sustentável, no tema Desenvolvimento, intitulado 7 sinais de propaganda enganosa, que ajuda a identificar falsos alardes de produtos "amigos do ambiente", já que não faltam símbolos e selos reclamando os produtos como ecológicos.

    terça-feira, 22 de junho de 2010

    A insustentabilidade do consumismo

    Falar de sustentabilidade virou moda. Usar a sustentabilidade como bandeira para vender produtos, virou moda, tendo-se tornado uma estratégia comum adoptada por muitas empresas. A sustentabilidade não pode ser apenas uma palavra que está na moda, mas terá de ser, antes de mais, uma atitude de respeito pelo ambiente e pelos outros!

    O termo sustentabilidade, ou mais propriamente, desenvolvimento sustentável, apareceu em 1987 no relatório Brundtland (O Nosso Futuro Comum), definido assim: “O desenvolvimento sustentável é aquele que procura satisfazer as necessidades da geração actual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”.

    Hoje em dia, são inúmeras as definições. De um modo geral, todas elas abarcam três componentes essenciais: o ambiente, a sociedade e a economia. Se o ambiente não for são, a sociedade não poderá ser sã, e se a sociedade não for sã, a economia também não o poderá ser. Mas a sustentabilidade não se pode limitar a uma definição inter-geracional, pois há que ter em conta que também se aplica intra-geracionalmente: não é sustentável que uma parte da população deste planeta consuma desenfreadamente, gastando excessivamente recursos e produzindo demasiado lixo, enquanto outra parte da população vive abaixo do limiar da pobreza, em estado de fome crónica, vendo familiares e amigos sucumbir diariamente por falta de alimento ou de condições sanitárias básicas.

    A pegada ecológica, que exprime a área da superfície terrestre produtiva para produzir os recursos utilizados e para assimilar os resíduos gerados por um indivíduo, uma comunidade, um país, ou mesmo para a população mundial, é uma forma de termos uma ideia da insustentabilidade da nossa actuação:  Face à população existente, a pegada ecológica média que nos cabe é de 2,0 hectares por pessoa; no entanto, a pegada ecológica média estimada na terra é de 2,9 hectares por pessoa. Estamos a usar mais 45% da superfície da terra e oceanos para produzir o que consumimos e depositar o lixo que produzimos do que o que ela pode sustentar. E a isto acrescem as disparidades que vão desde os 12,5 hectares por pessoa nos EUA (e mais noutros países) até aos 0,6 hectares por pessoa no Bangladesh.

    Alcançar um mundo sustentável depende de todos nós, de estarmos esclarecidos e de esclarecermos que o caminho que a economia global tem seguido é errado. O caminho para a sustentabilidade tem de passar não só pelo respeito pelo ambiente e equilíbrio dos ecossistemas, mas também pela justiça social e pela distribuição equitativa de recursos. Há que mudar de rumo, e esta viragem implica uma acção individual e colectiva na redução do consumo e na redução da produção de resíduos.

    (Este texto foi publicado no passado dia 11 de Maio no blogue Ponto Marketing, no âmbito da Semana da Sustentabilidade, e na revista resultante. Muito obrigada ao Gabriel Galvão pelo convite, e parabéns pelo sucesso dessa iniciativa)