domingo, 7 de junho de 2009

A Moda e o Consumo - Que feliz casamento

Vou falar do Consumo; e da Moda, sua legítima esposa. Perceberão que não percebo nada de moda e muito pouco de consumo. Mas também isso não interessa para o caso.

A moda cria necessidades antes inexistentes; o consumo as satisfaz. A moda é bonita; o consumo é prático. A moda é arte, é cultura; o consumo dá emprego. A moda quer ser igual ou melhor que os mais belos, e diferente dos comuns; o consumo precisa superar os poderosos. A moda exige uma permanente mutação; o consumo providencia essa mudança.

Como vemos, o casamento parece perfeito. Perfeito, não fosse haver filhos e enteados.

Os filhos são aqueles que podem usufruir dos pais, da moda e do consumo. As vontades são satisfeitas, os desejos cada vez mais ambiciosos. Filhos mimados e estragados, que acabarão por não dar valor a nada. Os enteados, esses não têm direito à atenção dos pais. Afinal, não são filhos deles... São muitos mais os enteados que os filhos, e se fossem a dividir o património, a moda e o consumo estariam condenados a não concretizarem os seus anseios de grandiosidade. E os enteados, há os que lutam por sobreviver e que nem sequer se podem dar ao luxo de ousar; e há os outros, que com a sobrevivência razoavelmente garantida, sonham e anseiam ser como seus "pais" emprestados.

Casamento perfeito. Perfeito, não fosse estar a contribuir para o fim dos recursos que permitem assim o ser.

Somos bombardeados constantemente pela publicidade para nos criar desejos. Desejos de moda e de consumo. E, ingénuos, deixamo-nos levar pela conversa, pelas imagens, pelo sonho.
Será que o impulso de comprar, comprar, cada vez mais coisas e objectos, que por outro lado nos obriga a cada vez mais deitar fora outras coisas e objectos que passaram de moda, não estará a esgotar os recursos do planeta? Claro que está, não haja qualquer dúvida! Saberão as pessoas que tanto compram sem precisar, qual a pegada de água ou a pegada de carbono dessas coisas e objectos? Porquê a necessidade de seguir a moda? Porque há a necessidade constante de superar os outros na moda e no consumo? Porque não conseguimos ser felizes com uma vida confortável e temos sempre de querer mais?

Vão dizer - pois, isso é muito bonito, mas, e a economia, os empregos? Essas "compras" supérfluas, o consumo, a moda, dão emprego e sustento a muita gente! Lirismos...

E eu respondo com um repto: não estará na hora de pensar uma nova economia? Não está na hora de abandonar o sistema capitalista que se baseia no consumo, no descartável e no petróleo?
Não estará na hora de pensarmos num planeta com uma melhor distribuição de riqueza? Não poderá a moda reservar-se a uma parte da arte e da cultura, e acabar de vez com esse casamento pernicioso com o consumo?

É admissível que existam divergências na riqueza das pessoas como a que sabemos que existe?

12 comentários:

  1. Não, não é admissível, mas isso dizem os que pouco têm! Os outros continuam no mesmo estilo de vida, com olhares superiores e circundantes, para ver se são os melhores. É o tipo de pensamento raquítico, miudinho, da sociedade de consumo. É santola sem recheio despojada de vergonha, que com suas tenazes, estraçalha tudo e todos, para chegar a seus fins. Detesto a moda mas não descuro a arte, se bem que esta, hoje em dia é também negócio especulativo.
    - " A Civilização é uma ilimitada multiplicação de necessidades desnecessárias!" - Mark Twain.

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  2. Vivemos numa sociedade extremamente consumista, e assim é díficil de não nos deixarmos levar por ela. Contudo é sempre importante tentar alertar consciências, pois inevitalvelmente chegaremos a um ponto em que nos arrependeremos de não proteger a nossa casa "Terra", e nessa altura já será muito tarde!
    E como os governos não consideram o desenvolvimento sustentável uma prioridade, cada um de nós é que tem de se predispôr a contribuir.

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  3. A matriz expressa no texto até poderia estar correcta não fosse dar-se o caso de normalmente quem assim falar ou escreve o fazer de barriga cheia.
    Atenção que não é o caso nem da autora, nem de quem comentou anteriormente.
    Mas, convenhamos, é sempre mais fácil e conveniente falar de barriga cheia!

    Mas, pergunto eu, falar de barriga cheia tem algum mal?
    Não, respondo eu.

    Não tem quando a sabemos encher com parcimónia, atendendo ao nosso muito pessoal "deve" e "haver".
    Se cada um fizesse o tal esforço de, estando às compras, se perguntar "preciso mesmo disto?" talvez as coisas andassem melhores.

    Peguemos, pois foi esse o exemplo aqui dado, no caso da moda.
    Há marcas às quais não me abalanço porque não tenho dinheiro para elas, por exemplo.
    Há marcas às quais não me abalanço porque, tendo dinheiro para elas, acho um exagero, uma brutalidade o que me pedem por algo que eu sei que é assim valorizado pela cupidez de quem pede e pela assinatura de quem fez o dito cujo produto.
    Há marcas às quais se calhar muitos se abalançam e não dizem, porque parece mal, mas que servem perfeitamente.

    Por isso, mais que limitar ou pretender castrar a moda e o consumismo, importa encontrar o ponto de equilíbrio!

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  4. Ferreira-Pinto, já é tarde para querermos um ponto de equilíbrio de barriga cheia. Até porque engorda. É melhor procurarmos um ponto de equilíbrio de barriga nem cheia, nem vazia.
    Quanto às marcas, são, em muitos dos casos, um embuste.
    Mas o consumismo excessivo não vive só das marcas: vive também muito de compra obcessiva de produtos de baixa qualidade, que para nada servem, ou por pouco tempo servem (ex. lojas dos chineses, sem ofensa para os lojistas). E mais lixo se produz.

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  5. Peço desculpa, mas quando me reportava à "barriga cheia" pensava na nossa sociedade onde até um remediado é quase de certeza mais "gordo" que qualquer habitante de Dacca, no Bangladesh.
    Isto porque nós temos aqui praticamente tudo, embora possamos não ter o poder de compra que chegeue; por seu turno eles não têm geralmente nem uma coisa, nem outra.
    Serve isto para dizer que anda por aí muita gente que vocifera contra as queimas da Amazónia, mas sempre se esteve a borrifar para os que por lá morriam e morrem de fome!
    Falo, pois, do egoísmo latente nas nossas sociedades ocidentais.
    No mais, conforme a minha cara viu, eu falei e estratifiquei bem por sectores as marcas.

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  6. Se todos tivessem a barriga cheia quanto nós, os que aqui comentamos, os recursos do planeta chegavam para todos! Nem mais.

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  7. Concordo, porque posso não ser o exemplo de perfeição no que diz respeito ao desenvolvimento sustentável, mas pelo menos tenho muitas atitudes que visam a preservação do meio ambiente!

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  8. Muito me gratifica ter aqui discussão. Obrigada pela vossa participação, meus caros Fada, Ferreira-Pinto e JA.
    Mas Ferreira-Pinto, não nos zanguemos por causa de barrigas :). Tem muita razão naquilo que diz.
    A ideia aqui é tripla: chamar a atenção para o consumo excessivo, porque esgota os recursos. Incentivar a partilharmos parte do que temos com quem mais precisa. Exigirmos que se acabe o direito às grandes fortunas, absolutamente ofensivas para povos inteiros que morrem à fome.

    Convido a visitarem os "posts" aqui colocados em 27 e 29 de Maio.

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  9. Não me parece que se todos no planeta tivessem o nível de vida que nós, em média temos, os recursos chegariam para todos. Quando quantifiquei a minha pegada ecológica precisávamos de dois planetas para que todos tivessem o mesmo nível de vida que eu. Não tenho uma vida de excessos, pelo contrário, bastante comedida. Teria, no entanto, que abdicar ainda de muita coisa.
    De qualquer forma, o maior problema são os extremos..os muito ricos. Atentem, por exemplo, num país, que muitos dão como exemplo de justo, democrático,...a Noruega. Quanto é que consome, à custa do petróleo do Mar Atlântico Norte, cada Norueguês? É justo para os noruegueses, não para a população mundial vista como um todo. O maior problema é mesmo como convencer os ricos a abdicar do que já têm, especialmente se correspondem a povos inteiros. A solução será, talvez, a utilização sustentável dos recursos: reciclar, reutilizar, energias renováveis, evitar desperdícios, modas amigas do ambiente, preservar a água e tratá-la, etc. etc... criar um ciclo de materiais sem esgotar os recursos não renováveis, utilizando energias renováveis.

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  10. Minha cara bastet não é certamente por causa de uma barriga que nos zangaríamos. Mais a mais, barriga em excesso é coisa que causa espécie!

    Eu pretendia apenas alertar para determinado tipo de abordagens que se fazem, especialmente as que assentam precisamente nos fenómenos da moda. Hoje, para muitos o Ambiente é uma moda e pouco mais que isso. E eu pensava nesses.

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  11. Fez bem explicar, pois por acaso não tinha ido para esse campo, da "moda" do ambiente. Há de facto quem bem se aproveite do facto. Mas, caro Ferreira-Pinto, é capaz de mesmo assim, ser uma "moda" positiva, esperemos.

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