sábado, 30 de junho de 2012

Vandana Shiva: 'Navdanya' - É nossa obrigação salvar as sementes


New Gift | Supriyo Sen from Focus Forward Films on Vimeo.

«Sabem quantos agricultores cometeram suicídio devido às sementes que compraram no mercado? Pensem ... 250.000!


'Navdanya', que significa 'Nova Dádiva' (New Gift), é um movimento que eu comecei em 1987.

Nós diremos Adeus aos químicos venenosos, nós praticaremos agricultura natural e biológica, nós teremos melhores colheitas com as nossas próprias sementes.

Na quinta Navdanya salvamos sementes, criamos bancos de sementes da comunidade. Temos mais 1500 variedades de sementes guardadas. É o local onde os agricultores vão buscar sementes gratuitas.

Navdanya é um movimento político para a defesa da diversidade na natureza e para a defesa do direito dos agricultores de terem sementes, pois esta liberdade foi-lhe tirada através das patentes, da engenharia genética e de monopólios de sementes.

Cultivar apenas algodão Bt não é prosperidade, é levar à morte. Cultivem algodão, cultivem-no de forma biológica, mas cultivem-no juntamente com alimentos para que as vossas crianças não tenham fome.

Estamos a ajudar os agricultores a ultrapassar aquilo que chamo a "monocultura da mente".

Hoje, as sementes tornaram-se a última arma. Quem controla as sementes controla a alimentação, portanto controla as pessoas, e não só as pessoas, controla a vida na Terra!

Qualquer lei que se interponha no caminho do dever ecológico, social e ético de guardar sementes, nós temos de desobedecer! »

Fonte: Tradução da maior parte da mensagem de Vandana Shiva no vídeo  acima. Imagens obtidas ma net.

Prefira Produtos Biológicos


Um excelente post (por Sónia Da Veiga) que nos informa:
  • Quais os 12 vegetais mais contaminados com pesticidas na agricultura "tradicional", e que por isso devemos dar prioridade aos produtos biológicos, ou cultivá-los nós mesmos de forma limpa, 
  • Quais os 15 vegetais que por norma são menos contaminados com pesticidas na agricultura "tradicional".

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sustentabilidade e reciclagem - uma visão jovem

Antigamente, a espécie humana vivia em harmonia com a natureza e com o planeta Terra. A certa altura, e especialmente a partir do século XX, esta espécie desatou a comprometer o futuro das gerações seguintes e das outras espécies através do consumo excessivo de recursos e da mania de se destacar da natureza, como se dela não dependesse e fizesse parte. Então, foi preciso inventar um termo que definisse este conceito perdido, e assim surgiu o conceito de Sustentabilidade (1987, no relatório Brundtland), que definia o desenvolvimento sustentável como "o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades". A partir daí, as definições de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável forma inúmeras, umas mais focadas no ambiente, outras na economia, outras na sociedade, outras nestes três pilares e outras ainda abrangendo a justiça social e a solidariedade. Entretanto, a palavra banalizou-se de tal modo, que hoje em dia falar em "sustentabilidade" serve para tudo, até para "embelezar" discursos políticos daqueles que muito contribuem para a insustentabilidade.

Mas o conceito real não desapareceu, ele existe em algumas civilizações a que erradamente chamamos atrasadas (como os indígenas da Amazónia), em novos grupos que praticam permacultura e nas ecocomunidades e comunidades em transição. Existe também, sob várias acepções, mais complexas ou mais simples, na mente e nos comportamentos de pessoas que se preocupam com a preservação da natureza e o futuro das próximas gerações.
Por isso, resolvi publicar o artigo com a visão de sustentabilidade de Alan Barbosa de Araújo, brasileiro de 16 anos de Jaboatão dos Guararapes (Estado de Pernambuco), que aqui deixou num comentário a uma mensagem anterior (as imagens fui eu que introduzi, e foram obtidas na net):

«Uma Vida Mais Sustentável

A "Sustentabilidade" é um tema muito abordado hoje em dia, que busca formas de reduzir o lixo e a poluição do meio ambiente através de ideias simples e facéis de seguir.
Este ano, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 está sendo realizada 20 anos depois, após a sua última conferência, a Rio 92. A ONU(Organização das Nações Unidas), busca discutir na conferência, formas de amenizar a poluição e o Aquecimento Global, e um dos seus principais objetivos é lutar por um planeta "mais sustentável".
Nesta concepção, a principal ideia e método é a "Reciclagem", separando o lixo por 4 itens:
* Plástico - Lixeira Azul;
* Metal - Lixeira Amarela;
* Papel - Lixeira Vermelha;
* Vidro - Lixeira Verde;
O termo "Sustentabilidade", pode se referir à "erguer algo", que no caso do nosso planeta, é mantê-lo de uma forma que ajude-o e não prejudique-o. Pode se referir também à "ter habilidade de sustentar algo", que agente adquire através de prática e bons hábitos.
Na Química, o "Alumínio", assim como o "Metal", é considerado um elemento químico, que é derivado do "Ferro" e é indicado por "Al". Enquanto que o "Ferro", por "Fe".
Este componente químico, como sofre um processo de industrialização e é utilizada a química, demora em torno de 3.000 anos para se decompor, diferentemente dos outros materiais, em que a reciclagem é bem mais fácil e reaproveitável.
Recentemente os lixões foram desativados por todo o país, através de um decreto público aprovado pelo Senado Federal. Essa foi uma medida adotada por Dilma Roussef, para não deixar o lixo amontoado pelos centros urbanos, nos aterros sanitários, e para abrir a mente das pessoas sobre a ideia de separar o lixo em seu devido lugar.
A "Sustentabilidade" tem como papel importante preservar a natureza e, sobretudo ajudar o nosso planeta à não ter futuras catástrofes que interfiram na nossa vida cotidiana.»

Antes de mais, Alan, gostei muito do seu texto, e achei a analogia com o "erguer algo", "de forma a ajudar e não prejudicar o nosso planeta", muito inspiradora e muito acertada. Mas, para completar, há umas partes que gostaria de esclarecer:

A reciclagem é sem dúvida muito importante, mas a sustentabilidade vai mais longe, e a redução do consumo (e consequente redução de resíduos) é fundamental para as sociedades que adotaram o estilo de vida consumista.

O que chamamos metal, abrange vários elementos químicos e misturas com elementos metálicos, misturas estas que podem ter ou não ferro; o alumínio é um metal e é um elemento, mas não é derivado do ferro; o alumínio é um metal leve e de excelentes caraterísticas físicas, mas a sua produção industrial é de consumo energético muito elevado (além de ser um recurso não renovável, como todos os metais). Por isso, muito melhor do que reciclar é reduzir o consumo, por exemplo, evitando refrigerantes de lata (evitar refrigerantes é ainda melhor para a saúde, mas sei que não é fácil para quem tem 16 anos).   

Nos 3R (que agora já são mais) dos resíduos, a ordem é importante: primeiro reduzir (o consumo e produção de resíduos), a seguir reutilizar, e por último, reciclar, quando já não é possível reduzir ou reutilizar.

Quanto aos contentores para separação e reciclagem, em Portugal são chamados de ecopontos, e os usos  por cores são diferentes: o azul é para papel e cartão, o amarelo é para embalagens metálicas e de plástico, o verde é para embalagens de vidro, e o vermelho, mais pequeno, o "pilhão", é para recolha de pilhas e baterias usadas (o melhor é usar recarregáveis); há ainda os "oleões", para recolha de óleos alimentares usados, os "electrões" para  eletrodomésticos, e ecopontos para lâmpadas,  mas são menos frequentes, e existem sobretudo nos supermercados. 
Numa pesquisa que fiz em sites do Brasil, vi que o contentor azul era para papel e o vermelho para o plástico, mas não sei se varia de estado para estado ou de cidade para cidade.

Obrigada, Alan, pelo seu contributo, e como dizem vocês aí no Brasil, "valeu"! Está no bom caminho!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Mondego

O documentário "Mondego", de Daniel Pinheiro, é o projeto final de mestrado em Wildlife Documentary Production, da Universidade de Salford, Reino Unido.

Filmado em Maio e Junho de 2011, o filme é uma viagem que nos mostra a vida selvagem que depende do rio Mondego, desde a nascente até à foz, da Serra da Estrela ao oceano Atlântico.

Este documentário foi exibido hoje no Fórum "Os Nossos Rios", em Vila Nova de Famalicão, um fórum com intervenções muito interessantes sobre a preservação dos rios e em especial dos rios que atravessam ou fazem fronteira com o concelho. 



«Daniel Pinheiro realizou um documentário sobre a vida selvagem do rio Mondego, desde a nascente na Serra da Estrela, até à foz. Este filme foi o trabalho final do mestrado em produção de documentário em vida selvagem, da Universidade de Salford, no Reino Unido.

Com o documentário, o jovem natural de Coimbra quis captar a vida selvagem no rio Mondego e mostrar o rio Mondego para além da agricultura que caracteriza aquela zona, como a cultura de arrozal.

O filme foi filmado na primavera passada e para captar alguns dos animais - como por exemplo, os melros de água, as salamandras lusitânicas e milhafres pretos - Daniel Pinheiro passou muitas horas, pacientemente, junto ao rio»
Fonte: Boas notícias, 5/12/2011

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ajude as abelhas galegas contra as fumigações na Galiza

Os eucaliptos da Galiza estão a ser atacados pelo gorgulho e a solução achada pela indústria do papel e pelo Governo da  Galiza é a fumigação com um produto altamente tóxico para as abelhas (para além dos efeitos na saúde e no meio ambiente), o flufenoxuron, cuja venda está proibida na UE a partir de 1 de Agosto de 2012.

Em Abril passado foi entregue uma petição, resultante da ação de um grupo de pessoas e associações  que constituíram a Plataforma contra as Fumigacións. No entanto, os planos para as fumigações continuam, por isso, e já com mais de 100 mil assinaturas, a petição foi reaberta e pode ser assinada aqui


«Resumo do problema

1. A empresa espanhola de papel (ASPAPEL) pretende realizar, em colaboração com o Governo da Galiza e outras entidades,  e fumigações maciças das plantações de eucalipto galegas afetadas por um inseto, o Gonipterus  scutellatus.
2. A pulverização vai ser realizada com inseticida chamado comercialmente Cascade, cujo princípio ativo é uma substância chamada flufenoxuron.
3. Esta substância foi classificada como nociva pela União Europeia que proibiu a sua venda a partir de 1 de agosto deste ano (2012).
4. Um dos seus piores efeitos é ser altamente tóxica para as larvas das abelhas, como o próprio fabricante  reconhece no rótulo do produto.
5. Se esse produto for pulverizado maciçamente nos montes galegos , há um grande perigo de extermínio das povoações de abelhas, já muito reduzidas pela contínua utilização de pesticidas, segundo apontam os estudos científicos.
6. Se morrem as abelhas na Galiza, para além de outros efeitos nocivos para o ecossistema,  não ocorrerá a polinização da maior parte das plantas de que nos alimentamos , nós humanos e os animais que criamos para nos alimentarmos.
7. Sem polinização, não há reprodução destas plantas , e a nossa agricultura colapsará.
Entre as espécies como vegetais de que nos alimentamos, as seguintes dependem necessariamente da ação polinizadora das abelhas para produzir fruto e semente (ou são favorecidas por ela):
Árvores de fruto:
Macieira, pereira, castanheiro, kiwi, videira, amendoeira,  pessegueiro, cerejeira, ameixieira ...
Espécies forrajeiras:
Alfafa, trevo, linho, algodão...
Culturas hortícolas:
Tomate, couves , abóboras, curgetes,  pimentas,  cenouras, salsa, nabos, brócolos, panela, couve-flor, beringelas, melões, pepinos, morangos, framboesas, espargos, amoras, »

Fonte do texto e imagens: Plataforma contra as Fumigacións  (tradução minha)

domingo, 24 de junho de 2012

Rio+20 - Nos interstícios da malha

Para finalizar as mensagens sobre a Rio+20 por aqui, algumas imagens e um extrato do artigo de opinião de Luísa Schmidt no jornal Expresso deste fim de semana, intitulado "As Malhas do Mundo":

«Algo de frustrante perpassa nesta cimeira. Com o mundo aflito na crise e a Europa a jogar à bola, este Rio por pouco desagua em seco.
...
A medir pela atenção que lhe foi dada pelos grandes governos do mundo, este Rio+20 seria quase um Rio menos 40" não fosse a exuberante criatividade das suas 'outras' cimeiras. É que tal como há 20 anos, esta cimeira são duas. Uma, a cimeira dos chefes de Estado com as suas presenças e sobretudo com as suas marcantes ausências (Obama, Merkel, Cameron). Um circo que move uma colossal máquina de segurança e de burocracia jurídica e diplomática à sua volta. Mas há outra que move mais gente: a cimeira da cúpula dos povos. Aquela onde está o mundo a querer existir e a não aceitar que o impeçam , agora que a informação, o conhecimento e as redes permitem construir sociedade, quer os poderes queiram, quer não. E é por aqui que o futuro parece espreitar, por onde melhor se fabrica sustentabilidade, e por onde se recupera a humanidade.
...

Desta cimeira leva-se, assim, um sentimento duplo: por um lado um pessimismo lúcido, porque os governantes mais uma vez transformaram uma oportunidade num oportunismo e adiaram as urgências para um tempo que já não temos.
...
Por outro lado, também se leva daqui um otimismo igualmente lúcido, quando se percebe que o mundo anda a construir-se nos interstícios e, à medida que isso acontece, esses interstícios revelam afinal que  afinal há mais mundos dentro do Mundo numa grande rede que vai construindo o seu próprio caminho, que não é 'alternativo' nem apenas reativo, mas real e concretizável. É sobretudo aí que está tudo a ser feito: as ideias novas, a criatividade, a esperança, os projetos inovadores, a solidariedade e sobretudo a inteligência e a alegria.  ...»

Imagem obtida em Portal Aprendiz
Imagem obtida em Combate ao Racismo Ambiental
Imagem obtida em Cúpula dos povos   
Imagem obtida em Terra


«Ares Kagele, de Malauí, África Oriental, durante a Marcha Global da Cúpula dos Povos da Rio+20, em 20 de junho de 2012. Tradução: "Estou aqui para mostrar aos Estados que nós somos os donos da terra, das sementes e da vida. Queremos que eles entendam que não é para destruir nossa terra. Estamos aqui para demandar que eles discutam o que podem fazer para proteger nossa terra e para proteger nossa vida".» Fonte: Canal de PortalAprendiz no Youtube

sábado, 23 de junho de 2012

Rio+20 - Opinião de Boaventura Souza Santos

Na sequência de uma série de depoimentos sobre a Cimeira Rio+20 que foram sendo publicados aqui ao longo deste mês, faltava a voz do sociólogo Boaventura Souza Santos:

"Estamos hoje discutindo transformar bens da Natureza, como a água, a biodiversidade e os oceanos, em bens de mercado, quando eles deveriam ser considerados bens comuns. As discussões na Rio+20 estão fora de foco e não só por causa da economia verde, mas também por causa da redução da pobreza. O problema hoje no mundo não é discutir a redução da pobreza, mas sim a redução das desigualdades."
Leia a entrevista completa n'O Globo

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Rio+20 - balanço em imagens

Terminou a Cimeira Rio+20. Como uma imagem vale mais que mil palavras, penso que as seguintes caricaturas do cartoonista brasileiro Lute resumem muito bem o que se passou:





Fontes: Blog do Lute e Facebook do Lute 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"A vida não é um documento" - Vandana Shiva

Entrevista a Vandana Shiva, obtida em Estadão.com.br, no Rio de Janeiro. Por Roberta Pennafort:

«A senhora fica desanimada quando vê que questões como agricultura familiar e erradicação da pobreza extrema provavelmente ficarão de fora do documento final da Rio+20?

Vim sem grande expectativa com relação à conferência formal. Não é por que o documento não vai falar dessas causas que a luta das pessoas vai diminuir. Não vim atrás de um texto, e sim atrás da solidariedade. A vida não é um documento, é a preservação dos nossos rios e sementes; verde não é a cor do dinheiro, é a cor da vida. Confio muito mais na força das pessoas do que nas negociações, que são influenciadas pelas grandes corporações. Existe uma grande reunião de quem está preocupado com a paz e a justiça, o que nos permite pensar estratégias juntos. Em 92, podíamos entrar nos corredores e interferir, por isso chegamos a compromissos sobre o clima. Retrocedemos. Assim como as corporações estão comprando nossos governos, estão comprando a ONU. A Rio+20 será lembrada como a última tentativa das grandes corporações de desfazer as obrigações legais estabelecidas na Eco 92.


O que o cidadão comum pode fazer?

Todo mundo tem que declarar que o patenteamento das sementes é ilegal e imoral. A Monsanto (gigante da agroindústria, produtora líder de sementes geneticamente modificadas) não inventou as sementes, e patentes são dadas a invenções. Como governos deixam que eles cobrem royalties de fazendeiros, levando-os ao suicídio? O meu chamado às pessoas em todo o mundo é para o dia 2 de outubro, aniversário de Gandhi: Diga não ao patenteamento. Comecem a guardar sementes. Não importa se você não é um fazendeiro, faça em casa, na escola.

A senhora costuma ser criticada por defender metas consideradas inatingíveis, desconectadas da realidade capitalista. Como responde a isso?

É porque estou conectada com a realidade que ajo assim. Se não fosse, investiria em Wall Street enquanto eles quebram, acharia que as sementes foram criadas por uma empresa. Estamos vivendo num mundo em que os poderosos acham que a alucinação deles é a realidade. Para mim, a realidade é a da criança que morre de fome.

A senhora critica o crescimento econômico da Índia, por excluir 95% da população, mas crescimento econômico é o que todos os países perseguem. O que está errado?

Crescimento econômico é um indicador de quanto a natureza foi destruída. Nós temos que priorizar o bem-estar, e não o crescimento. Existe um ditado antigo que diz que quem tem o ouro escreve as regras, e quem escreve as regras recebe mais ouro. Meu país, em 1992, não tinha um problema grave de fome. Hoje, uma a cada duas crianças procura comida no lixo. Por quê? Porque comida se transformou numa commodity. A sociedade era muito mais igualitária antes do crescimento econômico, que só serviu para criar dez bilionários. Dizem que existe uma classe média em países como Índia e Brasil, mas para mim existe uma elite e uma grande parcela da população que acaba despossuída de seus recursos naturais. »


quarta-feira, 20 de junho de 2012

A voz da juventude na Rio+20

Há 20 anos, a canadense Severn Suzuki, então com 12 anos, ficou conhecida como "A menina que calou a ONU" na Conferência da Terra, a Cimeira Rio 92, com o seu discurso emotivo e profundo.

Imagem obtida na exame.abril
Hoje em dia, nós sabemos e ela sabe que não foi realmente ouvida, pois globalmente estamos bem pior. Pessoalmente, não acredito que a Rio+20 faça a diferença, porque os lideres mundiais continuam surdos à realidade das pessoas e da Terra e apenas têm ouvidos para as vozes $onante$ das grandes empresas multinacionais.

Mas a juventude continua a apelar aos líderes mundiais para mudarem de rumo. E ainda bem! Haja esperança!

Hoje foi a vez de Brittany Trilford (na foto), uma neozelandesa de 17 anos, discursar na cimeira, num discurso de 10 minutos que finalizou assim: "vocês têm 72 horas para decidir o destino de nossas crianças, dos meus filhos, dos filhos dos meus filhos. O cronômetro está contando, tic, tac, tic, tac".  A seguir, fica um vídeo com o seu apelo através da internet. 



E abaixo, um novo alerta de Severn Suzuki, desta vez referindo-se especificamente ao Canadá (o que não consta das legendas), país que tem tido retrocessos inacreditáveis nas políticas ambientais e cujo governo nitidamente a envergonha.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio+20 - O preço da natureza ou o preço da economia verde

Com o tema "Economia verde", uma das questões centrais da Cimeira Rio+20, que começa amanhã no Rio de Janeiro, é a colocação de um preço nos recursos, bens e serviços ambientais, assim como já estão a fazer com as taxas de carbono. Esta ideia pode até ter tido origem e defensores bem intencionados para proteger os recursos naturais, mas o perigo que ela representa numa civilização dominada pelo capitalismo predatório é assustador. Não, não apoio, não acredito neste caminho do qual apenas adivinho que leve à aceleração das injustiças sociais e da predação dos recursos naturais. Chegaremos ao ponto de pagar uma taxa pelo oxigénio que respiramos a corporações que compraram a Amazónia?   Sobre esta questão, aconselho a leitura da Carta de Evo Morales, presidente da Bolívia, aos povos indígenas do mundo, publicada em Outubro de 2010, antes da Cimeira de Cancun.


A seguir, a tradução do texto de Esther Vivas publicado no Público.es anteontem e no blogue da autora ontem:

«Quando a economia e o capitalismo se pintam de verde

Imagem obtida aqui
O verde vende. Desde a revolução verde , passando pela tecnologia verde, o crescimento verde até chegar aos "brotos verdes" que tinham de arrancar da crise. A última novidade: a economia verde. Uma economia que, ao contrário do que o próprio nome indica, não tem nada de "verde" para além dos dólares que esperam ganhar com ela aqueles que a promovem.


E a nova ofensiva do capitalismo global por privatizar e comercializar maciçamente os bens comuns, tem na economia verde o seu expoente máximo. Justamente num contexto de crise económica como a atual, uma das estratégias do capital para recuperar a taxa de lucro consiste em privatizar ecossistemas e converter “a vida” em mercadoria.


A economia verde será precisamente tema central da agenda da próxima Cimeira das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio +20, a ser realizada de 20 a 22 de Junho no Rio de Janeiro, vinte anos depois da Cimeira da Terra da ONU que em 1992 teve lugar na mesma cidade. E duas décadas depois, onde estamos? Onde ficaram conceitos como "desenvolvimento sustentável" cunhados na dita cimeira? Ou a ratificação da Convenção sobre Mudanças do Climáticas, que estabeleceu as bases do Protocolo de Quioto? Ou a Convenção sobre Diversidade Biológica, que foi então lançada? No papel, nem mais nem menos. Hoje estamos muito pior do que antes.


Durante estes anos, não só não se conseguiu travar as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, parar a desflorestação ... senão, pelo contrário, esses processos se agudizaram e intensificado. Assistimos, pois, a uma crise ecológica sem precedentes que ameaça o futuro da espécie e da vida no planeta, e tem um papel central na crise de civilização que enfrentamos.


Uma crise ambiental que demonstra a incapacidade do capitalismo para nos tirar da "beco sem saída" a que a lógica do crescimento ilimitado, o benefício a curto prazo, o consumismo compulsivo ... nos conduziu. E esta incapacidade de dar uma "saída" real, vimo-la claramente após as falhadas cimeiras do clima em Copenhague (2009), Cancun (2010), Durban (2011) ou na cimeira sobre a biodiversidade em Nagoya (Japão 2010), etc., onde acabaram por se colocar os interesses políticos e econômicos à frente das necessidades coletivas dos povos e do futuro do planeta.


Nestas cimeiras surgiram falsas soluções para as mudanças climáticas, soluções tecnológicas, desde a energia nuclear, passando pelos biocombustíveis até à captura e armazenamento de CO2 no subsolo, entre outras. Medidas que tentam esconder as causas estruturais que conduziram à atual crise ecológica, pretendendo de fazer negócios com ela, e que mais não farão que agravá-la.


Os laços estreitos entre aqueles que detêm o poder político e o poder económico explicam esta falta de vontade para dar uma resposta eficaz. As políticas não são neutras. Um solução real implicaria uma mudança radical no atual modelo de produção, distribuição e consumo, enfrentar a lógica produtivista do capital. Tocar no núcleo duro do sistema capitalista. E aqueles que detêm o poder político e económico não estão dispostos a isso, a acabar com a sua "galinha dos ovos de ouro."


Agora, vinte anos depois, querem-nos "vender a moto" da economia verde como a solução para a crise económica e ecológica. Outra grande mentira. A economia verde procurar apenas fazer negócios com a natureza e com a vida. Esta é a neocolonização dos recursos naturais, aqueles que ainda não foram privatizadas, e pretende transformá-los em mercadorias para compra e venda.


Os seus promotores são precisamente aqueles que levaram à situação de crise em que estamos: grandes empresas multinacionais, com o apoio ativo dos governos e instituições internacionais. As empresas que monopolizam o mercado de energia (Exxon, BP, Chevron, Shell, Total), da agroindustria (Unilever, Cargill, DuPont, Monsanto, Procter & Gamble), das farmacêuticos (Roche, Merck), da química (Dow , DuPont, BASF) são os principais impulsionadores da economia verde.


Assistimos a um novo ataque aos bens comuns, donde quem saímos a perder somos os 99% e o nosso planeta. E especialmente as comunidades indígenas e camponesas do Sul global, cuidadoras desses ecossistemas, que serão expropriadas e expulsas dos seus territórios para o benefício das empresas multinacionais que procuram negociar esses ecossistemas.


Com a cimeira Rio +20 pretende-se criar o que poderíamos chamar de "uma nova governança ambiental internacional" para consolide a mercantilização da natureza e que permita um maior controle oligopolista dos recursos naturais. Em suma, abrindo caminho para que as corporações internacionais se apropriem dos recursos naturais, legitimando práticas de roubo e usurpação. A resposta está em nossas mãos, dizer "não" e expor o capitalismo como uma economia que se tinge de verde

Fontes: Esther Vivas | Público, 17/06/2012



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Curar não dá lucro

A entrevista a Richard J. Roberts (abaixo transcrita ), premiado com o Nobel da Medicina em 1993, foi publicada há cerca de um ano no Vanguardia . Mas julgo que continua oportuno divulgá-la. Porque o capitalismo é insustentável e para que se saiba do que a indústria é capaz! Neste caso, trata-se da farmacêutica, mas o mesmo sistema funciona em outras indústrias, como por exemplo, dos agroquímicos e dos transgénicos - o objetivo é o lucro, a qualquer preço!


Richard J. Roberts. Foto de Wally Hartshorn (obtida aqui)
"As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis"

«O Prémio Nobel da Medicina Richard J. Roberts denuncia a forma como funcionam as grandes farmacêuticas dentro do sistema capitalista, preferindo os benefícios económicos à saúde, e detendo o progresso científico na cura de doenças, porque a cura não é tão rentável quanto a cronicidade.


Há poucos dias, foi revelado que as grandes empresas farmacêuticas dos EUA gastam centenas de milhões de dólares por ano em pagamentos a médicos que promovam os seus medicamentos. Para complementar, reproduzimos esta entrevista com o Prémio Nobel Richard J. Roberts, que diz que os medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos cronificadores que sejam consumidos de forma serializada. Isto, diz Roberts, faz também com que alguns medicamentos que poderiam curar uma doença não sejam investigados. E pergunta-se até que ponto é válido e ético que a indústria da saúde se reja pelos mesmos valores e princípios que o mercado capitalista, que chega a assemelhar-se ao da máfia.


A investigação pode ser planeada?
Se eu fosse Ministro da Saúde ou o responsável pelas Ciência e Tecnologia, iria procurar pessoas entusiastas com projectos interessantes; dar-lhes-ia dinheiro para que não tivessem de fazer outra coisa que não fosse investigar e deixá-los-ia trabalhar dez anos para que nos pudessem surpreender.
Parece uma boa política.
Acredita-se que, para ir muito longe, temos de apoiar a pesquisa básica, mas se quisermos resultados mais imediatos e lucrativos, devemos apostar na aplicada ...
E não é assim?
Muitas vezes as descobertas mais rentáveis foram feitas a partir de perguntas muito básicas. Assim nasceu a gigantesca e bilionária indústria de biotecnologia dos EUA, para a qual eu trabalho.
Como nasceu?
A biotecnologia surgiu quando pessoas apaixonadas começaram a perguntar-se se poderiam clonar genes e começaram a estudá-los e a tentar purificá-los.
Uma aventura.
Sim, mas ninguém esperava ficar rico com essas questões. Foi difícil conseguir financiamento para investigar as respostas, até que Nixon lançou a guerra contra o cancro em 1971.
Foi cientificamente produtivo?
Permitiu, com uma enorme quantidade de fundos públicos, muita investigação, como a minha, que não trabalha directamente contra o cancro, mas que foi útil para compreender os mecanismos que permitem a vida.
O que descobriu?
Eu e o Phillip Allen Sharp fomos recompensados pela descoberta de introns no DNA eucariótico e o mecanismo de gen splicing (manipulação genética).
Para que serviu?
Essa descoberta ajudou a entender como funciona o DNA e, no entanto, tem apenas uma relação indirecta com o cancro.
Que modelo de investigação lhe parece mais eficaz, o norte-americano ou o europeu?
É óbvio que o dos EUA, em que o capital privado é activo, é muito mais eficiente. Tomemos por exemplo o progresso espectacular da indústria informática, em que o dinheiro privado financia a investigação básica e aplicada. Mas quanto à indústria de saúde... Eu tenho as minhas reservas.
Entendo.
A investigação sobre a saúde humana não pode depender apenas da sua rentabilidade. O que é bom para os dividendos das empresas nem sempre é bom para as pessoas.
Explique.
A indústria farmacêutica quer servir os mercados de capitais ...
Como qualquer outra indústria.
É que não é qualquer outra indústria: nós estamos a falar sobre a nossa saúde e as nossas vidas e as dos nossos filhos e as de milhões de seres humanos.
Mas se eles são rentáveis investigarão melhor.
Se só pensar em lucros, deixa de se preocupar com servir os seres humanos.
Por exemplo...
Eu verifiquei a forma como, em alguns casos, os investigadores dependentes de fundos privados descobriram medicamentos muito eficazes que teriam acabado completamente com uma doença ...
E por que pararam de investigar?
Porque as empresas farmacêuticas muitas vezes não estão tão interessadas em curar as pessoas como em sacar-lhes dinheiro e, por isso, a investigação, de repente, é desviada para a descoberta de medicamentos que não curam totalmente, mas que tornam crónica a doença e fazem sentir uma melhoria que desaparece quando se deixa de tomar a medicação.
É uma acusação grave.
Mas é habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em linhas de investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores muito mais rentáveis que os que curam de uma vez por todas. E não tem de fazer mais que seguir a análise financeira da indústria farmacêutica para comprovar o que eu digo.
Há dividendos que matam.
É por isso que lhe dizia que a saúde não pode ser um mercado nem pode ser vista apenas como um meio para ganhar dinheiro. E, por isso, acho que o modelo europeu misto de capitais públicos e privados dificulta esse tipo de abusos.
Um exemplo de tais abusos?
Deixou de se investigar antibióticos por serem demasiado eficazes e curarem completamente. Como não se têm desenvolvido novos antibióticos, os microorganismos infecciosos tornaram-se resistentes e hoje a tuberculose, que foi derrotada na minha infância, está a surgir novamente e, no ano passado, matou um milhão de pessoas.
Não fala sobre o Terceiro Mundo?
Esse é outro capítulo triste: quase não se investigam as doenças do Terceiro Mundo, porque os medicamentos que as combateriam não seriam rentáveis. Mas eu estou a falar sobre o nosso Primeiro Mundo: o medicamento que cura tudo não é rentável e, portanto, não é investigado.
Os políticos não intervêm?
Não tenho ilusões: no nosso sistema, os políticos são meros funcionários dos grandes capitais, que investem o que for preciso para que os seus boys sejam eleitos e, se não forem, compram os eleitos.
Há de tudo.
Ao capital só interessa multiplicar-se. Quase todos os políticos, e eu sei do que falo, dependem descaradamente dessas multinacionais farmacêuticas que financiam as campanhas deles. O resto são palavras…»

Fonte: Esquerda.net (tradução de Ana Bárbara Pedrosa)

E para quem quiser ir mais a fundo no tema, leia a entrevista à ex-médica Ghislaine Lanctot sobre o seu livro a Máfia Médica. Se é teoria da conspiração ou se há conspiração mesmo, fica ao seu critério.

domingo, 17 de junho de 2012

Catastroika - A privatização da democracia

«A crise mundial que o sector privado criou
tornou-se um pretexto para o ataque generalizado aos bens públicos»

A não perder, o documentário Catastroika, que mostra onde leva (e para quem) a onda de privatizações ao desbarato das infraestruturas essenciais. A quem não tiver tempo de ver o documentário todo, recomendo especialmente a parte sobre a privatização da água (13 minutos: de 0:50:40 a 1:04:00).



«Num momento em que as políticas de austeridade se comprovam como catastróficas, vale a pena ver Catastroika, filme dos mesmos autores de Dividocracia, agora no Youtube com legendas em português. O filme de Aris Chatzistefanou e Katerina Kitidi explica as motivações por trás das privatizações e as consequências brutais desta austeridade selvagem que, com a desculpa da dívida, traz apenas uma resposta - a subjugação e a miséria.

Catastroika denuncia exemplos concretos na Rússia, Chile, Inglaterra, França, Estados Unidos e, obviamente, na Grécia, em sectores como os transportes, a água ou a energia. Produzido através de contribuições do público, conta com o testemunho de nomes como Slavoj Žižek, Naomi Klein, Luis Sepúlveda, Ken Loach, Dean Baker e Aditya Chakrabortyy.
De forma deliberada e com uma motivação ideológica clara, os governos daqueles países estrangulam ou estrangularam serviços públicos fundamentais, elegendo os funcionários públicos como bodes expiatórios, para apresentarem, em seguida, a privatização como solução óbvia e inevitável. Sacrifica-se a qualidade, a segurança e a sustentabilidade, provocando, invariavelmente, uma deterioração generalizada da qualidade de vida dos cidadãos.
...
Se a Grécia é o melhor exemplo da relação entre a dividocracia e a catastroika, ela é também, nestes dias, a prova de que as pessoas não abdicaram da responsabilidade de exigir um futuro. Cá e lá, é importante saber o que está em jogo — e Catastroika rompe com o discurso hegemónico omnipresente nos media convencionais, tornando bem claro que o desafio que temos pela frente é optar entre a luta ou a barbárie.»
Fonte: 420doc

E a propósito das eleições de hoje na Grécia, transcrevo uma parte do texto de Nuno Ramos de Almeida, publicado no iOnline: 

Imagem de Reuters obtida em Dawn.com
«O berço ou a urna da democracia


Na Europa da troika os povos têm direito de ir às urnas apenas para votar naquilo que foi decidido para eles. É como na velha anedota em que um pai anuncia ao filho que é totalmente livre para escolher o seu futuro: “Meu filho, quer queiras quer não hás-de ser bombeiro voluntário.” Os poderes que mandam na Europa permitem que a Grécia eleja o seu governo desde que execute a política que a troika ordena.
...
O programa único dos memorandos da troika não é neutral. Nem pretende resolver a crise económica para todos. Aliás, desse ponto de vista, é uma catástrofe: Portugal e a Grécia vão acabar o período da dita ajuda a dever mais dinheiro e com a economia em pior estado que antes dos empréstimos da troika. A maré negra que alastrou a Espanha e a Itália não vai parar. ...»

sábado, 16 de junho de 2012

A história de um grande conluio (PPP)



‎"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada;
 Quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores;
 Quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;
 Quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício;
 Então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".

Ayn Rand (1905–1982), filósofa russo-americana

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Agricultura saudável

No Verão passado frequentei um dos Cursos de Verão da Universidade Católica - Biotecnologia, chamado "Hortas urbanas para todos: do conceito à colheita". Foram abordados os princípios da agricultura biológica, técnicas, consociações, fertilização natural do solo, e sobretudo, o respeito pelo equilíbrio dos sistemas ecológicos.  Falamos da interacção entre animais, plantas e solo, e apenas vislumbrei um manancial de informação que todos os agricultores deviam ter, que antigamente sabiam, e que a agricultura do sec. XX com as suas monoculturas extensivas (quase) enterrou!

O princípio fundamental da agricultura biológica  é o respeito pela natureza e a estrita proibição de pesticidas ou adubos químicos de síntese. O solo é também um dos pilares fundamentais: ao contrário da agricultura "tradicional" que empobrece e mata o solo, com a prática da agricultura biológica o solo é enriquecido. Toda a matéria orgânica não consumida é devolvida ao solo (e mesmo parte da consumida: o estrume). Com compostagem ou sem compostagem (adubação verde).

A agricultura biológica baseia-se na biodiversidade: para além de  certas plantas atuarem como "defensoras" ou "ajudantes" de outras (consociações), se ocorrer uma devastação de uma espécie, por doença, praga ou intempérie, há uma grande probabilidade de outras espécies resistirem e não haver grandes perdas.

A agricultura biológica depende de uma miríade de insectos polinizadores, como as abelhas, e de insectos predadores de outros insectos "vegetarianos", cujo exemplo paradigmático é a joaninha, que é uma feroz devoradora de pulgões e outros pequenos insectos que atacam as plantas. Por isso, e porque a joaninha é extremamente sensível e só aparece onde não há aplicação de pesticidas, ela é o símbolo da agricultura biológica. Para os atrair, certas flores (como os cravos-de-tunes) e as plantas aromáticas  são fundamentais.


A agricultura biológica é um termo que se usa para a agricultura "certificada", e tal como definida em regulamento da União Europeia  (no caso do Brasil, chama-se agricultura orgânica). Neste tipo de agricultura são permitidos alguns produtos químicos menos agressivos para o ambiente, como o caso da calda bordalesa (mistura de cal e sulfato de cobre) e técnicas de "guerrilha biológica", como a "largada" de certos insetos predadores destinados a controlar determinada espécie que se tornou praga. Mas sempre, em último caso.


Na agricultura natural ou ecológica, que vai mais além no respeito pela natureza do que a agricultura biológica, tais produtos e métodos não são usados (sobretudo porque não são precisos), pois esta não se dedica a cultivos extensivos de poucas espécies, mas a cultivos intensivos de uma grande biodiversidade que proporciona o equilíbrio.

A agricultura ecológica não é gananciosa, pois sabe que precisa de "perder" uma parte das suas culturas para manter o equilíbrio do ecossistema. Por exemplo, os melros são predadores de caracóis, mantendo-os em número controlado. Mas há que contar que eles também vão comer uma parte dos frutos.  No fim, chega para todos: para nós, para os pássaros, para os bichinhos vegetarianos e para os insectos predadores...

A agricultura natural tem como princípio a prevenção e o equilíbrio com base no conhecimento dos ciclos e relações na natureza, e evita a todo o custo intervir para remediar. Mas por vezes, desequilíbrio acontecem. E não é por termos uns determinados bichinos por nós indesejados numa ou outra planta que temos uma praga, pois isso é natural. Considera-se uma praga quando uma grande parte de determinada espécie está a ser atacada. Nesses casos, a agricultura natural aplica alguns produtos e técnicas também naturais, como é o caso do chá ou do chorume de urtiga (insecticida natural). E a seguir, tenta descobrir porque é que esse desequilíbrio aconteceu, para tentar evitá-lo no futuro.


No princípio deste ano, frequentei um Curso de Planeamento em Permacultura (PDC= Permaculture Design Course) na Fundação de Serralves, Porto. A permacultura vai muito além da agricultura, pois integra um conjunto de áreas diferentes de modo a poder projetar e manter habitats humanos sustentáveis com o menor consumo energético possível (mesmo energia humana). Mas na base, e para que nos sustentemos no que há de mais essencial- a alimentação - lá está a agricultura ecológica, embora o ênfase na permacultura esteja na agricultura permanente e na agrofloresta.

No fundo, agricultura biológica, agricultura natural ou ecológica, permacultura ou agrofloresta são as facetas da agricultura saudável: aquela que, e por oposição à  agricultura química ( dita "tradicional do século XX"  ou da "Revolução Verde"), não nos envenena, não envenena o solo, a água ou o ar! Antes pelo contrário!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Economia verde versus Economia solidária " - Leonardo Boff

Leonardo Boff é uma das vozes que vem "gritando" contra o sistema económico e social de hoje, contra o capitalismo predatório de recursos naturais que enfraquece as sociedades humanas, contra a criminosa distribuição de riqueza que o sistema implica, e que tem defendido que só há futuro para a humanidade se mudarmos de era: se passarmos da era antropozoica para a era ecozoica.

Mas não é com a "economia verde" assente no mesmo sistema de capitalismo predatório e injusto que vamos lá.  A poucos dias da Cimeira Rio+20, depois da opinião de Vandana Shiva e da Campanha das Sementes Livres, não podia aqui faltar a crítica de Leonardo Boff sobre  o Documento Zero da ONU para a Rio+20 e sobre o futuro que realmente queremos:

Imagem obtida em envolverde
«Economia verde versus Economia solidária  (04/06/2012)

por Leonardo Boff

O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Através dele e nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A economia verde radicaliza esta tendência, pois como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón “ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas mas também sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bonos negociáveis  pelo mercado e pelos bancos. Destarte o texto se revela definitivamente  antropocêntrico como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles e não a outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta.


Resumidamente: “O futuro que queremos”, lema central do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este  se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto destes, não avançar é retroceder e fechar as portas para o novo.


Há outrossim um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marron ou de verde, ela guarda sempre sua lógica interna que seformula nesta pergunta: quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres. Nesta guerra nãopossuimos nenuma chance de vitória. Ela ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença. Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nosquer dizer (pelos eventos extremos, pelos tsunamis etc), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações mas não nos dita comportamentos. Estes devem se inventados por nós mesmos. Eles somente serão  bons caso estiverem  em conformidade com seus ritmos e ciclos.


Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada  bioregião, destribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida. Ela ganha corpo hoje através da economia biocentrada, solidária, agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir  sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e consumidores numa verdadeira democracia alimentar.


A Rio 92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório  Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para  seu campo e assim distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava nela, eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera.


Isso não é superado pela economia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que produziu o texto teórico do PNUMA Iniciativa da Economia Verde. Com isso, astutamente  descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança de olhar sobre o planeta  que possa projetar um  real futuro para a Humanidade e para a Terra.


Junto com a Rio+20 seria um ganho  resgatar também a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial da ONU de 5-15 de julho de1972 em Estocolmo na Suécia  sobre o Ambiente Humano, o foco central não era o desenvolvimento mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde.»

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/06/04/economia-verde-verus-economia-solidaria/ (os links e os negritos fui eu que coloquei)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Morte dos Oceanos

No Dia Mundial dos Oceanos, o documentário da BBC "The Death of the Oceans?" (2010-2011) com David Attenborough, que revela os resultados de uma investigação sobre o que está a acontecer com a biodiversidade dos oceanos.



A seguir, o trailer do filme Midway (que ainda está a ser produzido) sobre o impacto devastador numa comunidade de albratrozes dos resíduos de plástico (e não só) que "desaguam" e se concentram em imensas ilhas de lixo nos oceanos (para saber mais sobre o projeto Midway, vá ao respetivo site, ou, em português, no blogue Ecoliteracia).


MIDWAY : trailer : a film by Chris Jordan from Midway on Vimeo.

E por último, uma animação muito otimista (muito mesmo) sobre os oceanos, para a Rio+20 (Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável), que irá decorrer este mês, 20 anos depois da Rio 92.




terça-feira, 5 de junho de 2012

Vandana Shiva: “financeirização da economia está na raiz da crise”

Para marcar o Dia Mundial do Ambiente (sim, para marcar, porque há mais a lamentar do que a celebrar), transcrevo o artigo de Ana Paula Salviatti publicado hoje na Carta Maior sobre a entrevista a Vandana Shiva: “financeirização da economia está na raiz da crise” (também publicado hoje no Correio do Brasil).

Vandana Shiva: “financeirização da economia está na raiz da crise”
Imagem obtida no site de Vandana Shiva
«Em entrevista à Carta Maior, a ativista indiana Vandana Shiva fala sobre suas expectativas em relação a Rio+20. Ela não acredita que a conferência da ONU consiga firmar compromissos de mudanças mais significativas em função da influência das grandes corporações. Neste cenário, defende, o papel da Cúpula dos Povos adquire maior importância. Para Vandana Shiva, a crise atual não poderá ser resolvida com mais financeirização e mais mercantilização.»
Ana Paula Salviatti



«Vandana Shiva, que participará da Rio+20 e da Cúpula dos Povos, é a autora do livro ‘The Violence of Green Revolution’ de 1991 (A Violência da Revolução Verde), uma leitura obrigatória para o debate sobre a produção agrícola alterada pela ‘Revolução Verde’; ‘revolução’ que trouxe para o plano agrícola a lógica que impôs o uso de pesticidas e sementes transgênicas, dentre muitas outras modificações, que Vandana explora profundamente em seu livro, infelizmente ainda sem tradução para o português.


Ela é defensora dos direitos humanos e do meio ambiente, os quais infelizmente muitas vezes são defendidos como causas separadas, mas que possuem intrínseca conexão pois os dois são explorados, cada um a sua forma, pela lógica econômica capitalista.


Vandana trabalha por uma economia verde sem dogmas e não foge ao debate sobre questões necessárias para barrar o avanço da situação que se encontram tanto trabalhadores, como natureza. A ativista também levanta a bandeira da situação das mulheres indianas, da segurança alimentar e da preservação dos povos e culturas locais. É fundadora da ONG indiana Navdanya, que, entre outras agendas, estimula a agricultura orgânica local.


Infelizmente seu livro “The Violence of Green Revolution” não foi traduzido para o português até hoje. Você poderia trazer ao nosso leitor uma exposição dá época em que ele foi escrito juntamente de uma análise dos desdobramentos que se deram dos anos 80 prá cá em relação as perdas da agricultura, não só na Índia como nos outros países.


Comecei a fazer a pesquisa sobre a violência da Revolução Verde em 1984, ano da violência no Punjab, onde a Revolução Verde foi implementada pela primeira vez em 1965. A Revolução Verde teve um Prêmio Nobel da Paz, mas em 1984, Punjab era uma terra de guerra. 30.000 pessoas foram mortas pela violência em Punjab, que é um número 6 vezes maior do que os mortos na tragédia do 11/9. O ano de 1984 foi também o ano do desastre de Bhopal, onde uma fábrica de pesticidas, da ‘Union Carbide’ (hoje Dow), vazou e matou 3.000 pessoas. Desde então, 30.000 pessoas morreram.. Hoje a Índia é a capital da fome e dos suicídios de agricultores. Desde 1997, 250.000 agricultores foram presos por dívidas e tiraram suas vidas.


A senhora traçaria um paralelo entre o modo de produção voltado ao abastecimento e especulação do mercado, as reservas naturais e as condições que se encontram a mão de obra trabalhadora no seu país? Outras regiões do mundo trariam condições semelhantes?


O modelo econômico dominante desperdiça recursos e pessoas. Apesar destes resíduos serem chamados de “eficiente” e “produtivo”. Ele substituiu a produção com a especulação do capital financeiro, e do consumismo para as pessoas. Este modelo é: destruir a natureza e a sociedade em si.


Reformas ou Revolução? O que e o porque a senhora acredita ser necessário para impedir o avanço da situação de degradação das condições tanto humanas quanto naturais contemporâneas?


Duas coisas são necessárias para acabar com essa deterioração. Em primeiro lugar, uma mudança de paradigma e visão de mundo. Em segundo lugar, as pessoas levantarem-se coletivamente e dizer “Basta”. Chega.


A senhora terá a oportunidade de participar da Rio+20 e da Cúpula dos Povos. Quais seriam na sua opinião, as limitações e as contribuições que cada uma delas poderão nos trazer?


A Rio+20 será limitada em firmar compromissos em função da influência das grandes corporações. Essas contribuições podem ser significativas, se reconhecerem a necessidade de restabelecer a harmonia com a natureza – objeto de uma sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas no ano passado – e se reconhecerem que a agricultura ecológica é o caminho para a proteção do planeta e da Segurança Alimentar. A Cúpula dos Povos, os Direitos da Mãe Terra, e o compromisso para uma transformação serão vitais.


Não haveria uma lógica comum entre os mecanismos financeiros criados em torno da questão ambiental e ativos financeiros comuns? Esta mesma lógica é capaz de lidar com problemas ambientais, criados muitas vezes por ela própria? O que a senhora poderia falar sobre este assunto?


Há um provérbio africano que diz: “Você não pode colocar um bezerro dentro de uma vaca bezuntando-o com lama”. A financeirização da economia e a consequente redução da economia a um casino, e os recursos do planeta e processos em mercadorias privatizadas, são a a raiz das crises ecológicas e econômicas. Estas crises não podem ser resolvidas por mais financeirização e mercantilização.»