domingo, 10 de Fevereiro de 2013

Polinização e a preservação das cultivares tradicionais

A troca de sementes e os encontros para troca de sementes são veículos fundamentais para a preservação das variedades tradicionais e locais de alimentos, bem como para nos ajudar a garantir a soberania alimentar.

Stevia (imagem minha)
Ajudam também a manter-nos independentes do oligopólio das empresas gigantes das sementes. Em todo o mundo, a "propaganda" destas empresas tem levado muitos agricultores a apenas comprarem sementes e a deixarem de recolher as próprias (ver reportagem aqui). E assim se vão perdendo e extinguindo uma quantidade de fenomenal de variedades de plantas adaptadas  às condições edafoclimáticas (de solo e de clima) locais, ao longo de séculos e de gerações.

Mas a troca de sementes é só o princípio da preservação das variedades tradicionais de alimentos (e não só). Cultivá-los e deixar uma parte para a recolha de sementes, é outro dos passos. Pelo meio, além de saber como cultivar, para garantir a preservação das variedades há que ter também o cuidado de garantir distâncias mínimas entre os espécimes de variedades distintas (da mesma espécie) dos quais se pretende recolher as sementes, para que não haja "misturas" indesejadas.

Essas distâncias dependem de diversos fatores, sobretudo do tipo de fecundação (autopolinização ou polinização cruzada) e do agente de polinização (insetos ou outros animais, ou vento).

Imagem obtida aqui
«Polinização consiste na transferência de grãos de pólen da antera para o estigma, na mesma flor, ou de uma flor para outra. Os meios de transferência do pólen variam de conformidade com a espécie. O pólen do milho é transportado pelo vento, atingindo outras plantas; porém, uma pequena parte pode cair sobre estigmas da mesma planta. Plantas forrageiras e centeio também são, em grande parte, polinizadas através do vento. Em muitas leguminosas, como a alfafa e o trevo roxo, o transporte se dá por insetos.» (fonte aqui).

No que se refere à reprodução sexual das plantas, as espécies dizem-se autógamas quando predomina a autopolinizaçao e alógamas quando predomina (acima de 95%)  a polinização cruzada (saber mais aqui). Alguns exemplos (daqui e daqui):

Imagem obtida aqui
  • Autógamas:  alface, feijão, amendoim,  arroz, linho, batata, soja, cevada, tomate, trigo, ervilha, ...
  • Autógamas com alogamia frequente (ou intermediárias): algodão, quiabo, berinjela, sorgo, café (arábica), ...
  • Alógamas:  abacate, alfafa, girassol, batata-doce, goiaba, beterraba, cenoura, maçã, crucíferas em geral (couves, couve-flor, brócolos  nabos, colza, rabanetes, ...), manga, café (robusta), maracujá, cacau, pêra, cana-de-açúcar, centeio,  eucalipto; cucurbitáceas em geral (abóbora, melão,  melancia, pepino, ...), mandioca, mamona, milho, seringueira;  espargo, cânhamo, espinafre, lúpulo, tâmara, kiwi, ...

Sobre as distâncias adequadas para a preservação das variedades de algumas espécies hortícolas, vejam a Tabela sobre tipo de polinização e distância de isolamento a outras variedades da mesma espécie, para garantir pureza varietal,  do artigo "Recursos genéticos - variedades regionais e produção de sementes em agricultura biológica", de Jorge Ferreira e António Stretch, no livro "As bases da agricultura biológica", 2ª edição, Edibio, 2012:

Nota: este artigo foi feito por uma leiga em botânica e principiante em agricultura prática. Em caso de alguma incorreção, agradeço a chamada de atenção para a mesma.

10 comentários:

  1. Olá Manuela,

    obrigada pela partilha e

    visto que já começou o "saque" à água, queria apelar para que não nos fiquemos só pelas lamentações e fazermos o mínimo que podemos, assinando e recolhendo assinaturas para as petições que estão ali ao lado, e enviando um e-mail ou carta para os nossos (des)governantes. Podem usar a que aqui deixo.

    Para:Gabinete do 1º ministro - gabinete.pm@pm.gov.pt
    Secretário de estado da presidência do conselho de ministros - gabinete.sepcm@pcm.gov.pt
    Ministro das finanças - gabinete.ministro@mf.gov.pt
    Ministro da economia - gabinete.ministro@mee.gov.pt
    Ministra da agricultura - gabinete.ministro@mamaot.gov.pt
    Grupo àguas de Portugal - info@adp.pt

    Ex.mos Srs.,

    Declaro o meu total repúdio pela recentemente aprovada Proposta de Lei 123/XII que “Procede à segunda alteração à Lei n.º 88-A/97, de 25 de Julho, que regula o regime de acesso da iniciativa económica privada a determinadas actividades económicas” e que teve o “natural” apoio da maioria parlamentar PSD e CDS-PP, e que tem como objectivo regular “…o regime de acesso da iniciativa económica privada a determinadas actividades económicas, visando a reorganização do sector de abastecimento de água e saneamento de águas residuais e recolha e tratamento de resíduos sólidos.“, o que em termos mais simples quer dizer que permite que a água, e serviços conexos, passe a ser “objecto” de venda para obtenção de lucro por parte de empresas privadas.

    Gostaria de vos lembrar, que a água é um direito humano e um bem comum.
    Moralmente nunca deverá ser um bem destinado à obtenção de lucro por parte de entidades que não sejam representativas da população, exactamente por ser um recurso básico e essencial à vida de todos os seres. É também uma decisão politicamente ilegítima por não ter constado de nenhum programa eleitoral, pelo menos de domínio público.
    Por estes motivos, exijo como Cidadão, que seja efectuado um referendo, após vasta e clara discussão pública, e sessões de esclarecimento, visto ser esta a única forma que poderá, eventualmente, tornar uma decisão desta magnitude, democrática e digna de um Estado de Direito Republicano. Isto se os Senhores acreditam ainda nestes valores.

    Senhores, não servirá o exemplo do que já aconteceu em outros países?

    Concordo absolutamente com este excerto de uma intervenção no parlamento:

    “A má estratégia, a incompetência, a negligência dos sucessivos governos, bem traçada à escala de uma desejada privatização do sector da água, é que é a responsável por problemas de sustentabilidade, que ainda assim têm solução que não passa obviamente pela privatização da sua gestão. Os problemas de sustentabilidade do sector foram produzidos por más opções políticas.
    Denegrir agora o sistema público de gestão da água é um entretenimento do governo e da maioria parlamentar para sustentar o seu desejo de privatização. O concelho de Almada que optou por virar as costas à chantagem do governo e por via disso nunca obteve financiamento central ou comunitário dos seus investimentos, tem hoje, um sistema perfeitamente sustentável, numa gestão totalmente pública que merece ser focada.
    Almada capta, armazena, distribui em baixa, faz tratamento de águas residuais, ou seja, tem uma gestão pública, directa e integral. Cobra aos munícipes 1,20 euros/m3 e há 3 anos que não aumenta o preço da água porque não precisa cobrar mais pelo valor da água para garantir a sustentabilidade do sistema. O sistema é auto-suficiente e tem uma escala de 200 000 habitantes, tem 100% de abastecimento e 100% no saneamento.
    Isto é um exemplo de boa gestão pública e há mais casos no país.”

    Sem outro assunto de momento,

    Subscrevo com os melhores cumprimentos


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    1. eheheh aNaTureza... Aplicaste uma dose de polimento aqui nesta versão! A minha versão é mais espicaçada!

      Mas está bem...

      Felizmente já sei que a resposta desta corja de títeres vai ser esta, e é por isso que escrevo como escrevo... Aliás, confesso que até fui muito meigo... Normalmente os meus e-mail dirigidos à Máfia não são tão suaves...

      Bjhs
      voz a 0 db

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  2. Olá Manuela,

    Espero e desejo que haja imensos visitantes do seu blogue que tomem consciência da importância que este tema trata (protecção e preservação de sementes)!
    Se os horticultores/agricultores/jardineiros não levarem em conta .- urgentemente -, a importância que é a preservação das sementes, qualquer dia destes (cruzes-credo) vão-se deparar que tal espécie (A, B,... Y,.. Z) que tanto apreciavam já não existe, ou porque não souberam como manter a pureza da espécie, ou porque simplesmente...por comodismo...ou desprezo do tema.
    Os melhores amigos...de empresas "tipo" Monsanto, são todos os horticultores comodistas, que escolhem a facilidade de adquirir sementes transgénicas ou híbridas, à laboriosa - mas cativante -, recolha de sementes próprias!
    Eu quero cultivar as espécies naturais que gosto, e não as modificadas e impostas! Para isto só tenho de colher as minhas sementes, respeitando as distâncias entre culturas que o quadro documenta, ou então - coisa de crianças...-, proteger as próprias culturas com "pequenos truques" (ver no meu blogue protecção de tomates ou melões = cucurbitáceas).

    Sobre o quadro de distâncias entre culturas: pois fiquei impressionado com algumas espécies. Refiro-me à salsa, espinafres e couves. Mas o mais impressionaste nestas distâncias é a beterraba!

    Já no que se refere às batatas, e dando de desconto...as iniciais "n.a." - que não sei o significado -, pois então, tenho a certeza que também precisam de distância entre espécies!
    Ao meu leigo conhecimento, existem pelo menos 4 centenas de espécies de batatas, e tal e qual outras espécies, se espécies distintas forem cultivadas juntas, é lógico que haverá hibridação. E não só entre espécies do mesmo género mas também da mesma família.
    Melhor explicado: a batata e o tomate são espécies da mesma família (SOLANUM tuberosum + SOLANUM lycopersicum), e é possível haver hibridações entre estes géneros, apesar de não causar danos... na recolha de sementes em ambos.
    No entanto, se reparem em várias espécies de tomates que possuem "folhas batata", pois isto deveu-se a culturas próximas entre estes géneros.
    Provavelmente, muitos horticultores, já terão reparado em culturas de batatas, que por vezes na floração das batateiras nascem umas espécies de tomatinhos, pois então, tal facto deve-se à cultura de tomateiros na proximidade.
    E para quem não souber...é possível enxertar tomateiros em batateirtas (plantas), apesar de não trazer nenhum benefício para os primeiros.

    Saudações,
    António

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    1. Olá António

      Suponho que o n.a. se refere a "não aplicável", possivelmente por se tratar de forte autopolinização, ou, no caso do alho e da batata, porque a sua reprodução não se faz normalmente por semente, mas por via vegetativa.

      Não fazia a menor ideia da possibilidade de hibridação entre a batata e o tomate, embora soubesse que são ambas da família das solanáceas.

      Fez muito bem lembrar os truques para a proteção das misturas de variedades (e mesmo de híbridação espécies, como refere).

      Também fiquei espantada com a beterraba, e se cultivar mais de uma variedade, só posso deixar uma chegar À semente! E esperar que os vizinhos não cultivem diferente, pois 3 a 8 km, é muita distância mesmo!

      Muito obrigada pelo seu valioso contributo!

      Um abraço

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  3. Pois foi, Voz...eheheheh

    a minha foi na íntegra, para enviar a outras pessoas é que foi com "censura".

    Mas o pessoal não me parece que ande a alinhar. Custa muito...andam muito ocupados, quando chegarem as contas é que vão começar a acordar...tarde...

    Preocupa-me mais os menos afortunados do vil metal...

    Ainda não consegui atingir o equilíbrio para lidar com esta falta de cidadania e consciência. Quase ninguém acredita que só eles é que podem mudar rumos, mas claro, há que fazer alguma coisa e sair da sua zona de conforto.

    Desculpa Manuela, o teu blog serviu de "intermediário".

    Beijinhos

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    1. Não tem problema, Ana Teresa :) É por uma boa causa!

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