domingo, 14 de outubro de 2012

Mensagem da ativista islandesa Birgitta Jónsdóttir

Mensagem da ativista islandesa Birgitta Jónsdóttir, de 13/10/2012

(Tradução de Carlos Clara Gomes)

«Uma mensagem minha para todos os que protestam. Especialmente para os meus amigos de Portugal.

Caros irmãos e irmãs

Quem me dera poder estar convosco pessoalmente, pois tenho saudades dos protestos que tivemos na Islândia quando surgiu a nossa crise financeira de 2008/2009.
Tenho saudades do espírito e do sentido de união que todos vivemos. O meu espírito está convosco e com todos aqueles que hoje se erguem. Povos de todo o mundo estão a acordar para a realidade de que os nossos sistemas já não nos servem. Os sistemas são auto-imunes e defendem-se a eles mesmos em vez de defenderem quem deviam estar a servir: TODOS VÓS

Nunca nos esqueçamos que nós também somos o sistema, nós também somos o governo, e se nós queremos mudar isso temos que ir lá dentro e criar uma ponte entre o poder e o povo. Antes de mais, sou uma poetisa que escolheu ver-se tanto como poetisa como uma hacker no Parlamento, para entender como trazer mais poder para o Povo da Islândia.

Foram os nossos irmãos e irmãs da revolta na Argentina, quem começou a usar panelas e frigideiras, quando se levantaram contra o seu presidente corrupto e o FMI há alguns anos atrás. Nós fomos inspirados por eles. Agora vocês são inspirados por nós. Lembremo-nos de que mesmo o menor sofrimento ou alegria de alguém em nosso mundo é também realmente nosso, pois somos um único povo.

As ideologias da velha escola da política, dos media, sistemas monetários, empresas e todas as estruturas conhecidas estão em um estado de transformação. Eles estão desmoronando-se. Agora é a hora de uma mudança fundamental a todos os níveis: temos que aproveitar este momento. Porque este é O momento.

É invulgar que tantas gerações e indivíduos tenham semelhante oportunidade como esta para transformar o mundo tal como nós o conhecemos. A grande questão é: como podemos transformá-lo? Alteremos a pirâmide do poder para um círculo de poder onde todos nós sejamos valorizados enquanto tal.

É óbvio que estamos funcionando fora do planeta, muitas das pessoas perderam a conexão vital com o nosso ambiente, a maior parte da humanidade já não compreende a causa e o efeito da falta de sustentabilidade e muitos de nós sentem-se perdidos, deslocados e solitários. Todas as estruturas que achávamos que cuidariam de nós, sejam elas sistemas, ideologias, religião, política ou instituições estão falhando. Que momento, este!

Seguir o coração e as entranhas como um poeta faz muito mais sentido para mim do que a seguir o antagonismo ou a manipulação ideológica. A ideologia do certo ou errado do velho mundo simplesmente foi superada. Já não temos parlamentos fortes, com uma ligação estreita e directa entre o povo em geral e os centros de decisão. Temos os chamado políticos profissionais que estão distantes da realidade da maioria em que nós vivemos.

Partidos e os políticos estão muitas vezes instalados num casamento pouco saudável com os interesses financeiros e a corrupção prospera na arena política em todo o mundo. Enquanto muitos governos falam sobre transparência, o processo de políticas e de leis é retalhado em sigilo.

Precisamos mudar isso. Nós temos que saber o que queremos, em vez dessa realidade que estamos enfrentando.

O século 21 será a nossa era, a das pessoas comuns, onde iremos entender que, para viver na realidade que sonhamos, temos que participar e colaborar para co-criar essa mesma realidade.

Exorto-vos a participar num movimento de mudança, fazer parte activa desta oportunidade de mudança. Se eu pude ser deputada no parlamento islandês, qualquer um pode ser membro do parlamento.

Aqui está a nossa primeira tarefa: Se há algo que está entre o que nós temos que fazer sob a tutela das nações e não das grandes empresas, então é o seguinte: as companhias de água, as empresas de energia, o bem-estar social, a educação, a internet e os sistemas de saúde.

Fizemos tudo tão complexo e grandioso, talvez seja hora de voltar a formas mais simples, formas mais auto-sustentáveis. Nós podemos fazer isso, aprendendo uns com os outros, ajudando-nos mutuamente, local e globalmente, lembrando-nos que nós, como indivíduos, podemos mudar o mundo, e agora é a hora de avançar - assumirmos esse desafio e sermos os manufactores de mudança. Não esperemos que os outros o façam por nós, a hora de fazer a diferença chegou!»

Esta mensagem foi encontrada já traduzida no Facebook, está também no blogue Bioterra, e foi publicada originalmente no mural do Facebook de Birgitta Jónsdóttir (English) em 13/10/2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Petição contra a política europeia de biocombustíveis

Petição Avaaz ao Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso:



Imagem obtida em Avaaz


"As culturas alimentares estão-se a transformar em fumo, a destruir florestas e a levar à fome massiva. A Comissão Europeia tenciona travar esta tendência perigosa, mas lobistas das corporações estão a aumentar a pressão para queimar mais alimentos.


Imagem obtida em Friends of The Earth
Os biocombustíveis são comida que alimenta  carros. Percebendo que eles são uma falsa solução para a crise do clima e que estão a levar a fome a milhões, o presidente da Comissão Europeia, José Durão Barroso quer reduzir a quantidade de biocombustíveis nos depósitos de combustível. Mas estão a chegar continuamente cartas à sua secretária de um dos lobbies mais poderosos de Bruxelas para que ele recue.

Temos apenas seis dias para contrariar esta tentativa de influencia corporativa, e garantir que o Presidente Durão Barroso suspenda o absurdo da queima de biocombustíveis! Quando 200.000 de nós tiverem assinado a petição, a Avaaz vai entregá-la diretamente no escritório de Barroso. Assine agora e divulgue."
(fonte: tradução do texto da Avaaz):
 Mais informação em:


Para assinar a petição, basta clicar no título ou no texto da petição ou então aqui

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os Quatro Ginetes do Novo Apocalipse

«Os Quatro Ginetes do Novo Apocalipse, a primeira longa-metragem do realizador Ross Ashcroft, revela as falhas fundamentais do sistema económico que trouxeram a nossa civilização ao limiar do desastre. 
23 pensadores, frustrados com o fracasso das respetivas disciplinas, quebram o silêncio para explicar como o mundo realmente funciona. 
O filme não faz rodeios ao descrever as consequências da inação continuada, mas a sua mensagem é de esperança. Se mais pessoas poderem ter uma melhor compreensão de como o mundo realmente funciona, então os sistemas e estruturas que condenam milhares de milhões à pobreza ou à insegurança crónica podem finalmente ser derrubados. Nunca foram tão urgentes soluções para as múltiplas crises que a humanidade enfrenta, mas, igualmente, nunca as condições para a mudança foram mais favoráveis.»
Fonte: tradução da sinopse do site do filme

Neste mês de Outubro, o Canal Odisseia transmite o filme de Ross Ashcroft "Four Horsemen", que recebeu o título em português "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse" (Brasil) ou "Os Quatro Ginetes do Novo Apocalipse" (Portugal).

A primeira parte foi já emitida nos dias 7 e 8, e voltará a ser emitida no dia 29, juntamente com as outras duas partes. Veja os horários e as datas na página do canal Odisseia. Pelo que vi no primeiro episódio, não vou perder os outros dois! Abaixo, o trailer, e a seguir, a ligação para o filme (inserido a 27/5/2013):


domingo, 7 de outubro de 2012

2011-2020 Década da Biodiversidade



"Apesar de ter apenas 92.152 km2, Portugal encontra-se entre os países com maior biodiversidade do espaço europeu, mercê da sua situação biogeográfica e da história evolutiva desta região do mediterrâneo ocidental. Tal diversidade manifesta-se nos inúmeros habitats, paisagens e endemismos Portugueses e Ibéricos que de norte a sul do território nacional e com grande relevo nas ilhas atlânticas, nos oferecem esta grande riqueza natural e ao mesmo tempo nos responsabilizam pela sua preservação.
Fonte: Quercus


Não sei que novas estratégias para a proteção da biodiversidade em Portugal estarão na forja, mas  propostas que liberalizam as plantações de eucaliptos e resoluções que pretendem desmantelar a Reserva Ecológica Nacional, não são seguramente bons augúrios para a Década da Biodiversidade!  

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Colapso

Aprender com o passado para entender o presente e para prever o futuro

Assim faz o filme "Colapso" (2010) da National Geographic, baseado no livro de Jared Diamond "Colapso - como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso", de 2005.

Analisando o que se passou com as sociedades Anasazi, na América do Norte, como o povo Maia na América Central e com o império Romano na Europa, paralelismos são traçados e demasiadas semelhanças são encontradas com a civilização de hoje. Todas elas colapsaram. Seguindo os mesmos passos, o que impedirá esta civilização de colapsar?

As argumentações e conclusões do filme podiam ter sido mais bem exploradas, aprofundadas e relacionadas, mas mesmo assim, vale a pena vê-lo.  Mas se pretende aprofundar sobre o que nos impede de prosperar no presente, então veja o documentário THRIVE.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Agropecuária, um fardo para natureza e saúde humana"

De 1 a 7 de outubro de 2012 acontece a 5ª Semana Vegetariana, que este ano tem como tema "O impacto da agropecuária na saúde". O artigo que se segue foi escrito pela dietista Cláudia Maranhoto para a Semana Vegetariana Internacional 2012.

Fotografia de fazenda de gado na Amazónia (Greenpeace), obtida aqui
Agropecuária, um fardo para natureza e saúde humana

Por Cláudia Maranhoto

«Não existe outra criatura à face da Terra que utilize, em seu favor, os fenómenos naturais de forma tão eficiente como o Homem. Desde os primórdios dos tempos, que o ser humano tenta desenvolver técnicas cada vez mais eficazes com o objetivo de facilitar a sua vida quotidiana. 

Começando pela descoberta do fogo ou a invenção da roda, passando pela invenção da imprensa e da máquina a vapor (Revolução Industrial) o homem desde cedo tenta superar-se buscando e rebuscando ferramentas que o auxiliem na conquista do seu bem-estar. Ainda que inicialmente essa busca seja movida pelo objetivo primário de melhorar e facilitar a vida da humanidade, esta não deixa de ser, em última instância, uma busca por domínio, por poder, sobre o seu semelhante e sobre o mundo.

A tecnologia e os seus avanços são fruto dos interesses económicos, do capitalismo, e neste sentido o seu equilíbrio depende de como o seu conhecimento é partilhado, podendo comprometer até o verdadeiro significado de Progresso. Este progresso tecnológico evoluiu a grande velocidade desde a década de 80 e acarretou profundas mudanças políticas, sociais e económicas à escala mundial. A grande modificação, a globalização da economia, originou a quebra de barreiras comerciais entre as nações, aumentando o nível de competitividade do mercado e trazendo enormes mudanças estruturais nos processos produtivos. Aliado ao interesse económico, a necessidade de aumentar a produção devido ao crescimento populacional no mundo, exige a procura de novas técnicas de produção de alimentos.

O homem encontrou a solução! Por um lado, aumentou a produção animal, confinando os animais em espaços muitíssimo reduzidos, para que gastem pouca energia ao movimentarem-se, alimentando-os com rações preparadas e injetando-lhes hormonas de crescimento, de forma fazê-los crescer muito e mais depressa. Este confinamento potencia o aparecimento de doenças que se propagam e comprometem toda a produção. Mas o homem também resolveu administrar antibióticos (que influenciam a saúde do homem) para evitar a perda de animais, ou seja, de dinheiro. Por outro lado, na agricultura, para além da maquinaria, e das modificações genéticas, utiliza como recurso milhares de químicos que aplica no solo e nas plantações, para prevenir ou exterminar pragas, para estimular o crescimento e garantir as características visuais exigidas pelos mercados. Parece perfeito não é?

Mas não é, e está longe de o ser! Não é de hoje que o desenvolvimento económico tem sido apontado como um dos determinantes da degradação do ambiente e da saúde humana. Os padrões de produção e consumo estão relacionados com a maioria dos problemas ambientais decorrentes do desenvolvimento tecnológico na pecuária, como a emissão de gases de efeito estufa, por exemplo. Os gases produzidos no estômago dos bovinos geram muito metano, que tem cerca de 21 vezes mais potencial de aquecimento que o CO2. Também os dejetos dos animais libertam gases, o óxido nitroso, com potencial de aquecimento 310 vezes superior. Juntamos a isto, a preocupação do CO2 libertado com o desmatamento de florestas para a produção de cereais para alimentação do gado e para pastos. Nos EUA, o Departamento de Agricultura estima que os animais confinados geram aproximadamente 500 milhões de toneladas de dejetos por ano, três vezes mais resíduos brutos que os gerados pela população norte-americana. E segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o setor pecuário emite mais gases causadores do efeito de estufa que os automóveis.

Também na agricultura são relevantes os feitos da evolução económico-tecnológica, com as brutais doses de pesticidas aplicados na produção agrícola. Com o objetivo de proteger, prevenir e aumentar a produção, são usados diversos produtos químicos, desde praguicidas, herbicidas, fungicidas, fertilizantes, adubos, etc. A contaminação pelos agrotóxicos, acontece direta e indiretamente através da contaminação dos solos, das águas, dos alimentos e das pessoas. Estes poluentes são usados de forma descontrolada e abusiva, passam da terra para os pastos, dos pastos para os animais e destes para a carne, o leite e finalmente para o topo da cadeia alimentar, o homem, acumulando-se progressivamente, trazendo graves problemas de saúde. A aplicação de fertilizantes nitrogenados, por exemplo, trazem graves problemas à saúde humana e ao meio ambiente, contaminando as águas através dos lençóis freáticos. O consumo, mesmo que por curtos períodos, de água com valores de nitratos acima de estabelecido, pode causar problemas no transporte de oxigénio ao cérebro e outros órgãos, especialmente em crianças, grávidas e idosos. 

Alguns pesticidas podem persistir na comida por períodos consideráveis, se estes são pulverizados (o que acontece com frequência), antes da colheita, sem o intervalo de segurança exigido, estas substâncias podem perdurar nos alimentos até estes serem distribuídos e consumidos, provocando intoxicações. Outros pesticidas, derivados do petróleo, são pouco solúveis em água, o que os torna mais tóxicos e de elevada absorção cutânea, mas também a nível digestivo e respiratório.
São muitos os estudos que comprovam a toxicidade destes produtos, que se vão acumulando no organismo e degradando a saúde e qualidade de vida. A forma mais comum de acumulação destas substâncias no organismo é no tecido adiposo, pelo que o consumo de carnes, e produtos lácteos é a forma mais comum de contaminação, seguidos dos produtos hortícolas. Milhões de toneladas de pesticidas são aplicados todos os anos nos cultivos, sendo os resíduos encontrados em frutas e vegetais. São comuns os resíduos múltiplos e alguns estudos sugerem que o seu efeito é centenas de vezes mais tóxico do que os mesmos compostos individualmente. Associados a intoxicações crónicas e agudas, levando mesmo à morte, a lista dos problemas identificados causados pela acumulação no organismo destes produtos é longa. Enxaquecas, abortos espontâneos, alterações do comportamento, alterações genéticas, infertilidade, alterações hormonais, alterações da coagulação sanguínea, lesões hepáticas, distúrbios sensoriais, do equilíbrio e musculares, cancro. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA classifica os resíduos de pesticidas entre os três principais riscos ambientais relacionados com o cancro.

Uma outra questão completamente ignorada e negligenciada pelos produtores é a qualidade nutricional dos produtos hortícolas, pelo facto de o interesse maior ser o rápido crescimento dos produtos e o aspeto visual. Os solos excessivamente explorados tornam-se esgotados em minerais. Assim como os adubos, as técnicas de melhoramento genético, tornam os produtos de cultivo muito mais pobres nutricionalmente, o que faz com que a variação, por exemplo, de vitamina C nas laranjas, possa ser de entre 0 e 180mg. É verdade, podemos encontrar hoje em supermercados, laranjas sem nenhum conteúdo de vitamina C. Também o processo de refinação empobrece os alimentos, para termos noção, alimentos como arroz, farinhas e açúcar refinados têm cerca de 77% menos quantidade de zinco que as variedades integrais. Muitas vezes o que temos, quando compramos frutas grandes e de bom aspeto, é na sua maioria água.

Atualmente discute-se o desenvolvimento tendo como objetivo a sustentabilidade. A sociedade está a tornar-se mais exigente nas questões ambientais e da saúde. Fatores como produção sustentável, conservação do meio ambiente, segurança alimentar, estão em cima da mesa e mostram-se fundamentais para ir ao encontro das exigências dos consumidores. Até há pouco tempo considerava-se apenas a perspetiva económica, no entanto a mudança está a acontecer e a crescer a necessidade de aumentar consciências e responsabilidades sobre o tema. As empresas para se manterem competitivas, terão de ter em conta, também, estas novas exigências, e oferecer produtos socialmente corretos, o que implica preocupação com o meio ambiente, a saúde dos consumidores, bem como o relacionamento ético com os mesmos. Urge uma mudança de valores, e embora a questão económica tenda a impor-se, a dimensão social e ambiental começam a ser valorizadas.»

Artigo da dietista Cláudia Maranhoto, para a Semana Vegetariana Internacional 2012 (28/07/2012).

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